O acordo de paz entre Estados Unidos e Irã pode provocar mudanças importantes no equilíbrio geopolítico do Oriente Médio. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), William Gonçalves, que vê o entendimento como um fortalecimento da posição iraniana no cenário internacional.
O anúncio foi celebrado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou em suas redes sociais que o acordo representa um marco diplomático e o encerramento das hostilidades entre os dois países. A Casa Branca também divulgou mensagens classificando o entendimento como uma vitória da diplomacia norte-americana e um passo para a estabilidade regional.
Do lado iraniano, autoridades afirmaram que o país saiu fortalecido das negociações. A agência Reuters mostrou que integrantes do governo de Teerã avaliam que o acordo preserva os interesses estratégicos iranianos e mantém sua influência regional.
Para William Gonçalves, o principal impacto geopolítico do acordo é a consolidação do Irã como uma potência regional.
“O Irã se afirma como uma potência média e como país importante no bloco Brics. Legitima sua estrutura política, que os EUA pretendiam derrubar”, afirmou.
Na avaliação do especialista, o entendimento também frustra os interesses de Israel na região.
“Impede a hegemonia de Israel e demonstra sua capacidade de influir no andamento da economia mundial”, destacou.
Apesar do acordo, Gonçalves não acredita que as tensões no Oriente Médio estejam encerradas. Segundo ele, questões ligadas ao conflito Israel e Palestina continuarão gerando instabilidade.
“Israel não desistirá de impedir definitivamente a criação de um Estado palestino. O atos praticados em Gaza e na Cisjordânia sempre serão um comportamento repudiado pelo Irã”, afirmou.
O professor também avalia que o resultado das negociações representa um revés para setores tradicionais da política externa norte-americana.
“A guerra contra o Irã sempre contou com a aprovação das elites dos EUA. Essa não é uma derrota de Trump, é uma derrota do establishment norte-americano. Trump traiu sua base eleitoral, a qual havia prometido não fazer guerras, para obter apoio congressual fazendo uma guerra de prestígio nacional. Deu tudo errado”, concluiu.
Irã e Brics
Na avaliação de William Gonçalves, o acordo também fortalece o papel do Irã dentro do cenário internacional e amplia sua relevância entre os países emergentes.
“O Irã se afirma como uma potência média e como país importante no bloco Brics”, afirmou o especialista.
O país ingressou oficialmente no Brics em 2024 e, desde então, busca ampliar sua participação em fóruns multilaterais e reduzir a dependência de mecanismos financeiros controlados pelas potências ocidentais. Para Gonçalves, a manutenção da estrutura política iraniana após anos de sanções econômicas e pressões internacionais representa uma demonstração de resistência do governo de Teerã.
Segundo o pesquisador, o acordo reforça a legitimidade internacional do país e reduz os efeitos do isolamento diplomático imposto por adversários ao longo das últimas décadas.
Acordo não encerra tensões na região
Apesar do entendimento firmado entre Washington e Teerã, Gonçalves acredita que os conflitos no Oriente Médio estão longe de serem resolvidos.
Segundo ele, questões históricas envolvendo Israel, Palestina e a disputa por influência regional continuarão sendo fatores de instabilidade. O especialista avalia que os países vizinhos deverão reavaliar suas relações diplomáticas diante do novo cenário político criado após o acordo.
“Devido à reação iraniana à agressão de israelenses e norte-americanos, os Estados vizinhos devem repensar suas ligações com Israel e com os EUA. Esse quadro sempre provocará conflitos”, afirmou.

