A China passou por uma das maiores transformações econômicas da história contemporânea. Em poucas décadas, deixou de ser uma economia predominantemente agrária para ocupar a posição de segunda maior economia do planeta, liderando setores como manufatura, infraestrutura, comércio exterior e tecnologias estratégicas.
Ao mesmo tempo, o país enfrenta novos obstáculos que colocam em debate até onde sua expansão poderá chegar e se conseguirá ultrapassar os Estados Unidos como principal potência econômica mundial.
Para explicar esse processo, Rafael Moredo, internacionalista pela Fundação Getulio Vargas (FGV), especialista em gestão pública pelo Insper e coordenador de políticas públicas do Livres, analisou os fatores que impulsionaram o crescimento chinês, os desafios que surgem com a maturidade da economia e os impactos dessa disputa para o restante do mundo, incluindo o Brasil.
Abertura econômica marcou a transformação chinesa
A mudança de trajetória da economia chinesa começou no fim da década de 1970, quando reformas econômicas passaram a flexibilizar um modelo fortemente centralizado.
A abertura ao investimento estrangeiro, a criação das Zonas Econômicas Especiais e o incentivo à iniciativa privada alteraram profundamente a estrutura produtiva do país.
Para Moredo, o crescimento acelerado não ocorreu pela manutenção do planejamento estatal, mas pela incorporação gradual de mecanismos de mercado.
“Deng Xiaoping desmontou as comunas agrícolas, permitiu empresas privadas, criou as Zonas Econômicas Especiais e integrou a China às cadeias globais de valor. Foi a introdução de incentivos de mercado numa economia destruída por décadas de planejamento central que produziu o crescimento.”
O especialista acrescenta que a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, consolidou esse processo ao ampliar o acesso das empresas chinesas ao comércio internacional e atrair novos investimentos.
Além das reformas, fatores estruturais contribuíram para esse desempenho, como a grande oferta de mão de obra, elevados níveis de poupança interna e um ambiente institucional que ofereceu previsibilidade suficiente para empresas nacionais e investidores estrangeiros.
Modelo desperta interesse, mas não pode ser copiado integralmente
O rápido desenvolvimento chinês fez com que diversos países passassem a estudar seu modelo econômico. No entanto, Moredo considera que a principal lição não está na forte presença do Estado na economia.
Na avaliação do internacionalista, experiências internacionais demonstram que o crescimento sustentável depende mais da integração ao comércio mundial e do fortalecimento das instituições do que da ampliação do controle estatal sobre a atividade econômica.
“A lição exportável não é o capitalismo de Estado, mas a abertura comercial e a estabilidade institucional mínima para o funcionamento dos mercados.”
O especialista ressalta que economias como Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e, mais recentemente, Vietnã, também registraram crescimento acelerado ao combinar investimentos em educação, infraestrutura, segurança jurídica e inserção nas cadeias globais de produção.
Para Moredo, o autoritarismo não explica o sucesso econômico chinês e, atualmente, representa um dos fatores que podem limitar o desempenho do país nos próximos anos.
Disputa com os Estados Unidos ficou mais equilibrada
Durante a última década, parte dos analistas avaliava que a ultrapassagem da economia americana pela chinesa seria apenas uma questão de tempo. Hoje, esse cenário passou a ser considerado menos previsível.
Moredo observa que a China mantém vantagens importantes, principalmente pelo tamanho de seu mercado consumidor, pela capacidade industrial e pelos investimentos em inovação.
“O cenário que há dez anos parecia inevitável é hoje significativamente mais incerto.”
Entre os fatores favoráveis, ele destaca a liderança em energias renováveis e o avanço na inteligência artificial, impulsionado pelo enorme volume de dados produzidos internamente.
Ao mesmo tempo, o especialista avalia que uma série de obstáculos passou a reduzir o ritmo da expansão econômica chinesa.
Entre eles estão a desaceleração estrutural do crescimento, a crise no setor imobiliário, o enfraquecimento da demanda doméstica e as restrições internacionais ao acesso a semicondutores de última geração.
Na avaliação de Moredo, o resultado mais provável não é uma substituição da liderança americana, mas a consolidação de um sistema internacional dividido entre duas grandes potências econômicas.
Desafios internos aumentam a pressão sobre a economia
Os problemas demográficos aparecem entre as maiores preocupações para o futuro da China. A redução da taxa de natalidade e o envelhecimento da população diminuem a oferta de trabalhadores e ampliam os gastos públicos com previdência e saúde.
O internacionalista explica que essas mudanças ocorrem antes de o país alcançar um nível de renda comparável ao das economias mais desenvolvidas.
“Os desafios são interdependentes. O demográfico corrói a vantagem competitiva industrial e aumenta o gasto previdenciário ao mesmo tempo.”
Segundo dados do Trading Economics, a economia chinesa apresentou crescimento anual de 4,3% no segundo trimestre de 2026, abaixo do ritmo observado anteriormente.
No mesmo período, a inflação permaneceu em 1%, enquanto o desemprego ficou em 5%, indicadores que refletem um ambiente de expansão mais moderada.
Ao mesmo tempo, o país continua registrando forte superávit comercial e mantém elevados investimentos públicos para estimular setores estratégicos, incluindo programas voltados ao consumo, infraestrutura e serviços.
Tecnologia e geopolítica definirão os próximos anos
A competição entre China e Estados Unidos ultrapassou o comércio e passou a envolver áreas consideradas estratégicas, como inteligência artificial, semicondutores, energia e infraestrutura digital.
Moredo avalia que esse movimento está redesenhando a economia mundial ao criar ecossistemas tecnológicos parcialmente separados.
“A principal transformação já está em curso: o mundo está deixando de ter uma ordem econômica e tecnológica integrada para ter duas esferas de influência parcialmente separadas.”
Na avaliação do especialista, essa reorganização tende a aumentar as disputas por liderança tecnológica e dificultar a cooperação internacional em temas considerados estratégicos.
O cenário também produz efeitos sobre países de renda média, que passam a enfrentar maior pressão para definir alinhamentos políticos e econômicos.
“O risco é ser pressionado a escolher lados. A oportunidade está no valor estratégico da neutralidade ativa — mas a condição para exercê-la é ter instituições sólidas, Estado de direito confiável e política comercial previsível.”

