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Política

Especialistas explicam como o tarifaço dos EUA deve entrar na disputa presidencial de 2026

Sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros tende a ampliar o debate sobre soberania

Especialistas explicam como o tarifaço dos EUA deve entrar na disputa presidencial de 2026

A decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras deve ultrapassar os efeitos econômicos e ocupar espaço central na disputa presidencial de 2026.

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Além dos impactos para empresas exportadoras, o episódio abre espaço para que diferentes grupos políticos disputem a narrativa sobre quem seria responsável pelo agravamento das relações entre Brasília e Washington e qual seria a melhor estratégia para proteger os interesses brasileiros.

Disputa de narrativas deve dominar o debate

O Brasilianista mostrou que o governo brasileiro prometeu reagir ao anúncio da tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos, enquanto autoridades americanas justificaram a medida com base em investigações conduzidas pela Seção 301 da Lei de Comércio.

O episódio ocorre em um momento de aproximação do calendário eleitoral e amplia o espaço para embates políticos sobre política externa.

Para o cientista político Gustavo Ribeiro, o tema deve ser incorporado de maneiras bastante distintas pelos principais grupos que disputarão a Presidência.

“A campanha do Flávio Bolsonaro vai falar que isso é culpa do Lula, que o Lula não negociou da forma como deveria com os Estados Unidos. E o governo Lula vai falar que isso é culpa do Flávio, que botou os interesses da família à frente dos interesses do Brasil e que trouxe essas tarifas como forma de pressionar o Brasil por conta das questões do pai”, analisa.

Na avaliação do especialista, candidatos que buscam ocupar um espaço mais moderado deverão tentar construir uma narrativa intermediária, responsabilizando tanto o governo quanto setores da oposição pela deterioração da relação bilateral.

Ribeiro observa que esse posicionamento pode ser utilizado principalmente por nomes que pretendem atrair eleitores insatisfeitos com a polarização política e que buscam apresentar uma alternativa de maior capacidade de negociação internacional.

Política externa ganha espaço na campanha

O Brasilianista destacou que as negociações entre os dois países envolveram discussões sobre Pix, propriedade intelectual, comércio digital, etanol e regras ambientais, além de tentativas de negociação conduzidas pelo governo brasileiro antes da confirmação das novas tarifas.

O cientista político Vinícius Guilherme Rodrigues Vieira, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pesquisador associado do Centro de Estudos das Negociações Internacionais da USP (CAENI), avalia que o governo federal deverá explorar o tema sob a perspectiva da defesa da soberania nacional.

“Bem, como visto ontem, o Lula vai insistir na tecla da soberania, principalmente na questão que os Estados Unidos queriam, e de fato tudo indica que eles queriam que nós cedêssemos no PIX, quando Flávio Bolsonaro vai tentar jogar no colo de Lula o fato de que não houve uma negociação, encampando a narrativa do governo americano”, explica.

Vieira considera que a política externa, tradicionalmente restrita ao debate diplomático, tende a ocupar um espaço muito maior na campanha presidencial por causa dos possíveis efeitos econômicos da decisão americana sobre empresas, empregos e preços.

Segundo o pesquisador, temas internacionais passam a despertar maior interesse do eleitor quando deixam de produzir impactos apenas institucionais e começam a afetar diretamente o cotidiano da população.

Efeitos econômicos podem influenciar o comportamento do eleitor

Parte significativa dos produtos brasileiros ficou fora da nova tarifa, incluindo café, carnes, minerais estratégicos e componentes ligados ao setor aeronáutico.

As exceções foram desenhadas pelo governo americano para preservar cadeias consideradas estratégicas.

Vieira destaca que essas isenções podem reduzir os efeitos políticos do tarifaço em regiões importantes para a disputa presidencial.

“Acredito que o impacto será muito localizado e tem muitas exceções que não existiam no primeiro tarifaço. Eu prestaria muita atenção nas exceções para a economia de Minas, porque Minas é o ponto de equilíbrio do Brasil, onde as eleições presidenciais são decididas”, observa.

Na avaliação do especialista, a percepção do eleitor dependerá menos do anúncio da tarifa e mais dos reflexos concretos sobre renda, emprego e atividade econômica em estados estratégicos.

Caso parte importante da população não perceba perdas econômicas relevantes, a tentativa de transformar o tarifaço em um dos principais temas eleitorais poderá encontrar mais dificuldades.

Centro-direita pode buscar um discurso intermediário

Os cientistas políticos avaliam que pré-candidatos que não integram diretamente os campos liderados por Lula e Flávio Bolsonaro deverão explorar um caminho diferente durante a campanha.

Vieira acredita que nomes ligados ao centro e à centro-direita procurarão criticar simultaneamente a condução diplomática do governo federal e a atuação de setores da oposição envolvidos nas negociações com autoridades americanas.

“O Caiado, Zema e Renan Santos vão tentar ficar em cima do muro. Vão falar que o Lula não negociou direito, que Flávio Bolsonaro provocou o tarifaço, que eles teriam mais competência para negociar com o governo americano sem sacrificar o PIX”, avalia.

Essa estratégia, segundo o pesquisador, busca atrair eleitores que rejeitam tanto a atual administração quanto a ala mais alinhada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, apresentando uma alternativa baseada em capacidade de negociação internacional.

Ao mesmo tempo, a disputa tende a incorporar temas ligados à segurança pública, economia e política externa em um mesmo discurso eleitoral, especialmente entre candidatos que tentam ampliar seu alcance junto ao eleitorado conservador.

Debate pode ir além da economia

Para Vieira, a crise comercial marca um momento diferente na história recente do país porque aproxima assuntos internacionais do cotidiano do eleitor brasileiro.

“Crises diplomáticas, no passado, eram mais um assunto de Estado, de alto nível. A grande questão é que o tarifaço afeta o dia a dia do eleitor, principalmente com aumento de preços e eventualmente perda de postos de trabalho”, contextualiza.

Na avaliação do pesquisador, a forma como o eleitor interpretará a pressão exercida pelos Estados Unidos poderá influenciar diretamente a campanha presidencial, sobretudo em estados considerados decisivos para o resultado da eleição.

O especialista acrescenta que a evolução das negociações entre Brasília e Washington, bem como os efeitos econômicos da medida sobre empresas e consumidores brasileiros, deverá continuar acompanhada de perto pelos partidos ao longo dos próximos meses, tornando o tarifaço um dos principais temas da corrida ao Palácio do Planalto.

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