A decisão do ministro André Mendonça que autorizou busca e apreensão contra Weverton Rocha (PDT-MA) mostra que a Polícia Federal colocou o senador como líder do núcleo político das fraudes no INSS. Mas Rocha não é o único parlamentar mencionado pelos investigadores: Efraim Filho (União-PB), Juscelino Filho (União-MA) e Davi Alcolumbre (União-AP) também são citados por terem ligações com algumas das 16 pessoas presas na nova etapa da Operação Sem Desconto, deflagrada nesta quinta-feira (18).
Segundo o relatório da PF, Weverton Rocha é o “sustentáculo” que garantia blindagem institucional e influência ao grupo liderado por Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o Careca do INSS. Embora o parlamentar tenha sido alvo de buscas, o pedido de prisão preventiva feito pela autoridade policial foi indeferido pelo ministro Mendonça, que seguiu o parecer da Procuradoria-Geral da República pela falta de contemporaneidade de alguns fatos da investigação.
O senador Efraim Filho é citado no documento em razão de seu segundo suplente, Erick Janson Vieira Monteiro Marinho. De acordo com os autos, Erick Janson mantinha relação direta com empresas usadas no esquema de fraudes para ocultar patrimônio, inclusive sendo sócio de uma empresa proprietária de aeronave utilizada pelo grupo.
Juscelino Filho é mencionado devido à proximidade com Gustavo Marques Gaspar, ex-assessor na Câmara conhecido como “Gasparzinho” e preso preventivamente na operação de hoje. Segundo a Polícia Federal, Gaspar recebeu propina para usar sua influência política e conseguir blindar as fraudes.
A influência política de Gasparzinho vem dos inúmeros cargos que ele ocupou. Gaspar trabalhou com Juscelino Filho no Ministério das Comunicações e saiu da pasta para assumir um cargo comissionado na liderança do PDT, por indicação de Weverton Rocha.
“Gustavo Gaspar é considerado, nos bastidores, braço direito do senador Weverton. O empresário trabalhou como assessor do político maranhense por quatro anos, de 2019 a 2023”, complementa o relatório, citando ainda Davi Alcolumbre nesse contexto, pois o senador apoiou, juntamente com Rocha, Juscelino Filho para o Ministério das Comunicações.
A proximidade entre Gaspar e o grupo criminoso é demonstrada por meio de mensagens trocadas por ele com Rubens Costa, braço direito de Antônio Camilo. Numa dessas conversas, Gasparzinho pede para Costa ser seu fiador num contrato de aluguel.
Noutra, Gaspar e Costa falam sobre o recebimento de uma “encomenda”. Pouco antes desse diálogo, Rubens Costa havia sido acionado por Camilo para enviar “30 impressões” e tinha sacado R$ 40 mil no Banco Regional de Brasília.
De pai para filho

Os investigadores afirmam que, após a prisão do Careca do INSS, o filho dele, Rômulo Antunes, “assumiu papel estratégico, tornando-se o principal operador administrativo da organização criminosa em fase de reorganização”. Ele foi preso preventivamente na operação deflagrada hoje.
De acordo com o inquérito, coube a Antunes abrir novas empresas, inclusive no exterior, para lavar o dinheiro roubado e organizar os quadros de funcionários dessas companhias. Fora do Brasil, diz o órgão, o filho do Careca do INSS contou com a ajuda da publicitária Danielle Miranda Fonteneles.
O relatório mostra que Fonteneles, uma das fundadoras da agência de publicidade Pepper, recebeu mais de R$ 13 milhões de empresas ligadas ao líder do esquema. Parte desse dinheiro, de acordo com a investigação, foi alocada em Portugal e na Alemanha. Os advogados da publicitária afirmam que o montante foi pago em troca de um apartamento em Trancoso (BA).
Os infiltrados
Adroaldo da Cunha Portal, Secretário-Executivo do Ministério da Previdência Social afastado do cargo hoje e colocado sob monitoração eletrônica, é suspeito de operacionalizar interesses da organização dentro da pasta. O codinome de Portal (Adro), assim como o de Gaspar (Gasparzinho), foi encontrado em planilhas que registram pagamentos de propina.
