Dez anos depois do referendo que levou o Reino Unido a deixar a União Europeia, a possibilidade de o país voltar ao bloco europeu voltou ao centro da política britânica.
A discussão ganhou força após o ministro do Comércio, Chris Bryant, afirmar que espera ver o Reino Unido readmitido na União Europeia durante sua vida.
Embora tenha reconhecido que esse cenário ainda está distante, o ministro atribuiu ao Brexit prejuízos para a economia britânica, afirmando que cerca de 16 mil empresas deixaram de exportar para a Europa desde a saída do bloco e classificando a decisão como um “gol contra”.
Debate volta à política britânica
As declarações de Bryant foram acompanhadas por posicionamentos de outras lideranças do Partido Trabalhista. O ex-ministro da Saúde Wes Streeting afirmou que a saída da União Europeia foi um “erro catastrófico” e defendeu que o Reino Unido volte a discutir sua relação com o bloco europeu. Segundo ele, o Brexit reduziu a influência internacional britânica e prejudicou a economia do país.
O primeiro-ministro Keir Starmer adotou uma postura mais cautelosa. Apesar de ampliar a aproximação diplomática com Bruxelas desde que assumiu o governo, ele evita defender oficialmente uma nova adesão.
O foco declarado do premiê é aprofundar a cooperação entre Reino Unido e União Europeia sem recolocar imediatamente o tema da reintegração.
O debate ocorre em meio a uma crise política interna. O desempenho abaixo do esperado do Partido Trabalhista nas eleições locais aumentou a pressão sobre Starmer, enquanto possíveis sucessores passaram a manifestar posições diferentes sobre o Brexit, revelando divisões dentro da própria legenda.
Dez anos depois, efeitos do Brexit continuam
Passados dez anos do referendo, muitas das promessas apresentadas pelos defensores do Brexit não se concretizaram. O Reino Unido recuperou autonomia para definir políticas comerciais e migratórias, mas enfrentou um período de forte instabilidade política, com sucessivas trocas de primeiros-ministros, dificuldades econômicas e mudanças profundas no sistema partidário.
Estudos econômicos estimam perdas equivalentes entre 6% e 8% do Produto Interno Bruto (PIB) britânico em decorrência do Brexit, principalmente por causa do aumento das barreiras comerciais com a União Europeia e do ambiente de incerteza que se seguiu ao referendo.
Pesquisas também apontam queda das exportações britânicas para o bloco europeu e dificuldades adicionais para empresas que dependem do mercado continental.
Outro resultado destacado foi a imigração. Embora o controle migratório tenha sido uma das principais bandeiras da campanha pela saída, o número total de imigrantes permaneceu elevado.
A diferença foi a mudança no perfil dos fluxos migratórios, com redução da entrada de trabalhadores europeus e crescimento da imigração proveniente de países de fora da União Europeia.
Opinião pública mudou, mas retorno continua distante
A maioria dos britânicos considera hoje que o Brexit foi um erro. O crescimento desse sentimento levou ao surgimento de expressões como “Breturn” e “Breunion”, utilizadas para descrever um eventual retorno do Reino Unido ao bloco europeu.
Apesar disso, diplomatas europeus afirmam que a União Europeia não demonstra disposição para acelerar esse processo. Qualquer candidatura britânica dependeria da aceitação integral das regras do bloco, incluindo compromissos que Londres rejeitou durante décadas, como o fim das exceções negociadas antes do Brexit.
A própria União Europeia mudou desde a saída britânica. O bloco ampliou iniciativas de integração em áreas estratégicas, como defesa e autonomia econômica, enquanto diversos governos consideram que a tomada de decisões ficou mais simples sem a necessidade de negociar exceções específicas para o Reino Unido.
Uma nova cúpula entre Reino Unido e União Europeia está prevista para julho, em Bruxelas. A expectativa é de avanços limitados em temas como mobilidade de jovens, cooperação comercial e facilitação das exportações de alimentos, enquanto uma eventual volta do Reino Unido ao bloco permanece sem cronograma.

