Publicidade
Geopolítica

Delcy Rodríguez anuncia libertação de presos políticos, mas repressão segue ativa na Venezuela

Medida divulgada pelo novo comando ocorre em meio a ações contraditórias e manutenção do controle nas ruas

Delcy Rodríguez reage aos EUA, defende soberania venezuelana e anuncia mudanças no petróleo

Seis dias após a operação dos Estados Unidos que retirou Nicolás Maduro do poder, o governo chefiado por Delcy Rodríguez passou a adotar iniciativas que misturam concessões pontuais e práticas repressivas. O anúncio da libertação de presos por motivação política ocorreu ao mesmo tempo em que forças de segurança continuaram atuando para conter manifestações e celebrações relacionadas à intervenção estrangeira.

Publicidade

A promessa de libertação foi apresentada como sinal de distensão, mas não veio acompanhada de mudanças estruturais. O policiamento ostensivo permaneceu em bairros centrais e periféricos, e decretos recentes ampliaram punições contra atos considerados favoráveis à ação militar americana.

Segundo informações do G1, o presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Rodríguez, irmão de Delcy, afirmou que a decisão de libertar parte dos detidos seria “um gesto para consolidar a paz e a convivência pacífica”. Ele destacou que a iniciativa teria sido tomada de forma unilateral pelo novo governo, sem exigência direta dos Estados Unidos.

Liberação parcial e clima de apreensão

Apesar do anúncio oficial, a execução da medida foi marcada por incertezas. Familiares passaram a madrugada aguardando informações, sem confirmação de nomes ou horários. Ao final, apenas cinco presos deixaram a custódia do Estado, todos com passaporte espanhol.

Entre os libertados estavam o ex-candidato presidencial Enrique Márquez e a advogada de direitos humanos Rocío San Miguel, presa havia quase dois anos sob acusações de conspiração, traição e terrorismo, consideradas infundadas por observadores internacionais.

A condução do processo gerou críticas públicas. “Três da manhã na Venezuela. Uma noite absolutamente dramática com centenas de famílias esperando. No plano político, a não liberação nesta noite, depois de mais de cinco horas desde o anúncio, só deixou de lado a fragilidade do poder do Rodrigato. O que ou quem está impedindo que os presos políticos saiam?”, escreveu o cientista político Luis Peche em suas redes sociais.

Número de detidos segue elevado

Organizações de direitos humanos afirmam que a libertação anunciada representa apenas uma fração do problema. Dados da ONG Foro Penal apontam que 820 pessoas continuam presas por razões políticas, sob acusações variadas. Cerca de cem estariam detidas em El Helicoide, instalação associada a denúncias recorrentes de tortura e administrada pelo Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional.

Mesmo com discursos de abertura, o governo mantém milicianos e grupos paramilitares atuando no patrulhamento urbano. A presença desses agentes reforça a percepção de que o sistema repressivo segue intacto.

Narrativa oficial e limites do poder

Para a população interna, Delcy Rodríguez tenta sustentar a ideia de resistência à intervenção estrangeira que resultou na saída de Maduro e Cília Flores. Em cerimônia que homenageou vítimas da operação militar do dia 3, a presidente interina declarou: “Ninguém aqui se rendeu. Houve uma luta e uma luta por esta pátria. Temos dignidade histórica, compromisso e lealdade ao presidente Maduro, que foi sequestrado”.

Na prática, porém, decisões adotadas pelo governo Trump, como o controle sobre o petróleo venezuelano, reduzem a margem de atuação do novo comando. Ainda assim, a autoridade cotidiana continua sendo assegurada principalmente pela força nas ruas.

Siga O Brasilianista