A disparada do preço do diesel, impulsionada pela escalada de tensões no Oriente Médio, voltou a acender o alerta em Brasília e no setor logístico. Nos bastidores do transporte rodoviário de cargas, lideranças de caminhoneiros já articulam uma possível greve nacional da categoria nos próximos dias, em um movimento que começa a ganhar força em diferentes regiões do país.
A mobilização ganhou tração após uma reunião realizada em Santos (SP) na última segunda-feira (16), que reuniu representantes de sindicatos, associações e cooperativas do setor. Embora a paralisação ainda não esteja oficialmente confirmada, as conversas avançam no sentido de coordenar ações simultâneas em diversos portos brasileiros.
Segundo relatos de lideranças ouvidas pela reportagem, está sendo organizada uma nova reunião em Santos com federações e representantes da categoria para definir os próximos passos. Nos bastidores, a avaliação é que há apoio majoritário à paralisação, caso não haja sinalização concreta de medidas por parte do governo.
No Porto de Santos
Um dos articuladores do movimento no Porto de Santos, conhecido entre os caminhoneiros como Marcelinho, afirmou que as lideranças estão alinhando os detalhes de uma mobilização nacional. A previsão discutida entre os organizadores é iniciar manifestações a partir das 15h desta quarta-feira, embora também exista a possibilidade de que o movimento comece apenas na quinta-feira, dependendo do grau de adesão em outros pontos do país.
Segundo ele, a estratégia é repetir um modelo de coordenação nacional, com ações simultâneas em diferentes portos e polos logísticos. Entre os caminhoneiros, o clima atual é frequentemente comparado ao cenário que antecedeu a grande paralisação de 2018, que provocou forte impacto na economia brasileira.
Marcelinho afirma que um dos principais focos de insatisfação está na forma como os custos do transporte são distribuídos ao longo da cadeia logística. Na avaliação dele, o aumento do diesel acaba sendo absorvido principalmente pelos caminhoneiros autônomos, enquanto outros elos da cadeia mantêm suas margens.
Pleitos
Entre as reivindicações da categoria estão o cumprimento efetivo do piso mínimo do frete e garantias para o pagamento adequado do vale-pedágio. Também está em discussão a possibilidade de levar as demandas diretamente a Brasília ainda nesta semana, inclusive com a tentativa de abrir um canal de diálogo com o presidente Lula (PT).
Segundo Marcelinho, embora a paralisação de 2018 tenha produzido avanços, boa parte das medidas estruturais prometidas à categoria não se consolidou plenamente.
Nas rodovias
Outra liderança ouvida pela reportagem, conhecida como Chorão, afirma que as conversas com entidades representativas do setor têm se intensificado nos últimos dias. De acordo com ele, uma reunião ampliada com federações e lideranças regionais está sendo organizada em Santos para consolidar o posicionamento da categoria.
Na avaliação de Chorão, o preço atual do combustível nas bombas tornou a atividade economicamente insustentável para muitos caminhoneiros, aumentando a pressão interna por uma paralisação caso não haja respostas concretas.
Medidas
Ele também critica a falta de fiscalização do cumprimento da Lei 13.703, que estabelece a política de preços mínimos para o transporte rodoviário de cargas. Segundo a liderança, algumas empresas continuam pagando valores abaixo do piso estabelecido, o que distorce o mercado e prejudica especialmente os motoristas autônomos.
Outro ponto citado é a ausência de um sistema eficaz de travamento eletrônico do valor do frete, mecanismo que impediria alterações ou descontos indevidos nos pagamentos. Para Chorão, o governo deveria convocar a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para regulamentar de forma clara essa ferramenta.
Na avaliação das lideranças, o caminhoneiro autônomo segue sendo o elo mais vulnerável da cadeia logística, absorvendo grande parte das perdas provocadas pelo aumento de custos.
Chorão também defende medidas adicionais de alívio, como a isenção de pedágio para caminhões vazios e um reequilíbrio nos contratos das concessionárias de rodovias. Segundo ele, caso as reivindicações não avancem, a adesão nacional à paralisação tende a crescer rapidamente.

