Um relatório recente do Comitê Seleto da Câmara dos Estados Unidos (EUA) mostra a presença espacial da China na América do Sul que não se limita à cooperação científica. Segundo o documento, Pequim estaria estruturando uma rede integrada de infraestrutura espacial na região com potencial aplicação militar, reforçando sua capacidade de vigilância global, coleta de inteligência e eventual vantagem em cenários de conflito.
O estudo analisa a atuação da República Popular da China no continente onde também cita a América do Sul, incluindo Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia e Chile, e conclui que as instalações operam dentro de uma lógica de “uso dual”, ou seja, combinam objetivos civis com possíveis aplicações militares vinculadas ao Exército de Libertação Popular (PLA).
Essa movimentação faz parte da “Rota da Seda Espacial”, uma extensão tecnológica da iniciativa Belt and Road. Amparada por diretrizes de “Fusão Militar-Civil”, a estratégia permite que Pequim mobilize recursos de empresas privadas e centros de pesquisa para finalidades de defesa nacional, conforme estabelecido nos Livros Brancos do Programa Espacial de 2016 e 2021.
Cone Sul e Brasil
A geografia da América do Sul é o trunfo da China, segundo o documento. Para garantir o controle e a comunicação ininterrupta com seus satélites, Pequim necessita de estações em diferentes longitudes e no Hemisfério Ocidental. Sem essa capilaridade sul-americana, o comando de suas operações espaciais ficaria restrito ao território doméstico, limitando sua projeção de poder global.
A evolução dessa parceria ficou clara em 2025, quando a cooperação espacial foi colocada como pilar fundamental das relações bilaterais no Fórum China-CELAC. O bloco agora serve como palco para a integração de sistemas como o Beidou (concorrente do GPS) e projetos de exploração lunar.
Mapeamento na região
O relatório contabiliza pelo menos onze pontos de apoio técnico na região, que incluem radares de rastreamento e radiotelescópios de alta precisão.
- Argentina: a base de Neuquén (Espacio Lejano), contrato de 50 anos com isenção fiscal e controle exclusivo chinês. As antenas de 35 metros têm potencial para monitorar satélites e interceptar comunicações. Além disso, o Observatório Félix Aguilar utiliza lasers que, embora astronômicos, fornecem dados balísticos cruciais para mísseis de longo alcance.
- Venezuela e Bolívia: nas estações de El Sombrero, Luepa, La Guardia e Amachuma, a tecnologia chinesa opera satélites locais. Contudo, o compartilhamento de tempo de antena com técnicos de Pequim sugere uma extensão da rede de monitoramento do governo chinês.
- Chile: no Atacama, o foco reside no processamento de dados massivos. Em 2025, o governo chileno chegou a suspender projetos por receio de que a inteligência artificial ali aplicada estivesse servindo à espionagem de sinais.
O Brasil
No Brasil, a influência chinesa está inserida por meio de projetos que mesclam o setor privado e instituições de ensino que levantam discussões sobre autonomia e segurança de dados.
- Estação de Tucano: a parceria entre a startup Ayla Nanosatellites e a Beijing Tianlian Space Technology, vinculada à estatal aeroespacial da China, prevê o intercâmbio de dados orbitais.
O que preocupa os analistas americanos é o memorando da Ayla com o Departamento de Ciência e Tecnologia da FAB, que poderia abrir portas para uma influência doutrinária chinesa dentro da estrutura militar brasileira.
- Laboratório de Radioastronomia (BINGO): localizado na Paraíba (Serra do Urubu), o projeto foca em cosmologia, mas utiliza algoritmos de ponta para filtrar interferências. Para o relatório, essa mesma tecnologia é perfeitamente adaptável para identificar e classificar frequências de rádio militares.
Ameaça aos Estados Unidos?
O relatório aponta preocupação dos EUA em alguns pontos. A presença de estações terrestres na América do Sul permite à China manter contato contínuo com satélites ao longo de toda a órbita terrestre. Como esses equipamentos só funcionam quando há “linha de visada”, a dispersão geográfica aumenta o alcance operacional.
Para os EUA, isso significa que Pequim pode monitorar satélites americanos com maior precisão, inclusive aqueles posicionados sobre o hemisfério ocidental. Outro ponto é que dados coletados por estações estrangeiras poderiam contribuir para:
- Atualizações de trajetória de mísseis balísticos
- Aperfeiçoamento de veículos hipersônicos
- Rastreamento de alvos móveis
- Redução de incertezas em sistemas de ataque de longo alcance
A lógica apresentada é que uma rede de sensores e antenas espalhada pelo continente poderia fornecer dados críticos durante o voo de armamentos estratégicos.
O relatório observa que muitas das instalações operam em bandas de frequência (S, X e Ka) semelhantes às utilizadas por sistemas militares dos EUA.
Na avaliação do Comitê, antenas de grande porte instaladas na região poderiam interceptar sinais, mapear padrões de transmissão e identificar movimentos de navios e aeronaves por meio de cálculo de diferença de tempo e frequência de chegada dos sinais.
Outro ponto sensível para Washington é a crescente integração de países latino-americanos à arquitetura tecnológica chinesa, incluindo participação no sistema de navegação Beidou e em projetos lunares. O documento sugere que essa integração cria dependência de longo prazo e aproxima governos da órbita estratégica de Pequim.
Estratégia norte-americana
A avaliação norte americana indica que o espaço deixou de ser apenas um campo de exploração científica e tornou-se componente central da competição estratégica entre potências.
Para os Estados Unidos, a presença chinesa na América do Sul não representa apenas diplomacia tecnológica, mas a consolidação de uma arquitetura capaz de sustentar operações militares globais.
A resposta defendida pelo relatório combina revisão legal, pressão diplomática e oferta de alternativas tecnológicas, numa tentativa de preservar a influência norte-americana no hemisfério e limitar o avanço estratégico de Pequim.
O relatório propõe um conjunto de medidas para conter a expansão chinesa no hemisfério ocidental. O texto recomenda que a NASA revise acordos com países que hospedam infraestrutura ligada à China, verificando se há risco de violação da chamada Emenda Wolf, que restringe cooperação bilateral direta com Pequim.
O documento sugere que o Congresso norte americano deve fechar brechas legais que permitam a cooperação indireta com a China por meio de arranjos multilaterais.
Além disso, pede para as agências americanas serem orientadas a reavaliar acordos de defesa e tecnologia com países que hospedam instalações chinesas, exigindo salvaguardas que impeçam coleta ou transmissão de dados sensíveis.

