A queda da popularidade do presidente argentino Javier Milei tem ampliado as discussões sobre a sucessão presidencial de 2027 e aberto espaço para o debate em torno de uma eventual terceira via no país.
Uma pesquisa da consultoria TresPuntoZero mostrou que quase 30% dos argentinos afirmam não votar nem em Milei nem em Axel Kicillof, principal nome da oposição peronista, ou permanecem indecisos.
O percentual representa um crescimento expressivo em relação aos cerca de 11% registrados em 2025 e reacendeu a movimentação de lideranças políticas e investidores em busca de uma alternativa ao embate entre o atual governo e o peronismo.
Desgaste de Milei
A perda de apoio do presidente ocorre em meio à combinação de dificuldades econômicas, desaceleração insuficiente da inflação, aumento do desemprego e investigações envolvendo integrantes do governo.
Acusações de corrupção passaram a ocupar posição de destaque entre as preocupações dos eleitores, reduzindo uma das principais bandeiras políticas utilizadas por Milei durante a campanha eleitoral de 2023.
O principal nome da oposição continua sendo o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof.
Apesar disso, sua eventual candidatura desperta receio no mercado financeiro por causa da associação com políticas intervencionistas implementadas durante governos kirchneristas, especialmente pelo histórico como ministro da Economia durante o calote da dívida argentina em 2014.
Ambiente favoreceu conversas sobre uma alternativa moderada, capaz de manter pilares defendidos por Milei, como disciplina fiscal e pagamento da dívida pública, mas combinando maior participação do Estado em investimentos e infraestrutura.
Até o momento, porém, o mercado permanece cético quanto ao surgimento de uma candidatura competitiva nesse campo.
Também há espaço no Brasil
Como mostrou O Brasilianista, uma pesquisa Quaest identificou movimento semelhante entre os eleitores brasileiros.
O levantamento revelou que 24% dos entrevistados preferem que as eleições presidenciais de 2026 sejam vencidas por um nome sem ligação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O percentual supera aqueles que defendem a reeleição de Lula, com 23%, e também é superior aos que desejam o retorno eleitoral de Bolsonaro.
A pesquisa também apontou diferenças regionais. Nas regiões Centro-Oeste e Norte, 26% dos entrevistados demonstraram preferência por candidatos desvinculados dos dois principais líderes políticos nacionais. No Sudeste e Sul, esse índice chegou a 25%, enquanto no Nordeste ficou em 19%.
Os dados mostram ainda que parte do eleitorado manifesta interesse por nomes completamente novos, sem trajetória política consolidada, enquanto outra parcela prefere candidatos independentes das principais lideranças nacionais, ainda que possuam experiência política.
Fragmentação política
O Brasilianista já mostrou que, embora exista parcela do eleitorado interessada em alternativas, a fragmentação continua sendo um dos principais obstáculos para o fortalecimento desse espaço político.
O mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em Gestão e Avaliação de Políticas Públicas pela Universidad de Deusto, Luiz Renato Ribeiro Ferreira, afirmou que os maiores beneficiários da pulverização de candidaturas não são necessariamente os nomes da terceira via.
“No atual cenário da disputa eleitoral brasileira, talvez esta minha resposta possa surpreender, pois os maiores beneficiários da existência desse grupo que procura uma terceira via para votar não são, necessariamente, os candidatos da terceira via, mas sim os polos já estabelecidos.”
Para o pesquisador, quando os votos se distribuem entre diversos candidatos, nenhum deles consegue reunir força suficiente para disputar efetivamente a liderança do primeiro turno, mantendo vantagem para os grupos políticos já consolidados.
Debate vai além
Como informou O Brasilianista, o jurista Lenio Streck, pós-doutor em Direito e sócio fundador do escritório Streck e Trindade, considera que a discussão sobre terceira via não pode ser reduzida apenas aos números das pesquisas eleitorais.
“A chamada ‘terceira via’ tornou-se mais um argumento despistador. Até porque, no atual estágio do debate, parte expressiva desse eleitorado não representa propriamente uma terceira via, mas atua como linha auxiliar da direita.”
Streck também chamou atenção para outro aspecto do processo eleitoral brasileiro ao afirmar que a abstenção pode exercer influência mais relevante do que o comportamento dos eleitores classificados como indecisos nas pesquisas.
Rearranjo político
Como explicou O Brasilianista, o debate sobre novas alternativas políticas ocorre em um contexto regional marcado por mudanças sucessivas de governo.
A eleição de Keiko Fujimori no Peru ampliou recentemente o número de administrações alinhadas à direita ou à centro-direita na América do Sul, juntando-se aos governos de Javier Milei, na Argentina, Daniel Noboa, no Equador, Rodrigo Paz, na Bolívia, José Antonio Kast, no Chile e Abelardo de la Espriella, na Colômbia.
Ao mesmo tempo, países como Brasil, Uruguai, Guiana, Suriname e Venezuela permanecem sob governos associados à centro-esquerda ou à esquerda, mantendo um equilíbrio ideológico no continente sem predominância absoluta de um único bloco político.

