O aumento das detenções e deportações de imigrantes pelo governo Donald Trump tem reduzido a oferta de trabalhadores em setores como construção civil, manutenção, agricultura e serviços, reacendendo dúvidas sobre os impactos econômicos da política migratória dos Estados Unidos.
Em meio às ações de deportação e às operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), especialistas alertam para os impactos que a redução da mão de obra estrangeira pode provocar em setores que dependem historicamente de trabalhadores imigrantes.
A discussão também ocorre em um momento de forte expansão da inteligência artificial, levantando dúvidas sobre até que ponto a tecnologia poderá substituir essa força de trabalho.
De acordo com a Agência Brasil, o número de imigrantes detidos nos Estados Unidos subiu 75% durante o segundo governo Trump, passando de 40 mil para 68 mil pessoas.
A expectativa do governo é alcançar a marca de 100 mil detidos ainda no início de 2026. O mesmo levantamento aponta que 73% dos imigrantes presos não possuem antecedentes criminais.
Para Daniel Toledo, advogado especializado em Direito Internacional e Migratório, os efeitos econômicos dessa política já começaram a aparecer em diversos segmentos da economia americana.
Segundo ele, o país enfrenta simultaneamente desaceleração econômica, aumento do desemprego e dificuldades para preencher vagas tradicionalmente ocupadas por estrangeiros.
“A gente tinha a desocupação, que não é a criação de novos postos de trabalho. E você tem a não ocupação desses postos de trabalho. Que era o que o presidente estava lançando como criação de novas vagas”, analisa.
Mercado enfrenta dificuldade para preencher vagas
A redução da presença de trabalhadores estrangeiros afeta principalmente setores considerados essenciais para o funcionamento cotidiano da economia.
Construção civil, manutenção predial, limpeza, agricultura, alimentação e serviços gerais estão entre as áreas mais dependentes dessa mão de obra.
Toledo observa que parte dessas funções encontra baixa procura entre trabalhadores americanos, o que gera dificuldades adicionais para as empresas.
O resultado, segundo ele, é a redução da oferta de serviços ou a necessidade de elevar salários para atrair novos profissionais.
“O americano quer ocupar cargos de diretoria e executivos. Ele não quer ser fritador de batata no McDonald’s”, contextualiza.
O especialista explica que muitos imigrantes aceitam posições de entrada como forma de iniciar a vida no país.
Com a redução desse contingente, empresas enfrentam obstáculos para manter operações em níveis normais, especialmente em atividades que exigem presença física e mão de obra constante.
A consequência direta aparece nos custos de produção e prestação de serviços. Com menos trabalhadores disponíveis, empregadores precisam oferecer remunerações maiores para preencher vagas, elevando despesas operacionais que acabam sendo repassadas aos consumidores.
Pressão sobre preços preocupa empresas
O aumento do custo da mão de obra já é percebido em diversos segmentos da economia americana. Toledo relata que serviços básicos registraram forte alta nos últimos meses devido à escassez de trabalhadores.
“Pra você ter ideia, o rapaz que cortava a grama da minha casa cobrava 35 dólares. Ele sumiu, desapareceu, eu não achei ninguém por menos de 55 dólares”, relata.
Segundo o especialista, movimentos semelhantes têm sido observados em atividades ligadas à manutenção residencial, reformas, construção e prestação de serviços locais. Como a oferta de profissionais diminui, o preço tende a subir.
O cenário ocorre em meio a um ambiente econômico marcado por tensões comerciais e mudanças nas relações entre os Estados Unidos e parceiros estratégicos.
Toledo afirma que o impacto das tarifas comerciais e das disputas geopolíticas também contribui para reduzir investimentos e aumentar a cautela das empresas.
Para ele, a combinação entre desaceleração econômica e falta de trabalhadores pode criar um ambiente de pressão inflacionária nos próximos anos, principalmente em setores dependentes de serviços presenciais.
Tecnologia encontra limites na substituição de trabalhadores
O crescimento acelerado da inteligência artificial alimenta previsões sobre transformações profundas no mercado de trabalho. Apesar disso, Toledo avalia que boa parte das funções exercidas por imigrantes permanece distante das capacidades atuais da tecnologia.
Atividades manuais, manutenção predial, serviços domésticos e construção civil continuam exigindo atuação presencial e habilidades práticas que não podem ser reproduzidas apenas por sistemas digitais.
“Você não consegue botar para um computador a limpeza da sua piscina, limpeza do telhado, o desentupimento de calha, o desentupimento de canos, a construção de uma casa, cortar grama da casa”, explica.
Na avaliação do especialista, a inteligência artificial tende a substituir tarefas administrativas, operacionais e burocráticas antes de alcançar ocupações que exigem deslocamento físico, interação direta com ambientes reais e capacidade de adaptação a diferentes situações.
Por esse motivo, ele acredita que a demanda por trabalhadores estrangeiros continuará relevante em diversos setores, mesmo com o avanço da automação.
Migração segue em crescimento no mundo
Dados divulgados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) apontam que mais de 117,3 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas até junho de 2025 devido a conflitos, perseguições, violência ou violações de direitos humanos.
Já o Relatório Global sobre Deslocamento Interno 2025 registrou um recorde de 83,4 milhões de pessoas vivendo deslocadas dentro dos próprios países ao final de 2024. O número representa crescimento de 7,5 milhões em relação ao ano anterior.
Esse movimento global amplia a pressão sobre sistemas migratórios e mercados de trabalho em diferentes regiões do mundo. Ao mesmo tempo, especialistas observam que economias desenvolvidas enfrentam envelhecimento populacional e redução da oferta de trabalhadores em diversos setores.
Diante desse cenário, Toledo avalia que a discussão sobre imigração tende a ultrapassar o campo político e ganhar importância crescente nas decisões econômicas dos próximos anos.
“Esses trabalhos são os que mais estão se sentindo hoje. É o que vai acabar impactando muito seriamente, principalmente na questão da inflação no ano que vem”, projeta.

