Publicidade
Economia

Entenda como a crise do Digimais levou à criação de uma “nova Reag”

Ex-dirigentes da gestora liquidada passaram a controlar cerca de R$ 55 bilhões em fundos

Entenda como a crise do Digimais levou à criação de uma “nova Reag”

Ex-dirigentes da Reag passaram a controlar cerca de R$ 55 bilhões em fundos de investimento poucos meses após a liquidação da gestora pelo Banco Central.

Publicidade

A reorganização ocorreu por meio da Asarock Asset Management, que recebeu dezenas de fundos anteriormente administrados pela Reag e passou a atuar em parceria com empresas do grupo ID, hoje investigadas pela Polícia Federal em apurações relacionadas ao Banco Digimais.

O movimento ocorreu enquanto diferentes investigações passaram a atingir parte dos principais personagens envolvidos na antiga gestora.

As informações foram divulgadas pelo Estadão.

Como surgiu a “nova Reag”

A liquidação da Reag não encerrou a atuação de parte de seus executivos no mercado financeiro.

Após a Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal em 2025, dirigentes deixaram a empresa e iniciaram uma reorganização que culminou na formação de uma nova estrutura para administrar fundos de investimento.

Segundo o Estadão, a principal peça desse movimento foi a Asarock Asset Management. A gestora recebeu antigos executivos da Reag e passou a concentrar dezenas de fundos que antes pertenciam à empresa liquidada.

Paralelamente, empresas do grupo ID assumiram a administração fiduciária de parte relevante dessas carteiras.

A Asarock passou a administrar aproximadamente R$ 15 bilhões, enquanto o grupo ID ampliou sua carteira para cerca de R$ 40 bilhões.

Juntas, as empresas passaram a controlar aproximadamente R$ 55 bilhões em ativos, incluindo mais de 50 fundos originários da Reag.

Cliente antigo

A reorganização, diz o Estadão, contou com a participação do empresário Lélio Vieira Carneiro Junior, antigo cliente da Reag e alvo de uma cobrança superior a R$ 250 milhões da União em um processo administrativo que apura supostas fraudes tributárias envolvendo fundos de investimento.

Lelio Junior nega ter participado da reorgnização e afirma que “não existe nenhum processo que apura fraude tributária”. Segundo o empresário, a menção a seu nome na discussão adminsitrativa sobre a dívida de R$ 250 milhões foi feita “indevidamente” e ele foi “arrolado como suposto responsável solidário”.

Ainda de acordo com Lelio Junior, sua responsabilidade quando à dívida foi “integralmente afastada pelo Carf [Conselho Administrativo de Recursos Fiscais], em primeira e em segunda instâncias”.

Embora tenha vendido sua participação na Asarock antes da entrada definitiva dos ex-dirigentes da Reag, parte dos fundos atribuídos ao empresário permaneceu sob gestão da companhia.

Segundo o Estadão, há decisões da Justiça Federal determinando o bloqueio de ativos ligados à estrutura financeira atribuída ao empresário e sua família. Porém, Lelio Junior afirma que “não possui nada bloqueado pela Justiça”.

“O que houve foi medida liminar de indisponibilidade, destinada a assegurar futura execução fiscal, posteriormente superada mediante garantia ofertada pela empresa que discute os débitos”, complementou Lelio Junior.

Grupo ID

Outro eixo da reorganização envolve o grupo ID, responsável pela administração fiduciária de parte dos fundos administrados pela Asarock.

Empresas controladas pelos empresários Rodrigo Balassiano e José Roberto Giancoli Filho passaram a administrar dezenas de fundos que migraram da antiga estrutura da Reag.

O crescimento foi acelerado, o patrimônio administrado pelo grupo saltou de pouco mais de R$ 5 bilhões para cerca de R$ 40 bilhões em aproximadamente dois anos.

Nos últimos dias, Balassiano e Giancoli também passaram a ser alvo de medidas determinadas pela Polícia Federal durante a Operação Miragem, que apura suspeitas envolvendo o Banco Digimais.

Reforço financeiro

O Banco Digimais recebeu recentemente um aporte financeiro realizado pela holding controladora ligada ao Grupo Record, passando a contar com aproximadamente R$ 2 bilhões em caixa.

O reforço integra as negociações conduzidas com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para uma eventual venda da instituição financeira.

O BTG Pactual mantém um acordo de intenção para aquisição do banco, mas informou que a operação continua condicionada à realização do processo competitivo previsto nas regras do fundo.

Enquanto as negociações seguem, o Banco Central acompanha a situação da instituição e aguarda os próximos passos do processo coordenado pelo FGC.

O que a PF investiga

Como explicou O Brasilianista, a Operação Miragem apura suspeitas de manipulação de balanços, superavaliação de ativos e ocultação da real situação financeira do Digimais.

As investigações também analisam operações envolvendo fundos de investimento que teriam sido utilizados para retirar ativos problemáticos dos balanços da instituição, dificultando a identificação dos riscos financeiros pelo mercado e pelos órgãos de fiscalização.

Os investigadores apontam semelhanças entre mecanismos identificados no Digimais e estruturas que já haviam sido investigadas anteriormente durante a crise do Banco Master.

Operações com fundos estão no centro das apurações

Uma das principais frentes da investigação envolve o Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) EXP, que é alvo de disputa judicial envolvendo aproximadamente R$ 462 milhões.

Os questionamentos abrangem milhares de créditos bancários utilizados como lastro para operações financeiras e incluem ativos relacionados a estruturas que também mantinham exposição ao Banco Master, à Reag e à Fictor.

O Digimais nega irregularidades e afirma que eventuais problemas decorrem das empresas responsáveis pela originação dos créditos.

Outro lado

Em manifestações, Asarock, ID, Bless Capital e Lélio Vieira Carneiro Junior contestaram as suspeitas levantadas nas investigações.

A Asarock afirmou que atua de forma independente e que a migração dos fundos ocorreu dentro das regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A ID declarou seguir padrões de governança e negou integrar o mesmo grupo econômico da Asarock. Já a Bless Capital afirmou que não possui vínculo societário com a ID e negou qualquer utilização de fundos para maquiagem contábil.

As investigações da Polícia Federal continuam em andamento. Até o momento, não há decisão judicial definitiva sobre as suspeitas envolvendo o Digimais, a antiga Reag ou as empresas que passaram a administrar parte dos fundos após a liquidação da gestora.

A assessoria de Lelio Veira Carneiro Junior afirmou que “jamais houve decisão judicial reconhecendo qualquer fraude praticada por” ele. Disse também que a mencionada ordem da Justiça “é um procedimento administrativo sigiloso no qual foi determinada uma medida liminar destinada a assegurar uma futura execução fiscal, posteriormente superada mediante garantia apresentada pela empresa que discute os débitos tributários”.

Lelio Junior detalhou ainda que Asarock “não foi fundada” por ele, “mas sim adquirida no ano de 2024”, com o objetivo de diversificar seus negócios e “ingressar no segmento de gestão de fundos de investimento”.

“Posteriormente, por decisão estritamente empresarial, minha participação foi integralmente vendida em setembro de 2025, tendo o adquirente optado pela manutenção da estrutura existente, inclusive seus colaboradores”, finalizou Lelio Junior.

Acompanhe as nossas redes sociais