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Entrevistas

Reeleição de Lula pode isolar o Brasil na América do Sul? Especialista explica

Avanço de governos de direita pode dificultar articulações políticas

Reeleição de Lula pode isolar o Brasil na América do Sul? Especialista explica

O avanço da direita na América do Sul alterou o mapa político da região e abriu um novo debate para o Brasil, uma eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderia deixar o país isolado entre governos vizinhos de orientação ideológica diferente?

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A vitória de Keiko Fujimori na eleição presidencial do Peru ampliou o número de países sul-americanos comandados por governos conservadores ou de centro-direita.

A mudança ocorre depois de vitórias desse campo político em países como Argentina, Chile, Colômbia e Bolívia nos últimos anos.

Para Luciano Gomes dos Santos, professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo, de Belo Horizonte, o avanço conservador não pode ser interpretado apenas como resultado de um movimento ideológico conjunto.

“A ascensão de governos de direita em parte da América do Sul pode ser interpretada como resultado da combinação entre tendências regionais e fatores domésticos. Em muitos países, o eleitorado reagiu a problemas como inflação, baixo crescimento econômico, insegurança pública, corrupção, desgaste de governos anteriores e insatisfação com a qualidade dos serviços públicos”, contextualiza.

Mudanças políticas acompanham problemas internos

O Brasilianista mostrou que a vitória de Fujimori recolocou o Peru entre os governos alinhados à direita e ampliou numericamente a presença conservadora no continente.

O país realizou a eleição após um período de instabilidade institucional marcado por sucessivas trocas de presidentes e crises entre os poderes Executivo e Legislativo.

A reorganização política também alcançou outros países. Javier Milei governa a Argentina, José Antonio Kast assumiu o comando do Chile, Rodrigo Paz encerrou o ciclo do Movimento ao Socialismo na Bolívia e Abelardo de la Espriella venceu a eleição presidencial da Colômbia.

Apesar das mudanças, Santos pondera que a alternância entre diferentes campos políticos faz parte da história recente da América do Sul.

“Observa-se um ciclo político comum na região, em que alternâncias entre governos de esquerda e de direita são frequentes conforme mudam as demandas da população. Portanto, ainda que exista uma percepção de fortalecimento da direita em alguns países, isso não significa necessariamente uma transformação estrutural e permanente do continente”, avalia.

O professor acrescenta que o comportamento dos eleitores sul-americanos está diretamente relacionado às condições encontradas dentro de cada país.

Crises econômicas, problemas de segurança e insatisfação com governos anteriores podem ter maior influência sobre o voto do que a orientação política adotada pelos países vizinhos.

Brasil pode enfrentar dificuldades de articulação

Uma eventual reeleição de Lula manteria o Brasil sob um governo de centro-esquerda enquanto parte dos principais países da América do Sul estaria sob administrações de direita.

A diferença poderia afetar principalmente a construção de projetos políticos conjuntos e as iniciativas de integração defendidas pelo governo brasileiro.

O especialista considera, entretanto, que a expressão “isolamento político” precisa ser analisada com cautela.

“Uma eventual reeleição do presidente Lula poderia tornar mais desafiável a articulação política regional caso a maioria dos governos vizinhos permaneça alinhada à direita. Entretanto, ‘isolamento político’ não significa necessariamente rompimento das relações diplomáticas ou comerciais”, esclarece Santos.

O Brasil mantém relações com os países sul-americanos em áreas que ultrapassam a afinidade entre presidentes e partidos.

“O Brasil é a maior economia da América do Sul e mantém vínculos estratégicos em áreas como comércio, energia, infraestrutura, defesa e integração fronteiriça, o que cria incentivos para a continuidade do diálogo”, ressalta o professor.

Integração regional pode perder ritmo

As divergências ideológicas podem ter maior impacto sobre iniciativas que dependem da construção de uma agenda política comum.

Projetos multilaterais defendidos pelo Brasil poderiam enfrentar maior resistência caso governos conservadores adotassem prioridades diferentes das estabelecidas pelo Palácio do Planalto.

“Os principais impactos poderiam ser percebidos na dificuldade de impulsionar projetos multilaterais de integração, como iniciativas regionais defendidas pelo governo brasileiro, exigindo maior investimento em negociações bilaterais”, detalha Santos.

O atual mapa político da América do Sul, porém, não é formado exclusivamente por governos conservadores.

Brasil e Uruguai permanecem entre os países administrados pela centro-esquerda, enquanto outras nações mantêm governos associados a diferentes correntes do campo progressista.

O Brasilianista informou que Lula aparece à frente dos adversários testados em cenários de segundo turno da eleição presidencial brasileira.

Em uma das simulações divulgadas pela AtlasIntel/Bloomberg, o presidente registrou 48,8% das intenções de voto contra 42,3% do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Economia limita efeitos das divergências

Governos ideologicamente próximos costumam encontrar maior facilidade para construir agendas conjuntas, enquanto administrações de campos opostos podem adotar posições diferentes em organismos multilaterais.

“As diferenças ideológicas exercem influência principalmente sobre o ritmo da integração regional, as prioridades diplomáticas e o funcionamento de organismos multilaterais. Governos com maior afinidade política costumam facilitar a construção de agendas comuns, enquanto governos com visões distintas podem reduzir o entusiasmo por determinados projetos”, analisa Santos.

O professor observa que a política externa brasileira possui um histórico de manutenção das relações institucionais independentemente da orientação dos governos estrangeiros.

A atuação do Ministério das Relações Exteriores permite preservar canais diplomáticos mesmo durante períodos de maior distanciamento entre os presidentes.

“No entanto, na prática, interesses econômicos, estratégicos e de segurança normalmente prevalecem. Países continuam negociando acordos comerciais, cooperando em questões energéticas, migratórias, ambientais e de combate ao crime organizado, independentemente da orientação ideológica de seus governantes”, pondera.

Diplomacia terá de buscar interesses comuns

A configuração política regional pode exigir mudanças na estratégia adotada pelo Brasil nos próximos anos.

A preservação da influência brasileira dependerá da capacidade de construir relações com governos que possuem projetos políticos diferentes daquele defendido pelo Palácio do Planalto.

Entre os principais desafios estão a integração econômica, os investimentos em infraestrutura, a segurança das fronteiras, os movimentos migratórios e as mudanças climáticas.

A disputa entre grandes potências pela influência na América do Sul também integra a agenda da política externa brasileira.

“Para manter sua influência, o Brasil poderá priorizar uma diplomacia pragmática, baseada em interesses comuns, fortalecendo tanto negociações bilaterais quanto fóruns multilaterais quando houver convergência”, projeta.

O país pode buscar novas formas de cooperação.

O professor considera pouco provável que as diferenças políticas interrompam completamente a cooperação entre o Brasil e os países vizinhos.

A maior dificuldade para um eventual novo mandato de Lula estaria na articulação de projetos políticos regionais, enquanto relações econômicas, diplomáticas e estratégicas continuariam criando espaços de negociação.

“A política externa brasileira poderá reduzir os efeitos das divergências políticas e preservar sua capacidade de diálogo e liderança regional, independentemente das mudanças eleitorais nos países vizinhos”, avalia.

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