Outros nomes como Marcos de Brito Campos Júnior, diretor do DNIT e ex-superintendente do INSS, e Heitor Souza Cunha, diretor executivo da Caixa DTVM, também sofreram medidas cautelares por suspeitas de facilitarem as operações do grupo em troca de vantagens. Cunha e Júnior terão de usar tornozeleira eletrônica e estão proibidos de acessar as dependências da Caixa e do DNIT.
Cunha integrava o núcleo político-administrativo da organização criminosa, enquanto Júnior cuidava da estrutura administrativa para manter o fluxo dos descontos fraudulentos. Mensagens mostram que Heitor Cunha tinha muita proximidade com integrantes da rede, a ponto de pedir dinheiro emprestado, e teve diárias pagas pelo esquema no B Hotel, hospedagem mais cara de Brasília.
Diálogos encontrados no celular de Alessandro Antônio Stefanutto, ex-presidente do INSS, e documentos mostram ainda que Júnior viajou de Recife a Salvador em 20 de dezembro de 2022, e retornou dois dias depois, com passagens pagas por empresas usadas para lavar o dinheiro desviado.
Novos horizontes

A decisão de Mendonça também revela que a investigação encontrou indícios de que o esquema do INSS estava expandindo seus tentáculos para órgãos como a Caixa Econômica, a Anvisa e o Ministério da Saúde.
O suposto esquema de fraudes encontrado na Caixa envolve Hélio Marcelino Loreno, Domingos Sávio de Castro e Heitor Souza Cunha. Nos desvios do INSS, Loreno e Cunha integravam os núcleos administrativo e de servidores da organização criminosa, enquanto Castro usava suas empresas para lavar o dinheiro roubado de aposentados e pensionistas.
Na Caixa, diz a autoridade policial, o trio aproveita que Cunha é diretor-executivo da Caixa Distribuição de Títulos e Valores Mobiliários para colocar em prática um esquema similar ao usado no INSS. O relatório não traz muitos detalhes dos crimes, argumentando precisar investigar o caso mais a fundo, mas apresenta como prova das suspeitas uma conversa por mensagem.
Em fevereiro deste ano, Sávio envia a Adelino Rodrigues Junior, investigado por operacionalizar a ocultação e a movimentação de valores por meio de empresas fictícias e ajustes contábeis, um link relacionado ao Clube Caixa e afirma que ele, Cunha e Loreno “são sócios” no “negócio da Caixa”.
Na Anvisa e no Ministério da Saúde, a PF diz ser preciso investigar um esquema de tráfico de influência que favorece o Careca do INSS graças à atuação de Roberta Luchsinger, apontada como “sócia de fato” de Antônio Camilo para atuar na Saúde Pública. De acordo com a PF, Luchsinger tem bom trânsito nos dois órgãos públicos e usava sua empresa, a RL Consultoria e Intermediações Ltda., para lavar R$ 18,2 milhões pertencentes ao líder do esquema.
A Polícia Federal identificou contratos de consultoria para projetos com nomes genéricos que não correspondiam ao ramo de atuação das empresas envolvidas e sem comprovação de que o serviço foi prestado. Os agentes também descobriram cinco repasses de R$ 300 mil recebidos por Luchsinger logo após a assinatura de contratos com empresas ligadas ao esquema do INSS.
Os investigadores afirmam que os intervalos de tempo desses pagamentos são incompatíveis com uma prestação de serviço regular. Ainda segundo a PF, Luchsinger continuou colaborando com o Careca do INSS mesmo após a deflagração da Operação Sem Desconto, em abril de 2025. Mensagens interceptadas mostram ela orientando Antônio Camilo a se desfazer de evidências e como atrapalhar as investigações.
“Antônio, some com esses telefones. Joga Fora”, diz Luchsinger numa das conversas. Noutra, ela alerta Camilo sobre a apreensão de um envelope com o nome de um “amigo” do grupo e sugeriu advogados para a defesa dele.
O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todos os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

