A polarização voltou a dominar o cenário político brasileiro diante das primeiras movimentações para a disputa presidencial. A eleição de 2022 entrou para a história como a mais apertada desde a redemocratização.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno com 50,86% dos votos válidos, contra 49,14%, uma diferença de apenas 1,72 ponto percentual, superando o recorde anterior registrado em 2014.
Disputas equilibradas marcaram a história recente da Presidência
Desde que o Brasil retomou as eleições diretas para presidente, em 1989, três disputas ficaram marcadas pela pequena distância entre vencedor e segundo colocado.
A eleição mais equilibrada ocorreu em 2022, quando pouco mais de dois milhões de votos separaram Lula de Bolsonaro após uma campanha marcada por forte divisão do eleitorado.
Antes disso, o recorde pertencia à eleição de 2014. Dilma Rousseff (PT) foi reeleita com 51,64% dos votos válidos, enquanto Aécio Neves (PSDB) terminou com 48,36%. A diferença de 3,28 pontos percentuais representou, até então, a menor margem desde a redemocratização.
Outro pleito frequentemente lembrado pela disputa acirrada foi o de 1989, a primeira eleição presidencial direta após o regime militar. Fernando Collor venceu Lula no segundo turno com 53,03% dos votos, contra 46,97%, abrindo vantagem de 6,06 pontos percentuais.
Em contraste, algumas eleições foram decididas com margem muito superior. Em 2002, Lula conquistou a Presidência com 61,27% dos votos válidos, ficando mais de 22 pontos percentuais à frente de José Serra (PSDB).
Fernando Henrique Cardoso (PSDB), por sua vez, permanece como o único presidente eleito ainda no primeiro turno em duas eleições consecutivas, em 1994 e 1998.
Diferença de um voto já decidiu eleições municipais
Os resultados apertados não se restringem às disputas nacionais. Nas eleições municipais, onde o número de eleitores é muito menor, um único voto pode alterar completamente o resultado da eleição.
Em 2024, quatro municípios brasileiros escolheram seus prefeitos por diferença de apenas um voto. Em Olho d’Água do Borges (RN), Antonimar Amorim (União Brasil) venceu por 2.178 votos contra 2.177. Em Fernão (SP), Adelar Silvestri (PT) derrotou Evandro Biff (PL) por 699 a 698 votos.
Situação semelhante ocorreu em Gentil (RS), onde Cristovam (PDT) foi eleito por 2.037 votos contra 2.036 de Edson Curi (PSDB).
Em Rosário da Limeira (MG), a definição do vencedor também ocorreu por apenas um voto, repetindo um cenário raro nas eleições brasileiras.
Além das vitórias mínimas, o Código Eleitoral prevê uma solução para casos ainda mais incomuns: o empate absoluto. O artigo 110 determina que, em eleições majoritárias sem segundo turno, o candidato mais idoso assume o cargo caso ambos recebam exatamente a mesma quantidade de votos.
Esse critério foi aplicado em Inhaúma (MG), nas eleições de 2024, quando dois candidatos terminaram empatados com 2.434 votos cada.
Como Zula tinha 62 anos e o adversário, Carlinhos, 46, a prefeitura ficou com o candidato mais velho. O mesmo mecanismo decidiu as eleições de Jardinópolis (SC), em 2020, e Caraúbas (PB), também em 2020.
Polarização volta a aparecer nas pesquisas para 2026
Como mostrou O Brasilianista, as primeiras pesquisas para a eleição presidencial de 2026 voltaram a indicar um cenário de forte polarização.
Levantamento Atlas/Estadão realizado no estado de São Paulo mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro em situação de empate técnico nas intenções de voto, enquanto o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) tenta ocupar espaço como alternativa ao eleitorado.
A avaliação da professora de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart, é de que a consolidação de dois polos tende a reduzir o espaço para candidaturas competitivas fora desse eixo.
Segundo a especialista, quando parte significativa do eleitorado enxerga apenas dois candidatos como viáveis, a decisão costuma ocorrer mais pela rejeição ao adversário do que pela adesão ao projeto político do escolhido.
Caiado aposta na construção de uma agenda própria para ampliar sua visibilidade e tentar romper a lógica da polarização. Entre as estratégias apresentadas estão a defesa de pautas voltadas ao eleitorado de direita e a tentativa de consolidar uma alternativa competitiva ao embate entre Lula e Flávio Bolsonaro.

