Ao longo de 2026, dezenas de países escolherão novos governos ou renovarão seus parlamentos, e parte dessas mudanças poderá influenciar decisões econômicas que afetam diretamente o Brasil.
58 países realizarão eleições neste ano, incluindo Estados Unidos, Portugal, Israel, África do Sul e Brasil. O levantamento reúne disputas presidenciais, legislativas e eleições para primeiros-ministros, formando um dos calendários políticos mais movimentados dos últimos anos.
Na avaliação de Marcelo Simonato, pós-graduado em Finanças pela Fundação Getulio Vargas (FGV), sócio e vice-presidente da Board Academy, acompanhar essas votações deixou de ser uma preocupação restrita aos diplomatas e passou a fazer parte da estratégia de empresas que atuam em um ambiente econômico cada vez mais conectado.
“Embora o Brasil tenha naturalmente seu foco voltado para as eleições presidenciais nacionais, o calendário eleitoral internacional de 2026 merece igual atenção.”
O especialista contextualiza que governos eleitos em países estratégicos podem redefinir políticas comerciais, industriais e regulatórias.
“Vivemos em uma economia profundamente integrada, na qual mudanças de governo em países estratégicos podem influenciar comércio exterior, investimentos, cadeias globais de suprimentos, política monetária e fluxos de capitais.”
Estados Unidos e China concentram parte da atenção dos mercados
Entre todos os processos eleitorais previstos para este ano, os Estados Unidos aparecem entre os mais acompanhados pelos investidores.
As eleições legislativas de meio de mandato ocorrerão em um ambiente marcado pelo tarifaço, inflação, imigração e política externa durante o governo Donald Trump.
Para Simonato, qualquer alteração na política econômica americana tende a repercutir rapidamente em diversas economias, inclusive na brasileira.
“Mudanças em sua política comercial, industrial, energética ou monetária podem alterar o fluxo de investimentos, a cotação do dólar e o comportamento dos mercados financeiros.”
Ao mesmo tempo, a China permanece como outro foco de atenção. O país ocupa a posição de principal parceiro comercial do Brasil e responde por parcela significativa da demanda por commodities brasileiras.
“Qualquer alteração em suas prioridades econômicas, industriais ou ambientais pode impactar diretamente setores como agronegócio, mineração, energia e infraestrutura.”
Europa, América do Sul e interesses econômicos
Além das grandes potências, países europeus também entram na lista de processos eleitorais relevantes. Portugal abriu o calendário eleitoral europeu, enquanto outros países discutirão temas como imigração, sustentabilidade e integração regional.
“Também merece atenção a União Europeia, especialmente diante da implementação de novas regras relacionadas à sustentabilidade, descarbonização, rastreabilidade de produtos e acordos comerciais.”
Na América do Sul, mudanças de governo também exigem acompanhamento porque podem afetar projetos de integração logística, segurança nas fronteiras e comércio regional.
“Países constroem relações comerciais ao longo de décadas. Essas relações envolvem empresas, investimentos, cadeias produtivas, infraestrutura logística e interesses econômicos que dificilmente são desfeitos apenas em razão de mudanças eleitorais.”
Previsibilidade continua sendo a principal preocupação
Embora eleições despertem atenção dos mercados, Simonato avalia que investidores costumam observar mais a estabilidade institucional do que o posicionamento ideológico dos futuros governos.
Para o especialista, interesses econômicos compartilhados normalmente mantêm relações comerciais mesmo quando países possuem orientações políticas diferentes.
Ao analisar o comportamento dos mercados financeiros, Simonato observa que períodos eleitorais costumam aumentar a cautela dos investidores.
“O principal fator de preocupação não é necessariamente o resultado das eleições, mas o aumento da incerteza.”
O especialista acrescenta que empresas acompanham principalmente mudanças capazes de alterar regras econômicas, comércio internacional e segurança jurídica.
Na política externa brasileira, Simonato entende que preservar o diálogo com diferentes parceiros continuará sendo uma prioridade diante das mudanças que ocorrerão em diversos governos.
“Para o Itamaraty, o desafio será preservar o tradicional equilíbrio da política externa brasileira, mantendo diálogo construtivo com diferentes parceiros independentemente das mudanças de governo.”
Ao projetar os próximos anos, o especialista afirma que governos e empresas precisarão ampliar sua capacidade de adaptação diante de um ambiente internacional cada vez mais complexo.
“Será fundamental compreender como as novas lideranças conduzirão suas políticas econômicas, comerciais e diplomáticas. Para o Brasil, isso significa fortalecer sua inserção internacional com pragmatismo, ampliar mercados, diversificar parceiros comerciais e preservar sua competitividade em um cenário global cada vez mais dinâmico e complexo.”

