Desde 28 de dezembro de 2025, protestos iniciados no Grande Bazar de Teerã romperam as fronteiras da capital e se espalharam por todas as 31 províncias do Irã, configurando a maior onda de manifestações desde a Revolução Islâmica de 1979, segundo a BBC News.
De acordo com a Human Rights Activists News Agency (HRANA), até o final do décimo oitavo dia de protestos foram registradas 617 manifestações em 187 cidades, abrangendo todas as províncias do país.
No mesmo período, ao menos 18.470 pessoas foram presas, 2.054 ficaram gravemente feridas e 105 confissões forçadas foram transmitidas pela televisão estatal. 882 mortes permanecem sob investigação.
Em relação às vítimas fatais, o número total de mortes confirmadas chega a 2.615, sendo 2.435 manifestantes, 153 agentes de segurança e apoiadores do governo, além de 14 civis não envolvidos nos protestos; entre os mortos, há 13 crianças menores de 18 anos.
Moharebeh, é um termo que significa “inimizade contra Deus”, e é considerado crime considerado de extrema gravidade e punível com a pena de morte no Irã. O risco não é abstrato.
O caso de Erfan Soltani, de 26 anos, preso durante os protestos em Karaj, expôs como essa acusação vem sendo usada como instrumento de intimidação. Segundo a Hengaw Organization for Human Rights, Soltani foi submetido a um processo judicial acelerado e opaco.
Ele não possui acesso a advogado, nem direito à defesa e sua família é mantida deliberadamente sem informações, tendo inclusive recebido aviso de execução iminente, posteriormente adiada em meio a versões contraditórias do Judiciário iraniano.
Nesse contexto, permanecer calado deixa de ser cautela diplomática para se tornar cumplicidade diante do uso da pena de morte como ferramenta de repressão política. As informações são do portal Estadão.
A falta de reação do Brasil
A atitude brasileira diante do regime teocrático iraniano causa incômodo não apenas pelo que omite, mas também pelo que faz. O governo mantém relações cordiais com Teerã e evita qualquer crítica pública, mesmo diante de violações sistemáticas de direitos humanos.
Esse constrangimento ganhou contornos mais graves quando o vice-presidente Geraldo Alckmin participou da posse do presidente iraniano Masoud Pezeshkian, em julho de 2024.
Segundo a CNN Brasil, imagens da agência Reuters mostram Alckmin a poucos metros de Ismail Haniyeh, então líder político do Hamas, organização classificada como terrorista por diversas democracias ocidentais.
O contraste torna-se ainda mais evidente quando se observa que o Brasil não enviou vice-presidente à posse de Donald Trump. De acordo com o ND+, a representação brasileira seguiu o protocolo tradicional dos Estados Unidos, sendo feita pela embaixadora, Maria Luiza Viotti.
Historicamente, o Brasil construiu sua política externa sobre o multilateralismo, a mediação e a solução pacífica de conflitos. Essa tradição, contudo, jamais significou complacência com regimes autoritários.
Como informado pela Câmara dos Deputados, o Brasil não chegou a romper formalmente as relações diplomáticas com a África do Sul durante o regime do apartheid, mas adotou uma política consistente de afastamento e condenação, aliada a sanções concretas.
O país posicionou-se de forma crítica nas Nações Unidas e impôs restrições rigorosas, como o embargo à venda e ao trânsito de armamentos, formalizado em 1985 pelo Decreto nº 91.524.
Essa postura refletia a compreensão de que princípios normativos, especialmente a defesa dos direitos humanos, deveriam prevalecer mesmo diante de custos diplomáticos.
Argumenta-se que o pragmatismo econômico justificaria essa contenção. Mas, como destaca reportagem do G1, o Irã não é um ator neutro no sistema internacional.
O país financia e apoia grupos armados como o Hamas, o Hezbollah e milícias no Iêmen, desrespeita resoluções internacionais e investe pesadamente em sua capacidade militar, enquanto emprega a repressão interna como método de governo.
Relatores da Organização das Nações Unidas (ONU) já condenaram publicamente as violações cometidas pelo regime iraniano. Em comunicado recente, o alto comissário de direitos humanos alertou para o uso excessivo da força contra manifestantes.
O risco de aplicação da pena de morte por meio de julgamentos acelerados e os impactos do corte nacional de internet sobre a verificação independente dos fatos. Tratar esse Estado como um parceiro comum equivale a normalizar o inaceitável.
Ao se abster, o Brasil abdica de um ativo estratégico essencial: sua autoridade moral. Países de porte médio não exercem influência pela força, mas pela coerência. Quando essa coerência se dissolve, o discurso em defesa da democracia e dos direitos humanos torna-se seletivo e, portanto, frágil.
Não se propõe romper relações diplomáticas. Trata-se de estabelecer fronteiras nítidas. Uma nota de preocupação ou a convocação do embaixador iraniano sinalizaria que o Brasil distingue entre parceiros comerciais e cúmplices de massacre.
O silêncio brasileiro não representa neutralidade estratégica; é decisão política. E decisões políticas têm consequências. Em época de crescente instabilidade mundial, esta é uma omissão de alto custo — que prejudica, mais do que protege, a posição internacional do país.

