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Geopolítica

Veja como jornais argentinos noticiam atrito entre Milei e Lula

Clarín trata relação bilateral como a pior em anos

Veja como jornais argentinos noticiam atrito entre Milei e Lula

A crise diplomática entre Brasil e Argentina ganhou destaque na imprensa argentina após Javier Milei atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), durante a convenção do PL no sábado (25).

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O Clarín, La Nación e Página/12 repercutiram o episódio e as medidas tomadas por Brasília, que chamou o embaixador brasileiro Julio Bitelli para consultas e convocou o representante argentino Daniel Raimondi para prestar esclarecimentos.

A participação de Milei ocorreu durante o lançamento da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. No discurso, o argentino chamou Lula de “presidiário” e “ladrão”, além de atacar Moraes.

A presença de um chefe de Estado estrangeiro em um evento eleitoral brasileiro passou a dividir a cobertura entre os efeitos diplomáticos do episódio, a atuação política de Milei e as consequências para uma relação bilateral marcada pela integração econômica.

Clarín descreve pior momento da relação bilateral

O Clarín apresentou o episódio como o pior momento da relação entre Brasil e Argentina e afirmou que o vínculo entre Lula e Milei, anteriormente marcado pelo distanciamento, passou a ser visto em Brasília como uma relação de “divórcio”.

O jornal também classificou como uma novidade o nível das acusações feitas pelo atual presidente argentino contra autoridades brasileiras.

A deterioração ocorre depois de um período no qual os dois governos mantiveram uma convivência institucional apesar das diferenças políticas.

Milei acumula críticas a Lula desde a campanha presidencial argentina de 2023, enquanto os dois presidentes evitaram uma aproximação política durante os primeiros anos do atual governo argentino.

O jornal argentino também acompanhou a forma como os veículos brasileiros passaram a tratar a passagem de Milei pelo país.

Em nova publicação nesta segunda-feira (27), reuniu manchetes da imprensa nacional e observou uma mudança na cobertura: o protagonismo inicial do argentino no evento de Flávio Bolsonaro deu lugar aos desdobramentos da crise entre os governos.

La Nación confronta discurso econômico de Milei

O La Nación levou a repercussão para o campo econômico ao analisar uma comparação feita pelo presidente argentino durante sua passagem por São Paulo.

Milei associou o que chama de “risco kuka”, referência ao kirchnerismo, a um suposto “risco Lula”, expressão usada para criticar a política econômica do governo brasileiro.

O próprio jornal argentino mostrou, porém, uma diferença expressiva entre os indicadores dos dois países. O risco-país da Argentina estava em 439 pontos básicos, enquanto o brasileiro rondava 175 pontos, abaixo também dos níveis registrados no México e na Colômbia.

Economistas consultados pelo periódico atribuíram a distância a características estruturais das duas economias. Entre elas estão a independência do Banco Central brasileiro, o financiamento da dívida predominantemente em moeda local e o histórico do país no cumprimento de compromissos financeiros.

A reportagem tratou esses fatores como limites para equiparar a percepção de risco envolvendo Brasil e Argentina.

O La Nación também acompanhou o ambiente eleitoral brasileiro após a participação de Milei na convenção do PL. O jornal apresentou a pesquisa Nexus/BTG divulgada nesta segunda-feira, na qual Lula aparece com 47% e Flávio Bolsonaro com 43% em uma simulação de segundo turno. A diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

Página/12 vê interferência na disputa brasileira

O Página/12 concentrou sua cobertura no caráter político da participação de Milei no evento partidário. O jornal classificou a atuação do presidente argentino como uma interferência “descarada” nas eleições brasileiras e afirmou que ele cruzou “uma nova linha vermelha” ao discursar contra Lula em território brasileiro.

O enquadramento está relacionado ao movimento de Milei para ampliar sua presença entre grupos de direita na América Latina.

Durante a convenção, o argentino defendeu a candidatura de Flávio Bolsonaro, apresentou a eleição brasileira como parte de uma disputa regional contra a esquerda e pediu aos eleitores apoio ao senador nas urnas.

A cobertura do periódico também relacionou a postura atual ao histórico de divergências políticas envolvendo os dois presidentes.

Lula apoiou Sergio Massa na disputa presidencial argentina de 2023, enquanto Milei mantém proximidade com a família Bolsonaro e já manifestou apoio público ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Oposição argentina teme impacto sobre relação comercial

A reação ao discurso também alcançou a política interna argentina. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, classificou a participação de Milei como motivo de “vergonha alheia” e entrou em contato com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

Kicillof concentrou as críticas nas consequências econômicas de um agravamento das relações entre os países. O governador mencionou riscos para investimentos, exportações e empregos argentinos e ressaltou a importância do mercado brasileiro para a economia do país vizinho.

As críticas chegaram ainda à oposição moderada. O deputado Miguel Ángel Pichetto classificou a postura de Milei como uma “irresponsabilidade total” e associou o nível de agressividade do discurso a possíveis prejuízos para a integração entre Argentina, Brasil e Mercosul.

Casa Rosada descarta retratação neste momento

Apesar da repercussão, o governo argentino não prevê apresentar um pedido de desculpas.

O chefe de gabinete argentino, Diego Santilli, também minimizou a dimensão da crise. Questionado sobre a reação de Brasília, pediu que não se fizesse “tanto drama” e citou a participação de publicitários ligados ao PT na campanha de Sergio Massa em 2023 para responder às acusações de interferência.

Milei, por sua vez, voltou a elevar o tom após retornar à Argentina. Em entrevista à Rádio Mitre, acusou, sem apresentar provas, o governo brasileiro de financiar uma campanha contra a Argentina e voltou a se referir a Lula como “ex-presidiário”.

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