O debate sobre carga tributária costuma ser associado ao valor pago pelos contribuintes, mas especialista afirma que a eficiência na aplicação dos recursos é tão importante quanto o percentual arrecadado.
Em 2026, países como Dinamarca, Costa do Marfim, Finlândia, Japão, França, Áustria e Espanha figuram entre aqueles com as maiores alíquotas máximas de Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), adotando modelos distintos para financiar serviços públicos, reduzir desigualdades ou enfrentar desafios fiscais e demográficos.
Para entender as diferenças entre esses sistemas e como o Brasil se posiciona nesse cenário, a reportagem ouviu a advogada especializada em Direito Trabalhista e Tributário Márcia Cleide Ribeiro.
Por que alguns países cobram mais impostos
A Dinamarca lidera o ranking mundial em 2026, com alíquota máxima de 60,5%. Em seguida aparecem Costa do Marfim (60%), Finlândia (57,6%), Japão (55,95%), França (55,4%), Áustria (55%) e Espanha (54%).
Apesar de todas apresentarem tributação elevada sobre a renda, cada uma utiliza esses recursos para objetivos diferentes, como financiar sistemas de bem-estar social, enfrentar o envelhecimento populacional ou sustentar elevados gastos públicos.
Márcia explica que uma carga tributária elevada, por si só, não garante melhores condições de vida para a população.
A advogada destaca que os países nórdicos costumam ser citados como exemplos porque conseguem associar alta arrecadação a serviços públicos amplamente utilizados pela população.
Nesses modelos, explica, existe maior confiança nas instituições, transparência na gestão e percepção de retorno para o contribuinte, fatores que tornam a elevada tributação socialmente mais aceita.
Brasil arrecada muito para seu nível de renda
Embora a alíquota máxima do Imposto de Renda brasileiro seja inferior à dos países que lideram o ranking, a especialista afirma que o país arrecada valores elevados para os padrões.
“O Brasil arrecada muito para o seu nível de renda. Quando comparado a países de renda semelhante, especialmente os latino-americanos e outras economias de renda média-alta, o Brasil aparece como um caso de carga tributária elevada”, afirma.
Segundo Márcia, uma das principais diferenças está na composição da arrecadação.
Ela explica que o sistema brasileiro concentra boa parte da tributação sobre o consumo, os bens, os serviços e a folha de pagamento.
Isso faz com que os impostos estejam incorporados aos preços dos produtos e acabem pesando proporcionalmente mais sobre famílias de menor renda.
A especialista avalia que a principal insatisfação dos brasileiros não decorre apenas do percentual recolhido em tributos, mas da percepção de que os serviços públicos entregues não acompanham o esforço financeiro exigido da população.
Eficiência do gasto é o principal desafio
Na avaliação da advogada, a discussão sobre impostos precisa ir além do tamanho da carga tributária e considerar a qualidade da gestão pública.
“O problema brasileiro está nos dois pontos, mas principalmente na forma como os recursos são arrecadados e gastos. O Brasil tem uma carga tributária alta para um país de renda média, porém o maior incômodo social não está apenas no percentual pago, e sim na percepção de que o retorno é insuficiente”, explica.
Ela ressalta que muitos brasileiros acabam recorrendo ao setor privado para obter serviços de saúde, educação e segurança, mesmo contribuindo com um nível de arrecadação próximo ao observado em países desenvolvidos.
Além disso, aponta que a burocracia, a baixa eficiência na execução das políticas públicas e a complexidade do sistema tributário aumentam os custos para empresas e cidadãos.
Para a especialista, uma reforma tributária eficiente precisa buscar simplificação, transparência e melhor distribuição da carga, sem desconsiderar as diferenças sociais e econômicas do país.
Quais países podem servir de referência
Márcia afirma que não existe um modelo internacional que possa ser simplesmente reproduzido no Brasil, já que o país possui dimensões continentais, elevada desigualdade social, forte informalidade e uma estrutura federativa mais complexa do que a maioria das economias desenvolvidas.
“A maior lição para o Brasil não é simplesmente arrecadar mais ou copiar alíquotas estrangeiras, mas construir um sistema mais simples, menos regressivo, mais transparente e capaz de transformar arrecadação em serviços públicos reais, respeitando seu tamanho, sua desigualdade e sua complexidade federativa.”, destaca.
Segundo a advogada, experiências como a da Estônia mostram a importância da digitalização e da simplificação das obrigações tributárias.
Já a Nova Zelândia é frequentemente lembrada por adotar um sistema mais simples sobre o consumo, enquanto os países nórdicos demonstram que uma carga tributária elevada tende a ser melhor aceita quando acompanhada de serviços públicos eficientes, transparência e confiança nas instituições.

