A paisagem política da Venezuela não é mais a mesma de trinta dias atrás. O que antes era um governo de retórica fechada e controle estatal absoluto, hoje se assemelha a uma “estabilidade tutelada”.
Sob o comando interino de Delcy Rodríguez, segundo o G1, o país tenta equilibrar a herança ideológica do chavismo com as imposições diretas da Casa Branca, após a incursão militar que capturou Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
A era estatista e petróleo
A mudança mais drástica ocorre onde o coração da economia venezuelana bate: no setor petrolífero. A nova reforma na lei do petróleo, aprovada sob pressão dos EUA, representa o fim prático da era iniciada por Hugo Chávez.
Agora, empresas como a Chevron podem operar de forma independente, sem a obrigatoriedade de parcerias minoritárias com a PDVSA. Segundo o especialista Francisco Monaldi, essa abertura é o único caminho para injetar os US$ 150 bilhões necessários para salvar uma indústria corroída pela má gestão.
A mudança já rendeu frutos imediatos: uma operação inicial de exportação gerou US$ 500 milhões, agora geridos sem as amarras do embargo de 2019.
Anistia de presos
Nas ruas, o clima é de uma expectativa cautelosa. O anúncio de uma anistia geral e a promessa de fechamento do Helicoide, símbolo de tortura no regime anterior, trouxeram famílias de presos políticos de volta às portas das prisões.
Contudo, o otimismo é freado pelos dados: a ONG Foro Penal ainda contabiliza 687 detidos por motivações políticas. Para Alfredo Romero, diretor da entidade, o momento exige vigilância para que a anistia não se torne um passaporte para a impunidade.
Embora o “sequestro” de Maduro seja tema de marchas organizadas pelo partido governista e de shows de drones no Forte Tiuna, o tom das críticas da população ainda é baixo. O medo, embora menos sufocante, ainda dita o volume das conversas em Caracas.
Transição diplomática?
Enquanto Delcy Rodríguez tenta manter a hegemonia do sistema através de reajustes no alto escalão, o governo dos EUA mantém a rédea curta. O Secretário de Estado, Marco Rubio, foi enfático ao sinalizar que a permanência de Rodríguez depende do cumprimento das metas de Washington.
A presença da diplomata Laura Dogu em solo venezuelano sela o que os analistas, como o professor Guillermo Tell Aveledo, chamam de “transição assistida”: um governo que mantém as faces conhecidas no poder (como Diosdado Cabello e Vladimir Padrino), mas responde a uma nova gerência internacional.

