O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, votou pelo referendo integral da decisão que decretou a prisão preventiva de Daniel Bueno Vorcaro, principal controlador do Banco Master, e de outros três investigados na terceira fase da Operação Compliance Zero. O voto, proferido em 13 de março, responde ao agravo regimental interposto pela defesa de Vorcaro e consolida o quadro fático que sustenta as medidas cautelares.
Os Quatro Presos
O decreto prisional alcança:
- Daniel Bueno Vorcaro — controlador do Banco Master e líder da organização criminosa
- Fabiano Campos Zettel — cunhado de Vorcaro e operador financeiro do grupo
- Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão — o “Sicário”, coordenador operacional da milícia privada (faleceu após a decisão, extinguindo os efeitos em relação a ele)
- Marilson Roseno da Silva — policial federal aposentado, integrante do núcleo de coerção
“A Turma”: A Milícia Privada de Vorcaro
O elemento mais grave revelado pela investigação é a existência de uma organização paramilitar informal denominada “A Turma”, comandada por Vorcaro e operada por Mourão. Segundo a Polícia Federal, o grupo:
- Recebia R$ 1 milhão por mês para executar serviços ilícitos, pagos via empresa de fachada (King Empreendimentos)
- Praticava ameaças de morte a ex-funcionários, descrita por uma das vítimas como ação de “7 milicianos”
- Possuía arsenal ilegal — na prisão de Mourão foi encontrada pistola calibre .380 sem registro; Marilson Roseno tinha quatro armas, incluindo pistola Glock e espingarda
- Monitorava jornalistas, concorrentes e ex-empregados de Vorcaro
- Invadiu sistemas restritos da Polícia Federal, do MPF e até do FBI e da Interpol
As mensagens de WhatsApp apreendidas são devastadoras. Em uma delas, Vorcaro ordena sobre um jornalista: “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto.” Em outra, ao saber que uma funcionária o ameaçava, escreve: “Tem que moer essa vagabunda.”
A Corrupção no Banco Central
A investigação identificou que dois altos servidores do Departamento de Supervisão Bancária (DESUP) do Banco Central atuavam como consultores informais remunerados de Vorcaro:
- Paulo Sérgio Neves de Souza (Chefe-Adjunto do DESUP) — orientava Vorcaro sobre como se comportar em reuniões com o presidente do Bacen, revisava minutas de ofícios que o próprio Master enviaria ao regulador e alertava previamente sobre movimentações identificadas pelos sistemas de monitoramento da autarquia
- Belline Santana (Chefe do DESUP) — participava de reuniões privadas com Vorcaro fora do Bacen, revisava documentos institucionais e integrava grupo de WhatsApp criado para facilitar a comunicação com o banqueiro
Os pagamentos eram ocultados por meio de contratos fictícios de consultoria via empresa Varajo Consultoria, com intermediação de Leonardo Palhares e operacionalização financeira de Ana Claudia Queiroz de Paiva.
Os Crimes Apurados
O voto lista indícios de ao menos quatro categorias de crimes:
- Contra o sistema financeiro — gestão fraudulenta, indução de investidores em erro, negociação irregular de valores mobiliários
- Contra a administração pública — corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional
Organização criminosa e lavagem de dinheiro - Contra a administração da justiça — coação no curso do processo, fraude processual, denunciação caluniosa
O rombo deixado pelo Banco Master no mercado financeiro é estimado em cerca de R$ 40 bilhões, cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito.
Os Bilhões Escondidos e a Dilapidação Patrimonial
Mendonça rebateu o argumento da defesa de que não existiria conta bilionária em nome do pai de Vorcaro. O voto comprova, via extrato do sistema SISBAJUD, o bloqueio de R$ 2,245 bilhões depositados em conta de Henrique Moura Vorcaro junto à REAG (CBSF DTVM) — realizado na segunda fase da operação, em janeiro de 2026.
Além disso, o ministro destacou tentativa de alienação de aeronave avaliada em R$ 538 milhões sendo ofertada por US$ 80 milhões, com deságio superior a R$ 100 milhões, como indício concreto de dilapidação patrimonial.
O “Projeto DV”: Guerra de Narrativa
Mesmo após ser solto em novembro de 2025, Vorcaro teria colocado em prática o chamado “Projeto DV”: contratação de influenciadores digitais — por valores de até R$ 2 milhões cada — para publicar conteúdo favorável a ele e atacar a atuação do Banco Central, com cláusulas de confidencialidade e coordenação estratégica de postagens. O projeto é objeto de investigação separada no Inquérito 5.035.
Medidas Cautelares para os Demais
Além das prisões, o ministro impôs medidas diversas para outros quatro investigados — Paulo Sérgio, Belline Santana, Leonardo Palhares e Ana Claudia —, incluindo proibição de contato entre si, suspensão das funções públicas, proibição de deixar o país, entrega de passaportes e uso de tornozeleira eletrônica.
Cinco empresas tiveram suas atividades suspensas por tempo indeterminado: Varajo Consultoria, Moriah Asset, Super Empreendimentos, King Participações Imobiliárias e King Motors.
O Argumento Central de Mendonça
O ministro rejeitou todos os quatro argumentos da defesa — sobre a data das mensagens, a natureza de “A Turma”, os fluxos financeiros e o bloqueio bilionário — e sustentou que o conjunto probatório não apenas justifica como reforça a prisão preventiva. Para ele, o crime de organização criminosa é permanente, a organização conta com membros ainda não identificados e em liberdade, e as atividades ilícitas não cessaram nem após as operações anteriores.
Com oito celulares de Vorcaro ainda por peritar, o ministro concluiu que aguardar o encerramento de todas as diligências significaria permitir a concretização de lesões irreparáveis à integridade física de pessoas e ao sistema financeiro nacional.

