Publicidade
Economia

Guerra dos apps de delivery ganha novo capítulo com disputa por contratos de restaurantes

Keeta oferece ressarcimento de multas para estabelecimentos que deixarem acordos de exclusividade

Guerra dos apps de delivery ganha novo capítulo com disputa por contratos de restaurantes

A Keeta passou a oferecer o pagamento de multas para restaurantes que romperem contratos de exclusividade com o iFood, mas exige documentos que podem revelar informações comerciais da principal concorrente no Brasil.

Publicidade

Segundo a Folha de S.Paulo, os estabelecimentos precisam apresentar dados como faturamento médio, taxa de comissão e valores relacionados ao acordo anterior para solicitar o ressarcimento.

A plataforma afirma que a iniciativa busca ajudar restaurantes a deixar contratos que considera restritivos. Após o rompimento, os estabelecimentos ficam livres para operar em diferentes aplicativos, enquanto a documentação apresentada serve para comprovar o valor necessário para encerrar o acordo de exclusividade.

Os contratos também estabelecem condições para o pagamento. Entre elas estão a comunicação de eventuais sanções do iFood em até 48 horas e a validação dos documentos pela Keeta, que pode cancelar a garantia prevista no acordo.

99Food também enfrentou disputa sobre contratos

A 99Food já esteve no centro de uma investigação relacionada às condições oferecidas a restaurantes. O Brasilianista informou que o Cade decidiu investigar acusações apresentadas pela Keeta contra a plataforma.

A denúncia questionava incentivos financeiros e cláusulas que poderiam dificultar a entrada de estabelecimentos na Keeta e na Rappi.

Entre as acusações estavam contratos que citariam nominalmente as concorrentes, além da cobrança de multas em determinadas situações.

A 99Food contestou as alegações e classificou as condições como incentivos comerciais legítimos para uma empresa que buscava ampliar sua presença no mercado. A plataforma também sustentou que os compromissos eram voluntários e tinham duração determinada.

Outra reportagem de O Brasilianista mostrou que a Superintendência-Geral do Cade arquivou o processo ao considerar que a participação da 99Food em São Paulo era inferior a 20% e que a empresa não possuía capacidade para impedir a atuação das concorrentes.

Cade voltou a colocar o caso em discussão

O arquivamento, porém, não encerrou definitivamente a disputa. No início de julho, o tribunal do Cade determinou a reabertura da investigação originada pela denúncia da Keeta, levando novamente as práticas da 99Food à análise concorrencial.

A sequência de processos ocorre enquanto as plataformas disputam estabelecimentos essenciais para ampliar cardápios, cobertura territorial e capacidade de atrair consumidores. Nesse modelo, as condições oferecidas aos restaurantes passaram a ocupar parte relevante das divergências entre os aplicativos.

O próprio iFood também enfrentou questionamentos sobre exclusividade. Em maio, a Superintendência-Geral do Cade identificou indícios de descumprimento do acordo firmado pela plataforma com o órgão em 2023 para limitar determinadas práticas relacionadas a contratos exclusivos com restaurantes.

As disputas, portanto, não ficam restritas a uma única empresa. Keeta, 99Food e iFood aparecem em diferentes episódios como denunciantes ou alvos de questionamentos, enquanto o Cade avalia se determinadas estratégias comerciais ultrapassam os limites permitidos pela legislação concorrencial.

Briga entre plataformas chega ao custo das entregas

Enquanto os aplicativos disputam restaurantes, outra discussão avança sobre a estrutura econômica do setor. O Projeto de Lei Complementar nº 152/2025 busca estabelecer novas regras para trabalhadores de plataformas digitais e alcança um universo estimado em cerca de 2,2 milhões de profissionais.

Em reportagem de O Brasilianista, a especialista em planejamento financeiro Bruna Alves do Carmo avaliou que novas obrigações podem redistribuir os custos entre plataformas, trabalhadores e usuários. Uma das possibilidades apontadas por ela envolve a incorporação de parte dessas despesas aos valores cobrados nos serviços.

“Para o consumidor o impacto econômico poderá ocorrer no aumento das tarifas e preço final, porque é provável que as plataformas incorporem os custos trabalhistas, burocráticos e tributários nessas tarifas”, explicou Bruna.

A especialista também apontou possíveis mudanças na remuneração dos trabalhadores. “Para os motoristas a regulamentação pode diminuir o ganho líquido imediato devido ao aumento dos custos operacionais e tributários”, afirmou.

Restaurantes podem sentir mudanças no preço final

A discussão sobre custos alcança diretamente os estabelecimentos que utilizam aplicativos como canal de vendas. Restaurantes precisam conciliar despesas próprias da operação com comissões, logística e condições comerciais definidas pelas plataformas.

Ao O Brasilianista, o empresário do setor de consultoria em delivery Alex Lima afirmou que algumas taxas cobradas dos estabelecimentos podem superar 20%, dependendo do contrato.

“Alguém vai ter que pagar essa conta”, disse Lima ao abordar a possibilidade de aumento dos custos. Ele citou despesas com aluguel, funcionários, insumos e margem de lucro entre os componentes que já fazem parte da estrutura financeira dos estabelecimentos.

Beatriz Mateus Rodrigues, especialista em contabilidade e auditoria governamental, acrescentou que as mudanças podem alcançar empresas que nem sequer atuam diretamente nas plataformas.

“A regulamentação proposta no PLP 152/2025 não impacta apenas motoristas e plataformas digitais, mas toda a dinâmica econômica, incluindo empresas que não atuam diretamente com aplicativos”, afirmou.

Rodrigues também relacionou possíveis aumentos às despesas de pequenos e médios negócios que utilizam aplicativos para transporte e outras atividades.

Mercado reúne concorrência e debate regulatório

A regulamentação ainda passa pelo Congresso Nacional e reúne divergências sobre pontos como remuneração mínima, proteção social e responsabilidades das plataformas.

Entre as medidas discutidas está a criação de uma remuneração mínima para entregadores. Também entram no debate seguro contra acidentes, proteção previdenciária e critérios para definir a participação das plataformas no financiamento dessas garantias.

Os efeitos econômicos dependem do texto que avançar no Legislativo. “Caso os custos adicionais sejam moderados, o mercado pode absorver as mudanças”, avaliou Beatriz Rodrigues ao O Brasilianista.

Para a especialista, encargos mais elevados podem produzir impactos diferentes sobre empresas que dependem desses serviços.

Acompanhe as redes sociais do O Brasilianista