O volume de crédito em atraso há mais de 90 dias alcançou R$ 247,6 bilhões no Brasil no primeiro quadrimestre de 2026, maior resultado desde o início da série histórica, em 2004.
O montante cresceu 50,7% em relação ao mesmo período do ano passado, quando somava R$ 164,3 bilhões, conforme levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
O aumento registrado em apenas um ano equivale a praticamente todo o estoque de crédito em atraso existente no país em 2018, de R$ 84,7 bilhões.
O avanço ocorre em um período marcado pela manutenção dos juros em patamares elevados e pela pressão de diferentes despesas sobre o orçamento das famílias.
Os dados abrangem modalidades contratadas por pessoas físicas, como financiamento imobiliário, crédito consignado, empréstimo pessoal e rotativo do cartão.
A piora simultânea de compromissos com características e prazos diferentes amplia o alcance do problema para diferentes grupos de consumidores.
Famílias comprometem parcela maior da renda com dívidas
O Brasilianista informou que o endividamento das famílias chegou a 49,9% em fevereiro, maior patamar da série histórica do Banco Central.
O comprometimento da renda com o pagamento de dívidas também avançou e alcançou 29,7%, com crescimento de 1,9 ponto percentual em 12 meses.
A parcela dos rendimentos destinada às obrigações financeiras ajuda a explicar a dificuldade para manter os pagamentos em dia.
Com menos recursos disponíveis depois da quitação de empréstimos e financiamentos, despesas com alimentação, transporte e moradia passam a disputar espaço maior no orçamento doméstico.
O encarecimento do crédito também afeta contratos já existentes e limita a possibilidade de obter novos recursos.
Instituições financeiras podem adotar critérios mais rigorosos diante do aumento do risco, enquanto consumidores que precisam de dinheiro recorrem a modalidades com custos maiores.
Superendividamento amplia debate sobre concessão de crédito
O crescimento das dívidas levou o governo federal a estudar medidas contra o chamado endividamento predatório.
O Brasilianista mostrou que mais de 80% das famílias possuíam contas a vencer, enquanto 30% estavam inadimplentes, conforme a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor.
A discussão envolve a responsabilidade das instituições financeiras na concessão dos recursos e a capacidade dos clientes de assumir novos compromissos.
As propostas em análise ocorrem em um ambiente no qual diferentes tipos de dívida pioraram simultaneamente. Programas de renegociação podem reduzir temporariamente o peso dos débitos, mas o custo dos juros e a perda do poder de compra continuam afetando a capacidade de pagamento.
Apostas online disputam espaço no orçamento
As apostas online passaram a integrar os fatores relacionados ao crescimento das dificuldades financeiras das famílias.
O Brasilianista destacou que o estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e da FIA Business School colocou as bets à frente de fatores tradicionais associados à inadimplência, como juros, tempo das dívidas e peso do crédito sobre a renda.
O impacto é maior entre famílias financeiramente vulneráveis, que podem utilizar cartão de crédito e cheque especial para manter os gastos com jogos.
A receita bruta das empresas autorizadas a operar no mercado brasileiro chegou a R$ 37 bilhões em 2025, considerando as apostas realizadas e descontados os prêmios pagos.
O avanço ocorre enquanto o número de inadimplentes também cresce no país. Em fevereiro de 2026, aproximadamente 81,7 milhões de brasileiros possuíam dívidas em atraso, o equivalente a 49,87% da população, enquanto o total dos débitos registrados chegava a cerca de R$ 539 bilhões.
Centro-Oeste lidera crescimento dos atrasos
O aumento das dívidas não pagas atingiu todas as unidades da Federação, mas ocorreu em ritmos diferentes. O Centro-Oeste apresentou crescimento de 69,3%, enquanto o Norte registrou 62,7%, o Sul, 66,1%, o Nordeste, 47,4%, e o Sudeste, 37,9%.
