A sete meses das eleições presidenciais de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas estão empatados tecnicamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) num eventual segundo turno.
Os dados são da pesquisa de março do instituto Ideia em parceria com o portal Meio, que também mediu percepções dos eleitores sobre instituições, como o Supremo Tribunal Federal, e temas políticos recentes que influenciam o debate público.
Na intenção de voto espontânea, quando o entrevistado responde sem receber uma lista de candidatos, Lula aparece com 33,4% das menções, enquanto Flávio Bolsonaro registra 18,5%. O resultado mostra que ambos já estão consolidados como os principais polos da disputa eleitoral.
No segundo turno, Lula teria 47% das intenções de voto contra 45% de Flávio. Já em um teste contra Tarcísio, o petista apresenta 46% e o governador de São Paulo 45%.
Segundo a CEO do Ideia, Cila Schulman, os números mostram que a disputa tende a se concentrar nesses dois nomes. Apesar da vantagem do presidente no voto espontâneo, ambos enfrentam limites de crescimento. De acordo com a análise da executiva, os dois candidatos apresentam rejeição estimulada superior a 40%, chegando a 46%, o que cria um cenário de teto eleitoral para ambos.
O que esse cenário representa?
O colunista do O Brasilianista, Cristiano Noronha, considera que o governo vive um dos momentos mais delicados desde o início do mandato. Para ele, o Palácio do Planalto tem enfrentado dificuldades para apresentar uma agenda positiva capaz de recuperar apoio popular.
Noronha também destaca que o governo apostou em medidas de forte apelo eleitoral como o auxílio-gás e a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês na tentativa de melhorar sua popularidade. No entanto, segundo ele, as pesquisas indicam o movimento contrário: perda de prestígio junto ao eleitorado.
Mesmo iniciativas políticas recentes, como a tentativa de avançar no Congresso com o debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 e projetos ligados à segurança pública, não foram suficientes para mudar o cenário. Entre essas medidas está o projeto contra o crime organizado, conhecido como Antifacção, além do avanço da chamada PEC da Segurança Pública.
Para o colunista, episódios recentes também contribuíram para o desgaste do governo. Um deles foi a repercussão da homenagem ao presidente durante o Carnaval do Rio de Janeiro, que incluiu críticas ao segmento evangélico e gerou reação negativa em parte do eleitorado.
Outros potenciais fatores
Outro ponto que pode gerar desgaste político é a decisão da CPMI do INSS de quebrar os sigilos bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente. Apesar do momento desfavorável, Noronha ressalta que o governo ainda tem tempo para tentar reverter o quadro. Com sete meses até a eleição e controle da máquina pública, avalia o analista, o Planalto dispõe de instrumentos políticos e administrativos para reagir.
Enquanto isso, o senador Flávio Bolsonaro atravessa uma fase de fortalecimento político. Segundo Noronha, ele conseguiu se consolidar como principal nome do campo bolsonarista na disputa presidencial, reduzindo a pressão para que fosse substituído pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A articulação para montar palanques estaduais competitivos também contribui para o momento favorável do senador. Ainda que críticas feitas por seus irmãos, Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro, tenham provocado ruídos com aliados, Noronha avalia que esses episódios não geraram, até agora, prejuízo eleitoral significativo.
Crise institucional
A pesquisa também investigou a percepção da população sobre temas institucionais. Um dos pontos analisados foi o chamado caso Master, episódio envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal. O levantamento indica que menos da metade dos brasileiros afirma ter ouvido falar do caso. Entre os que dizem conhecer o episódio, a maior parte associa o escândalo ao próprio STF.
Entre os entrevistados que relacionam o escândalo ao Supremo, o impacto político também aparece na disputa legislativa. Cerca de 75% afirmam que aumentaria a chance de votar em um candidato ao Senado que prometesse apoiar o impeachment de algum ministro do STF.
Outro dado relevante do levantamento diz respeito ao debate sobre a tentativa de golpe após as eleições de 2022. Mais da metade dos brasileiros afirma não acreditar que tenha havido uma tentativa de golpe de Estado, mostrando divisão na percepção pública sobre o episódio.
Disputa acirrada?
Na avaliação de Noronha, o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e as dificuldades enfrentadas pelo governo indicam que a disputa presidencial tende a se intensificar nos próximos meses. Segundo ele, o confronto entre os dois campos políticos deve antecipar o clima eleitoral no país.
Apesar do cenário adverso para o governo, Noronha considera pouco provável uma mudança de candidato no campo governista. No ano passado, lembra ele, circularam especulações de que Lula poderia desistir da reeleição por causa da idade ou de questões de saúde. Ainda assim, o analista avalia que a possibilidade de substituição permanece pequena.

