Uma eventual classificação inédita do Irã para as fases eliminatórias da Copa do Mundo de 2026 pode transformar a seleção em um dos principais focos políticos do torneio, ampliando desafios diplomáticos para Estados Unidos, FIFA e autoridades de segurança.
A seleção masculina de futebol do país asiático enfrentará o Egito a partir da meia-noite deste sábado (27).
Além da disputa esportiva, uma permanência mais longa da delegação iraniana em território norte-americano tende a aumentar a exposição de um dos países mais isolados internacionalmente em um evento acompanhado por bilhões de pessoas.
Futebol pode fortalecer narrativas, mas não controla seus efeitos
A Copa do Mundo costuma ultrapassar o campo esportivo quando envolve países que enfrentam disputas internacionais.
No caso iraniano, uma campanha acima das expectativas ocorreria em meio às tensões com os Estados Unidos, às sanções econômicas impostas ao país e ao cenário de isolamento diplomático que marca as relações entre os dois governos.
Para Magno Karl, cientista político e diretor executivo do Livres, governos autoritários costumam utilizar grandes conquistas esportivas como instrumentos de fortalecimento da própria imagem perante a população.
“Regimes autoritários não costumam deixar uma vitória simbólica passar despercebida. Uma classificação inédita do Irã para o mata-mata parece pronta para ser vendida internamente como prova de resistência nacional: mesmo sob sanções, mesmo sob pressão ocidental, o país está de pé”, avalia.
Reportagem do O Brasilianista mostrou que a própria preparação da seleção iraniana já foi impactada por questões políticas.
O governo norte-americano determinou restrições à delegação, obrigando a equipe a instalar sua base de treinamento em Tijuana, no México, com autorização para entrar nos Estados Unidos apenas nos dias das partidas.
Apesar da tentativa de aproveitar um eventual sucesso esportivo, Karl pondera que o governo iraniano não controla completamente a forma como esse desempenho poderá ser interpretado dentro e fora do país.
“Mas há aí uma armadilha para o regime. A seleção iraniana não representa apenas o Estado; representa uma sociedade plural, jovem, cansada de tutela moral e de isolamento. Então, uma boa campanha pode dar munição ao governo, mas também pode abrir espaço para manifestações da diáspora, de atletas, torcedores e críticos do regime. Em outras palavras: o regime pode tentar sequestrar a narrativa, mas não controla completamente o significado do futebol”, destaca.
Desafios diplomáticos da permanência nos EUA
Quanto mais uma seleção avança na Copa do Mundo, maior é o tempo de permanência de jogadores, dirigentes, imprensa e torcedores no país-sede.
No caso do Irã, essa permanência pode exigir uma coordenação diplomática constante entre governos que mantêm relações marcadas por décadas de conflitos.
A situação envolve questões práticas como emissão de vistos, deslocamentos internos, segurança das delegações e organização logística, temas que já começaram a aparecer antes mesmo da abertura do torneio.
Segundo Karl, não há expectativa de que o futebol seja suficiente para alterar a relação entre Washington e Teerã, cuja agenda envolve disputas muito mais amplas.
“Pode gerar constrangimentos, sim, mas eu não apostaria em uma distensão diplomática por causa de futebol. Copa do Mundo não substitui negociação nuclear, sanções, cálculo militar ou a política doméstica. O que pode acontecer é mais modesto e mais realista: vistos, logística, segurança, deslocamento, tratamento igual entre delegações”, enfatiza.
Restrições impostas pelos Estados Unidos impediram a seleção iraniana de distribuir parte da cota oficial de ingressos destinada aos próprios torcedores, alterando o planejamento de muitos viajantes.
“Mas penso que quanto mais tempo o Irã permanecer no torneio, mais o tema permanecerá para ser administrado pelos dois governos, que devem ser pragmáticos para evitar que um torneio esportivo vire crise”, finaliza Karl.
Negociações convivem com novas ameaças
As discussões entre Estados Unidos e Irã ocorrem na Suíça com mediação de Catar e Paquistão. Após cerca de 18 horas de reuniões, os mediadores classificaram o resultado como um “progresso encorajador”, embora a delegação iraniana tenha deixado o local logo após o encerramento dos encontros.
Os principais impasses continuam sendo o programa nuclear iraniano e a manutenção do cessar-fogo entre Israel e Hezbollah, no Líbano.
Enquanto as negociações avançam, a retórica entre os dois países permanece elevada.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a ameaçar ataques caso o Irã não contivesse as ações do Hezbollah.
Em resposta, o presidente do Parlamento iraniano, Mohamad Bagher Ghalibaf, afirmou que as forças iranianas estão preparadas para reagir.
Apesar das declarações públicas, os negociadores trabalham para construir um acordo em até 60 dias, período em que o memorando prevê a manutenção do Estreito de Ormuz aberto e a continuidade das inspeções internacionais sobre o programa nuclear iraniano.

