O apoio de Xi Jinping ao Brasil contra interferências externas ocorre em um momento de tensão nas relações de Brasília com Washington, mas os interesses chineses vão além da disputa diplomática.
A China busca preservar uma parceria que envolve comércio, alimentos, energia, minerais críticos, tecnologia e investimentos, além de manter no Brasil um interlocutor relevante para sua atuação no Sul Global.
Em telefonema com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na noite de domingo (26), Xi defendeu a soberania e a independência brasileiras e manifestou oposição à interferência externa.
A conversa também tratou da ampliação da cooperação bilateral, das negociações entre Mercosul e China e de projetos em inteligência artificial, satélites, fertilizantes e beneficiamento de minerais críticos.
Para Victor Gabriel Roger Jaumouillé, consultor de Comércio Internacional com foco em negócios internacionais, política e acesso a mercados globais, a manifestação segue um princípio tradicional da política externa chinesa, mas ganha dimensão estratégica diante do atual ambiente internacional.
“O apoio público de Xi Jinping ao Brasil reflete, em primeiro lugar, a tradicional posição da diplomacia chinesa em defesa da soberania e da não interferência em assuntos internos, especialmente nas relações com parceiros do Sul Global. No entanto, o momento da manifestação, em meio à escalada das tensões entre Brasil e Estados Unidos, também lhe confere uma dimensão estratégica”, pontua.
Autonomia brasileira interessa aos planos de Pequim
A política externa brasileira procura manter relações tanto com Washington quanto com Pequim sem assumir alinhamento exclusivo com uma das potências.
Na avaliação de Jaumouillé, essa autonomia cria um ambiente favorável aos interesses chineses, porque mantém abertas oportunidades econômicas em um dos principais mercados da América Latina.
O interesse começa pela complementaridade comercial. O Brasil fornece produtos importantes para a segurança alimentar chinesa e possui peso nas cadeias de energia e recursos naturais. Ao mesmo tempo, a relação bilateral avançou para segmentos como veículos elétricos, inteligência artificial e outras tecnologias.
Vito Villar, especialista em Política Internacional e Comércio, destaca que o vínculo também ganhou relevância política em um período de mudanças na relação dos países latino-americanos com Washington.
“China é o maior parceiro comercial do Brasil. Ao mesmo tempo, contar com a cadeia de suprimentos, especialmente de commodities como soja e minério de ferro brasileiro é importante para a China manter o seu desenvolvimento econômico. Além disso, Brasil e China compartilham, atualmente, maior alinhamento político, especialmente em um momento em que boa parte dos países da América Latina voltam a um alinhamento quase que automático com Washington”, explica.
Para Jaumouillé, preservar a capacidade brasileira de tomar decisões sem depender de uma única potência também protege interesses chineses de longo prazo.
“A China também possui interesse na expansão de investimentos e na construção de infraestrutura capaz de aproximar o Brasil dos mercados asiáticos, como a proposta de ligação ferroviária entre a Bahia e o porto de Chancay, no Peru”, completa.
Tecnologia amplia espaço da parceria bilateral
A aproximação entre os dois países deixou de estar concentrada apenas na compra e venda de commodities. O Brasilianista mostrou, que empresas brasileiras e chinesas participaram de discussões sobre infraestrutura computacional, modelos de inteligência artificial e desenvolvimento de tecnologias relacionadas à indústria 4.0.
O governo brasileiro também mantém o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028.
Nesse ambiente, empresas chinesas aparecem entre potenciais parceiras para infraestrutura tecnológica, conectividade e desenvolvimento de aplicações de IA.
A agricultura constitui outra frente de interesse. O Brasilianista destacou que o programa Caminho Verde Brasil foi apresentado a representantes chineses com a proposta de recuperar 40 milhões de hectares de pastagens degradadas em dez anos. O projeto abre espaço para capital estrangeiro e desenvolvimento de tecnologias agrícolas.
A cooperação nesse setor atende a uma necessidade estratégica de Pequim. A China busca diversificar fontes de produção e fornecimento de alimentos, enquanto empresas do país ampliam presença em biotecnologia, genética vegetal e tecnologias aplicadas ao agronegócio brasileiro.
Tensão com Washington pode abrir novas oportunidades
O posicionamento de Xi ocorre enquanto o Brasil enfrenta medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos. O Brasilianista informou, que tributaristas avaliam que a sobretaxa americana de 25% sobre milhares de produtos brasileiros pode reduzir a competitividade das exportações, pressionar custos e levar empresas a procurar outros destinos para suas mercadorias.
Nesse contexto, Jaumouillé avalia que a deterioração das relações com Washington pode acelerar um processo de diversificação que já estava em andamento.
“A deterioração das relações com os Estados Unidos pode reforçar essa trajetória, ao incentivar o Brasil a diversificar mercados e parceiros – inclusive direcionar à China parte das exportações que podem enfrentar maiores dificuldades de acesso ao mercado norte-americano – e, simultaneamente, ampliar o espaço para a China aprofundar sua presença no país”, comenta.
O consultor cita dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) segundo os quais o Brasil recebeu US$ 6,1 bilhões em investimentos chineses em 2025, crescimento de 45% sobre o ano anterior. Os recursos alcançaram energia e mineração, além da indústria automotiva, tecnologia e atividades de maior valor agregado.
A conversa entre Lula e Xi acrescentou outra possibilidade a esse processo. Os presidentes concordaram sobre a importância de acelerar as tratativas para um acordo entre Mercosul e China, embora uma abertura comercial desse porte envolva interesses distintos dentro da economia brasileira.
“O Brasil nunca viu esse acordo com muitos bons olhos, especialmente em razão de muitas restrições locais, especialmente dos setores de máquinas, equipamentos e automóveis. Ao mesmo tempo, garantir essa parceria em tons próximos cresce de importância para o Brasil, assim como o governo Lula pressionou para a conclusão do acordo com a União Europeia”, diz.
Disputa entre EUA e China alcança a América Latina
A aproximação com Brasília também integra uma disputa mais ampla entre Pequim e Washington por influência econômica, tecnológica e diplomática.
O Brasilianista mostrou, que a relação entre Donald Trump e Xi Jinping envolve divergências comerciais, militares e tecnológicas, além das disputas relacionadas a Taiwan e à presença internacional das duas potências.
Nesse tabuleiro, o peso econômico e político do Brasil amplia sua importância. O país combina mercado consumidor, produção agrícola, reservas minerais e capacidade energética com participação em fóruns multilaterais como Brics e Organização das Nações Unidas (ONU).
Para Villar, Washington acompanha a expansão chinesa na América Latina e busca preservar sua influência na região.
“Os Estados Unidos observam com atenção a presença chinesa na América Latina como um todo. A política de Marco Rubio de forte aproximação com governos e em eleições na região demonstra uma vontade clara dos EUA em garantir a região como zona de influência americana. Dessa forma, e persistência do Brasil em manter-se mais próximo à China do que aos EUA, pode gerar conflitos no futuro próximo”, afirma.
Jaumouillé avalia, porém, que a estratégia brasileira não necessariamente passa pela substituição dos Estados Unidos pela China. Para o especialista, o histórico recente aponta para a manutenção de relações com os dois países.
“A experiência do ano passado, quando o Brasil enfrentou as tarifas americanas, sugere que a tendência deve ser de continuidade da estratégia de não escolher entre Washington e Pequim. No entanto, diante da deterioração das relações com os Estados Unidos, o Brasil pode buscar reduzir sua dependência do mercado americano e, consequentemente, sua vulnerabilidade à pressão econômica e política de Washington”, finaliza.

