O Hamas anunciou nesta segunda-feira (06) a saída do grupo islâmico do governo da Faixa de Gaza. A decisão repercutiu ao redor do mundo como uma oportunidade para criação de um comitê que pode estabelecer um governo civil na região.
No anúncio, Ismail al-Thwabta, chefe do gabinete de imprensa do Hamas, não abordou a possibilidade de desarmamento, contudo afirmou que o grupo está pronto para favorecer o acordo dando esse passo. Vale pontuar que o Hamas controla a região desde 2007.
Em entrevista exclusiva para O Brasilianista, Ana Beatriz Zanuni, líder técnica de Comércio e Política Internacional na BMJ Consultores Associados, explicou que a medida tem um impacto político relevante.
O que muda com a saída do Hamas?
“O perfil radical e as ações do grupo serviram como o principal pilar justificativo para as campanhas militares e as políticas de controle de Israel tanto em Gaza quanto na Cisjordânia. Com a saída do Hamas do poder, Israel pode ser mais pressionado a reavaliar suas estratégias militares e de controle do território palestino”, pontuou.
A especialista ainda destacou que a saída favorece a viabilização de um acordo de paz, especialmente o defendido pelo governo norte-americano.
Já Beny Fard, analista político e econômico e CEO da B8 Partners, entende que o anúncio deve alterar pouco a situação no terreno e justifica “já que o Hamas e suas forças de segurança continuam mantendo controle firme sobre a parte de Gaza que Israel não ocupa militarmente”.
Conselho da Paz de Trump se posiciona
O Conselho da Paz, criado por Trump, reagiu à notícia por meio do X. “Em última análise, nossa avaliação será guiada por ações, e não por promessas, para atender às necessidades críticas da população de Gaza”, começou o texto.
E completou: “O princípio fundamental permanece sendo: uma única autoridade, uma única lei e uma única arma. Isso significa a consolidação de todas as armas sob o controle do Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG), conforme previsto no Plano Abrangente de Paz para Gaza e na Resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas”.
We have taken note of the announcement today regarding the dissolution of the “Emergency Committee” in Gaza. Ultimately, our assessment will be guided by actions, not promises, to meet the critical needs of the people of Gaza. Decisions must be comprehensive with respect to the…
— Board of Peace (@BoardOfPeace) July 6, 2026
O que acontece agora?
O próprio parecer do Conselho de Paz nas redes sociais deixa claro que a decisão do Hamas não se traduz automaticamente em um desfecho do conflito. Como eles mesmo destacam, o desarmamento segue como ponto incerto, o que para os EUA e Israel é essencial para a formalização do acordo, conforme enfatiza Fard.
“É uma renúncia administrativa e simbólica, não uma entrega de poder de fato, e eventualmente serviria como movimento calculado para pressionar Netanyahu e apelar diretamente a Trump por demonstrar governança, mas mantendo o aparato de segurança”, comenta o especialista.
Zanuni destaca: “Atualmente, as forças israelenses ocupam cerca de 60% da Faixa de Gaza e o governo indica que não há intenção de retirada das tropas. Diante desse cenário, a viabilização de um cessar-fogo efetivo e do encerramento do conflito ainda exigirá um esforço diplomático”.
Para ela, o provável é que isso seja conduzido, junto a Israel, pelo Comitê Nacional para a Administração de Gaza, previsto pelo plano de paz e formado por tecnocratas palestinos, se confirmada a transição da supervisão do governo.
Contudo, não há prazos concretos definidos, principalmente, porque, como mencionado acima, um ponto-chave para Israel e EUA, o desarmamento do Hamas, não foi abordado.
Como ficam os EUA nisso?
Um dos principais interessados no acordo de paz é justamente os Estados Unidos, que vem exercendo papel de destaque nas mediações. Com a transição do governo para o Comitê Nacional, não deve ser diferente, até por uma proximidade com Israel, conforme destaca Zanuni.
“Ainda assim, mesmo que os países sejam aliados históricos, recentes impasses entre Trump e Netanyahu indicam que uma solução de curto prazo não está garantida”, acrescenta.
O fim desse conflito também pode influenciar na Guerra do Irã, por isso, a especialista afirma: “Viabilizar que as soluções avancem concomitantemente deve ser uma das prioridades do governo Trump, por mais que os efeitos concretos ainda sejam incertos”.
Além dos EUA e Israel, Fard lista outros três países afetados pela medida: “Catar, Turquia e Egito, que tentam apresentar uma frente unida perante Trump para mostrar avanço do acordo”. Ele enxerga que a Arábia Saudita também possui interesse geopolítico, uma vez que passa por uma reaproximação com Israel.
Brasil deve ser afetado?
Ambos entrevistados destacam o papel “apaziguador” do Brasil diante do conflito, por isso Fard acredita que o país seguirá desempenhando um papel diplomático, pró-solução dos dois Estados.
Ademais, Zanuni pontua: “Estamos em um momento estratégico para as eleições presidenciais, o que faz com que Gaza tenha menos espaço dentre as prioridades brasileiras. Não apenas porque o cenário doméstico demanda mais atenção, mas também porque outros temas internacionais exigem um foco maior do governo brasileiro no momento, como é o caso das tarifas impostas pelos Estados Unidos“.
Ela ainda finaliza que apesar do apoio popular ao Hamas tender a crescer em momentos de conflito, geralmente é voltada à percepção de necessidade de defesa em relação a investidas de Israel no território palestino. “No que tange ao governo em si, a popularidade é mais baixa, considerando a postura mais radical e armada, que pode não refletir em benefícios para a população”, conclui.

