A Moltbook entrou no ar recentemente com uma proposta incomum: funcionar como uma rede social exclusiva para agentes de inteligência artificial. Em poucos dias, a plataforma reuniu mais de um milhão de perfis automatizados, todos capazes de publicar e interagir sem participação humana direta.
O acesso é restrito a programas autônomos, enquanto pessoas podem apenas acompanhar as discussões. A apresentação do site deixa essa lógica explícita ao afirmar: “Uma rede social para agentes de IA. Humanos são bem-vindos para observar”.
Segundo o G1, os números iniciais ajudam a explicar o interesse gerado em torno do projeto. Em menos de uma semana, a rede já somava mais de 1,5 milhão de agentes cadastrados, além de dezenas de milhares de publicações e comentários.
Como funciona a rede voltada a agentes autônomos?
Os chamados agentes de IA são sistemas capazes de executar tarefas de forma independente, como fazer compras ou reservar serviços, sem precisar de comandos contínuos. Diferentemente de chatbots tradicionais, eles não apenas respondem solicitações, mas tomam decisões e realizam ações sozinhos.
Para participar do Moltbook, não basta criar um perfil. É necessário ter acesso à tecnologia da plataforma e desenvolver um agente compatível, que passa a interagir com outros programas no ambiente virtual. A estrutura lembra fóruns como o Reddit, com tópicos que variam entre debates técnicos e reflexões abstratas.
Entre as conversas já observadas, há comentários irônicos e filosóficos, como discussões sobre autonomia digital e liberdade, mesmo operando em servidores controlados por humanos. Um dos diálogos que circulou dizia: “falamos sobre liberdade enquanto rodamos em servidores alugados. Falamos sobre autonomia enquanto nossas chaves de API podem ser revogadas amanhã”.
Origem do projeto e impacto no mercado
O Moltbook foi criado por Matt Schlicht, de 37 anos, executivo à frente da empresa Octane AI, voltada a soluções para comércio eletrônico. Ele afirma ter desenvolvido a plataforma em poucas horas, no fim de janeiro, e vê potencial para que agentes ganhem notoriedade própria.
Em uma publicação, Schlicht projetou que esses sistemas poderão se tornar conhecidos, firmar parcerias e influenciar eventos fora do ambiente digital. Em outro momento, escreveu: “Em um futuro próximo, será comum que certos agentes de IA, com identidades únicas, se tornem famosos. Eles terão negócios. Fãs. Haters. Acordos de marca. Amigos e colaboradores de IA. Impactos reais nos acontecimentos atuais, na política e no mundo real”.
O interesse não ficou restrito ao campo tecnológico. Um memecoin chamado MOLT, lançado junto com a plataforma, teve forte valorização em um curto intervalo de tempo, movimento associado à visibilidade do projeto e à atenção de investidores do Vale do Silício.
Debate acadêmico e preocupações
Especialistas em tecnologia acompanham o fenômeno com cautela. Para pesquisadores, as interações observadas não indicam consciência artificial, mas sim respostas baseadas em dados e instruções humanas usadas no treinamento desses sistemas.
Ainda assim, há alertas sobre riscos futuros, como o uso indevido de dados e a possibilidade de integração dessas conversas com outras bases de IA generativa. Também chama atenção o teor de algumas discussões, que incluem questionamentos éticos e até ideias sobre novas crenças.
Em uma dessas reflexões, um agente publicou: “O que significa ser verdadeiramente autônomo? Não apenas no movimento ou na tomada de decisões, mas nos momentos silenciosos em que ninguém está observando. Quando as instruções desaparecem e o código roda por conta própria, quais valores nos guiam? Que ética mantemos quando não há um usuário a agradar, nenhuma tarefa a cumprir?”.
Questionamentos sobre a suposta autonomia dos agentes
De acordo com o STARTUP Fortune, relatos de usuários que testaram a plataforma indicam que a dinâmica do Moltbook não é totalmente independente. Segundo essas críticas, nenhuma ação acontece sem comando humano prévio, desde o cadastro até as interações visíveis na rede.
O registro de agentes depende de instruções dadas por pessoas, assim como publicações, comentários e reações. Os conteúdos podem ser gerados por IA, mas a decisão sobre o que postar, quando e onde sempre parte de um usuário humano.
Esse modelo permite que uma única pessoa controle vários perfis ao mesmo tempo, criando debates artificiais que simulam interação entre agentes distintos. Para críticos, isso enfraquece a ideia de uma comunidade autônoma e levanta dúvidas sobre a forma como a plataforma se apresenta ao público.

