Publicidade
Economia

Inadimplência recorde entre empresas pode provocar crise de crédito no Brasil?

Juros elevados, restrição bancária e endividamento acumulado ampliam dificuldades financeiras e aumentam risco de fechamento de negócios

Inadimplência recorde entre empresas pode provocar crise de crédito no Brasil?

O número de empresas inadimplentes no Brasil chegou a 8,9 milhões, de acordo com dados divulgados pela Bloomberg. Para especialistas ouvidos pelo O Brasilianista, o avanço da inadimplência já vai além de uma dificuldade passageira causada pelos juros altos e acende alerta para uma deterioração mais ampla do crédito no país.

Publicidade

Na avaliação de Pedro Afonso Gomes, conselheiro federal do Cofecon, o problema reúne diferentes fatores acumulados desde a pandemia, como endividamento elevado, crédito restrito e juros em patamar elevado. “O número de 8,9 milhões de empresas inadimplentes reflete uma crise de crédito ampla no Brasil, não apenas turbulência pontual por juros altos”, disse.

Carlos Eduardo Oliveira Jr., conselheiro do Corecon-SP e presidente do Sindecon-SP, avalia que o quadro mistura problemas conjunturais e fragilidades antigas da economia brasileira. Segundo ele, o período de juros baixos durante a pandemia incentivou empresas a ampliarem dívidas, enquanto a alta recente da taxa básica encareceu a manutenção desses compromissos financeiros.

Os dois apontam que a persistência da inadimplência em níveis elevados diferencia o momento atual de uma oscilação temporária. Além do crescimento das recuperações judiciais, empresas têm reduzido investimentos, cortado custos e encontrado mais dificuldade para obter capital de giro.

Juros altos atingem caixa das empresas

A manutenção da taxa Selic em patamar elevado aparece como um dos principais obstáculos para o setor produtivo. Empresas que dependem de crédito de curto prazo, especialmente para capital de giro, passaram a conviver com custos financeiros maiores e menor oferta de recursos.

Pedro explicou que o impacto ocorre diretamente sobre o fluxo de caixa das companhias: “Empresas veem margens apertadas, com custo da dívida superando receitas em cenários de crescimento moderado”.

Já Carlos Eduardo destacou que o encarecimento da dívida reduz recursos disponíveis para operação e investimento, além de dificultar a rolagem de passivos. Na prática, isso leva empresários a priorizarem despesas essenciais e adiarem planos de expansão.

Os primeiros efeitos já aparecem no dia a dia de muitas empresas. Entre eles estão redução de estoques, renegociação com fornecedores e cortes de gastos operacionais. Com o passar dos meses, surgem consequências mais profundas, como queda no faturamento, demissões e encerramento de atividades.

Micro e pequenas empresas aparecem entre as mais vulneráveis nesse ambiente. De acordo com os especialistas, esses negócios dependem mais do crédito bancário tradicional e possuem menos reservas financeiras para enfrentar períodos prolongados de juros altos.

“Grandes conglomerados têm acesso a garantias e diversificação, enquanto MPEs enfrentam seletividade extrema e garantias líquidas exigidas”, declarou Pedro. Para ele, micro e pequenas representam a maior parte dos pedidos de recuperação judicial.

Risco de efeito em cadeia preocupa mercado

Os economistas também apontam possibilidade de um ciclo negativo envolvendo bancos, empresas e atividade econômica. Com aumento da inadimplência, instituições financeiras tendem a elevar exigências e reduzir concessões de crédito. Isso amplia as dificuldades das empresas, que atrasam pagamentos e diminuem investimentos.

Para Carlos Eduardo Oliveira Jr., o aumento da percepção de risco alimenta um movimento de retração do sistema financeiro. Já Pedro Afonso Gomes observou que empresas endividadas acabam reduzindo despesas, pressionando fornecedores e enfraquecendo o consumo.

Entre os setores mais expostos aparecem varejo, construção civil, indústria e agronegócio. No caso do agro, fatores como quebra de safra e endividamento elevado agravaram o quadro nos últimos meses.

Os especialistas também apontam que alguns indicadores podem sinalizar agravamento da situação nos próximos meses, entre eles o aumento das recuperações judiciais, crescimento dos spreads bancários e maior seletividade na concessão de crédito. Atrasos salariais e avanço da inadimplência entre consumidores também aparecem como sinais de alerta.

Apesar da existência de instrumentos para renegociação de dívidas, empresários ainda encontram dificuldades para reestruturar passivos junto aos bancos. Conforme Carlos Eduardo Oliveira Jr., as instituições financeiras mantêm critérios rígidos para concessão de crédito e demonstram pouca disposição para assumir riscos em meio ao aumento da inadimplência.

Pedro Afonso Gomes afirmou que muitas instituições acabam dificultando renegociações inicialmente, mas cedem diante da possibilidade de perdas maiores. Na avaliação do conselheiro federal do Cofecon, empresas com mais garantias conseguem melhores condições, enquanto pequenos negócios encontram mais barreiras.

Perspectiva para 2026 segue indefinida

Os dois avaliam que uma eventual queda da Selic não teria efeito imediato sobre o crédito disponível às empresas. Isso ocorre porque bancos costumam manter cautela mesmo após mudanças na política monetária, além da existência de contratos já firmados em taxas elevadas.

“A queda dos juros não se transmite de forma imediata, devido à defasagem da política monetária e à postura cautelosa das instituições financeiras”, esclareceu Carlos Eduardo Oliveira Jr.

Pedro Afonso Gomes afirmou que o processo de transmissão pode levar pelo menos seis meses: “Os efeitos não são imediatos e, na maior parte das vezes, os juros não são reduzidos na mesma proporção que é reduzida a Taxa Selic”.

Para evitar agravamento da inadimplência, tanto Pedro quanto Carlos Eduardo defendem a ampliação de linhas de crédito direcionadas, atuação dos bancos públicos e medidas voltadas à reorganização de dívidas empresariais. Enquanto isso, a recomendação para empresários é reforçar o controle de caixa, reduzir despesas não essenciais, renegociar passivos e evitar exposição excessiva a crédito de curto prazo.

Siga O Brasilianista