A Polícia Federal (PF) abriu dois inquéritos para investigar a atuação de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como “Lulinha”, após analisar mensagens que apontam uma estratégia para “abrir portas” no governo federal em favor de negócios ligados ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
Os diálogos envolvem a lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, e serviram de base para apurações sobre suposto tráfico de influência no Ministério da Saúde e na Dataprev. As investigações foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Em um dos diálogos, o empresário orienta Roberta Luchsinger a buscar interlocução com autoridades e cita nomes ligados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ao Ministério da Saúde.
Como mostrou O Brasilianista, a tentativa de ampliar a atuação do grupo para a área da Saúde já fazia parte das investigações da Operação Sem Desconto.
Segundo a apuração, nenhum contrato foi efetivado, mas o material recolhido pela Polícia Federal passou a integrar as investigações sobre a possível utilização da estrutura empresarial do grupo para buscar contratos públicos e ampliar sua atuação além das fraudes investigadas no INSS.
Investigações alcançam Ministério da Saúde e Dataprev
Uma das mensagens consideradas centrais pela Polícia Federal foi enviada em 8 de maio de 2025. Nela, Antônio Carlos Camilo Antunes faz um resumo dos negócios que pretendia desenvolver com apoio de Roberta Luchsinger.
Entre as iniciativas citadas aparecem um projeto de cannabis medicinal, a comercialização de kits para diagnóstico da dengue, um suplemento alimentar infantil e um projeto de educação financeira.
Os investigadores apuram se houve tentativa de utilização da influência de pessoas próximas ao governo para facilitar essas negociações.
Como destacou O Brasilianista, o nome de “Lulinha” já havia surgido em outra frente da investigação antes da abertura desses novos inquéritos.
A Polícia Federal encontrou um documento referente a uma viagem de primeira classe realizada por Antônio Carlos Camilo Antunes e Fábio Luís Lula da Silva para Lisboa, em novembro de 2024.
O material foi obtido de forma independente da CPMI do INSS e passou a integrar o conjunto de elementos analisados pelos investigadores.
Na ocasião, a defesa de Antunes afirmou não ter acesso ao material, enquanto pessoas próximas a “Lulinha” sustentaram que a coincidência no voo não comprova qualquer relação entre os dois.
Outro ponto que chamou a atenção da Polícia Federal envolve a Dataprev. Nas mensagens, Antônio Carlos Camilo Antunes faz referência à empresa pública e descreve uma divisão de participações em possíveis negócios.
Com base nesse material, a PF instaurou um segundo inquérito para apurar eventual tráfico de influência envolvendo a estatal. Além dessas duas investigações, um terceiro pedido encaminhado ao Supremo Tribunal Federal ainda aguarda distribuição e análise pela Corte.
Defesas contestam suspeitas e negam irregularidades
Conforme revelou o Estadão, a defesa de Fábio Luís Lula da Silva afirmou que ele “não tem relação direta ou indireta com os negócios de Roberta Luchsinger” e classificou a abertura dos novos inquéritos como uma “pesca probatória”.
Os advogados sustentam que o fato de a Polícia Federal instaurar investigações sobre outros temas demonstra que não foram encontrados elementos que vinculem “Lulinha” ao esquema de descontos ilegais no INSS.
A defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes informou que não teve acesso ao conteúdo das mensagens analisadas pela Polícia Federal e, por isso, preferiu não comentar os diálogos.
Em relação ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a pasta informou que ele não recebeu a empresária desde que assumiu o comando do ministério, em março de 2025, e afirmou que não mantém nem nunca manteve contratos com a empresa World Cannabis.
Como mostrou O Brasilianista, o nome de Roberta Luchsinger já aparecia em outras apurações relacionadas ao caso. A reportagem relembrou que depoimentos e relatórios financeiros entregues à Polícia Federal apontavam a empresária como pessoa próxima de Antônio Carlos Camilo
Segundo aquela investigação, Roberta declarou que jamais participou de fraudes relacionadas aos descontos do INSS e afirmou que sua atuação ocorreu apenas em tratativas iniciais ligadas ao setor de canabidiol, além de dizer que mantém relação de amizade com Fábio Luís Lula da Silva.
Investigações seguem sob análise da PF
Como informou O Brasilianista, outras linhas de investigação também passaram a acompanhar movimentações financeiras relacionadas ao grupo.
A reportagem revelou que a CPMI do INSS recebeu um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicando movimentações da empresa Spyder Consultoria, que teria registrado cerca de R$ 371 milhões em operações apenas no primeiro semestre de 2025.
Parte desse material cita pagamentos destinados à publicitária Danielle Fonteles, apontada pela Polícia Federal como ligada a negócios de Antônio Carlos Camilo Antunes. A defesa da publicitária afirmou que os valores decorreram da venda de um imóvel e negou qualquer irregularidade.
Como mostrou O Brasilianista, a Dataprev já vinha sendo acompanhada em outra frente de apuração ligada ao escândalo do INSS. A reportagem relembrou que a CPMI convocou o presidente da estatal e outros investigados para esclarecer possíveis falhas que teriam favorecido as fraudes.
A comissão também aprovou diligências para investigar conexões entre lobistas, servidores públicos e dirigentes de entidades, além de solicitar informações sobre visitas registradas em órgãos como INSS, Receita Federal, Casa Civil, Banco Central, Controladoria-Geral da União (CGU), Dataprev e até o Supremo Tribunal Federal.
O caso continua em apuração pela Polícia Federal e tramita sob supervisão do Supremo Tribunal Federal.
Nota da defesa de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”
“Não tem relação direta ou indireta com os negócios de Roberta Luchsinger. A abertura de novos inquéritos sobre outros assuntos comprova que não foi encontrada nenhuma relação de Fábio Luís Lula da Silva com os desvios do INSS. A defesa classifica a investigação como uma ‘pesca probatória’.”
Nota do Ministério da Saúde
“Desde que assumiu o Ministério da Saúde, em março de 2025, o ministro Alexandre Padilha não recebeu a empresária citada e nunca tratou de nenhum desses temas. O Ministério da Saúde não tem nem nunca teve contrato com a World Cannabis. O produto sequer está incorporado ao SUS. Sobre a Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego), a proposta foi inscrita por meio de chamada pública em 2024 – quando Alexandre Padilha não era ministro – e reprovada em agosto do ano seguinte, antes mesmo do áudio em questão.”
Nota do diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle
“O diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, nunca teve qualquer compromisso social ou profissional com o senhor Antônio Carlos Camilo Antunes.Quanto ao senador Weverton Rocha, o encontro foi de natureza institucional, durante os diálogos que antecederam sua sabatina, como feito com os demais gabinetes do Senado e junto com os outros indicados à diretoria colegiada da Anvisa.Em relação ao uso medicinal da cannabis, a Anvisa atuou para atender estritamente a decisão do STJ e não houve qualquer mudança nas regras de importação de produtos e medicamentos à base desse insumo, em vigor desde 2019. Assim, é descabida a tese de influência de qualquer empresa sobre esse processo.”
Posicionamento da defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”
A advogada Danyelle Galvão informou que a defesa não teve acesso ao conteúdo das conversas analisadas pela Polícia Federal e, por esse motivo, não comentaria o caso.
O Brasilianista procurou a defesa de Roberta Luchsinger, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço segue aberto para manifestação.

