O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) manteve os juros da economia americana na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, de forma unânime, o que já era esperado pelo mercado. O destaque ficou para o recado de inflação.
Poucos dias antes da decisão, Estados Unidos e Irã fecharam o acordo que encerra quase quatro meses de guerra e reabre o Estreito de Ormuz temporariamente. Foi exatamente esse conflito, com o Estreito praticamente fechado, por onde passa cerca de 20% do petróleo do mundo, que jogou a inflação americana para perto de 4,2% e tirou o Fed da rota de corte de juros. O tom do Fed agora será mais duro.
Esta é a primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh, que assumiu a presidência do Fed em maio com um perfil reconhecidamente mais duro que o de seu antecessor, Jerome Powell.
Com nove dos dezoito membros projetando ao menos uma alta de juros ainda em 2026 e seis vendo duas altas, o recado é de paciência longa antes de qualquer afrouxamento, de acordo com Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital.
“A reação inicial foi clássica de susto hawkish. As bolsas caíram e os juros curtos subiram assim que saiu o dot plot apontando alta neste ano. Conforme Warsh detalhou a agenda dele, as força-tarefas de revisão e o comunicado mais curto sem orientação futura, o mercado reduziu as perdas e o S&P 500 voltou a oscilar perto da estabilidade”, afirma.
A leitura que fica é que Warsh quer ser lembrado pelo compromisso com a meta de 2%, num momento em que a inflação americana roda bem acima disso. Para o investidor brasileiro, o efeito prático é um dólar mais sustentado e um Fed que tira pressa do ciclo de corte lá fora, o que mantém o juro global alto por mais tempo e reforça a cautela na alocação de risco.
Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, menciona que o mercado, de certa forma, está recebendo a decisão do Fed e o comunicado de maneira bastante dura.
“O comitê reforça o empenho para garantir a estabilidade de preços. O comitê também reafirmou sua política de manter amplas reservas no sistema bancário, a projeção desemprego para o FED agora. A projeção aqui de desemprego passa de 4.4 no relatório de março para 4.3. Nesse ano tivemos também atualização de inflação do PCI que sobe de 2.7 para 3.6 agora e o núcleo PCI sobe de 2.7 para 3.3 agora nessa projeção. Então a gente está vendo agora as reações do mercado da decisão do Fed manter os juros. O [índice] New York teve bastante oscilação após a leitura até de certa forma negativa e o Ibovespa subindo 0,34 por cento também amenizando as altas do nosso pregão”, avalia Saravalle.
Juros no Brasil devem seguir em alta por mais tempo
O Copom também definiu na última quarta-feira (17) um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, que agora opera a 14,25%. O Comitê não deu sinal de continuidade automática de quedas, reafirmando que a magnitude do ciclo será definida “à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta”.
A relevância da reunião está menos na decisão e mais na função de reação sinalizada no comunicado, que veio com tom restritivo e elevou o nível de exigência para a continuidade do ciclo, em linha com o tom dos EUA.