Entre os Estados, Tocantins teve a maior variação em relação ao primeiro quadrimestre de 2025, com avanço de 105%. Na sequência aparecem Rio Grande do Sul, com 95,7%, Maranhão, com 93,5%, Mato Grosso, com 83,1%, e Goiás, com 81,3%.
A dependência da atividade agropecuária aparece entre os fatores considerados para explicar o desempenho de parte desses Estados.
Quando a rentabilidade do campo diminui, a redução dos recursos em circulação pode atingir trabalhadores e negócios relacionados ao setor e limitar a renda disponível para o pagamento de compromissos financeiros.
Endividamento rural afeta cadeia ligada ao agronegócio
O Brasilianista mostrou que a pressão financeira sobre produtores rurais levou ao avanço de propostas para renegociação de dívidas do setor.
Projeto aprovado pelo Senado prevê condições diferenciadas para produtores atingidos por eventos climáticos, perdas de safra e oscilações de mercado.
“Quando um produtor para, o impacto não fica só dentro da fazenda. Ele afeta cooperativas, fornecedores, transportadores, trabalhadores e toda a cadeia ligada ao agronegócio”, destacou Marcos Pelozato, advogado especializado em Reestruturação Empresarial e Gestão de Passivos.
A proposta prevê juros reduzidos e ampliação dos prazos para pagamento, mas também provocou discussões sobre os efeitos futuros para o financiamento do setor.
“Isso pode significar crédito mais caro, maior exigência de garantias e uma análise mais rigorosa na concessão. O produtor que precisa de financiamento pode acabar pagando a conta dessa insegurança”, acrescentou Pelozato.
Restrições podem dificultar acesso a financiamento rural
Além do endividamento acumulado e das perdas relacionadas ao clima, produtores enfrentam dificuldades de acesso a recursos quando propriedades são submetidas a determinadas restrições administrativas.
O Brasilianista abordou os efeitos econômicos de embargos ambientais sobre financiamentos, seguros agrícolas e contratos comerciais.
“Há uma preocupação legítima do setor produtivo em relação aos efeitos econômicos imediatos de embargos automáticos, especialmente sobre crédito rural, seguros, exportações e reputação comercial do produtor”, ressaltou Leandro Mello Frota, advogado especializado em direito agroambiental e ex-diretor do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Fundação Nacional de Saúde (Funasa).
O especialista também relacionou a capacidade de competir no mercado externo à estabilidade das regras aplicadas ao setor.
“O agronegócio brasileiro opera hoje em ambiente altamente regulado e precisa de previsibilidade institucional para continuar competitivo internacionalmente”, observou.
Inadimplência também atinge empresas brasileiras
A dificuldade para manter os compromissos financeiros não está restrita às famílias. O Brasilianista destacou que o número de empresas inadimplentes chegou a 8,9 milhões, em um ambiente marcado por juros elevados, restrição bancária e dívidas acumuladas desde a pandemia.
Micro e pequenas empresas estão entre os negócios mais expostos às dificuldades de financiamento. Essas companhias dependem mais do crédito bancário tradicional e possuem menos reservas para atravessar períodos prolongados de custos financeiros elevados.
O aumento dos atrasos também afeta as decisões das instituições financeiras. Diante do maior risco de inadimplência, bancos podem ampliar as exigências para liberar recursos, enquanto empresas com dificuldades de caixa reduzem estoques, renegociam compromissos com fornecedores e adiam investimentos.
No levantamento da FecomercioSP, São Paulo respondeu por 22,2% do volume nacional de crédito em atraso. Somados, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro concentraram 52,6% do total registrado no primeiro quadrimestre de 2026.
Os dados dos dez Estados com os maiores volumes de compromissos vencidos também mostram que a expansão da oferta de crédito não acompanhou o ritmo das dívidas não pagas.
Enquanto as concessões cresceram entre 3% e 13%, a proporção dos débitos em atraso avançou entre 43% e 87% no período analisado.

