A confiança dos brasileiros no Supremo Tribunal Federal atingiu o nível mais baixo já registrado, conforme aponta uma nova pesquisa da AtlasIntel. O levantamento indica que a maioria da população declara não confiar na Corte, em um cenário marcado por suspeitas envolvendo ministros e o caso do Banco Master.
Os dados mostram que 60% dos entrevistados afirmam não confiar no STF, enquanto 34% dizem confiar. Uma parcela menor não soube opinar. O resultado evidencia uma deterioração significativa da imagem do tribunal nos últimos anos, com aumento consistente da percepção negativa.
De acordo com o InfoMoney, esse é o pior índice da série histórica iniciada em 2023, quando confiança e desconfiança estavam praticamente empatadas. Desde então, a avaliação negativa cresceu de forma contínua, ampliando a distância entre os dois grupos.
Cresce percepção de interferência e ligação com o caso Master
O avanço da desconfiança ocorre em paralelo ao aumento de questionamentos sobre a atuação da Corte em investigações sensíveis. O caso do Banco Master aparece como um dos principais fatores de desgaste, especialmente pelas suspeitas envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e possíveis relações com integrantes do tribunal.
Segundo o Broadcast, 66,1% dos entrevistados acreditam que há envolvimento direto de ministros do STF no episódio. Esse percentual supera tanto os que descartam essa hipótese quanto os que não têm opinião formada sobre o tema.
A percepção de influência externa também é elevada. Para 76,9% dos participantes, há forte interferência de políticos, partidos ou grupos de poder nos julgamentos. Apenas uma pequena parcela acredita que as decisões são tomadas de forma técnica e imparcial.
Além disso, 53% dos entrevistados consideram que o processo de liquidação do Banco Master não deveria ser analisado pelo Supremo, reforçando a crítica à atuação da Corte nesse tipo de investigação.
Avaliação negativa atinge ministros e reflete polarização
O levantamento também aponta desgaste individual entre membros do tribunal. O ministro Dias Toffoli aparece como o mais mal avaliado, seguido por Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.
Ainda segundo o InfoMoney, 81% dos entrevistados têm uma visão negativa de Toffoli, e quase metade defende seu impeachment em meio às suspeitas relacionadas ao caso investigado. O cenário reforça a percepção de falta de imparcialidade entre os magistrados.
No geral, 59,5% dos brasileiros avaliam que a maioria dos ministros não demonstra competência e neutralidade, enquanto cerca de um terço considera o desempenho positivo.
Os dados também evidenciam forte influência do posicionamento político. Entre eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro, a rejeição ao STF é quase total. Já entre os eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a confiança ainda é maior, embora tenha apresentado queda significativa nos últimos meses.
Especialistas relacionam crise à atuação do tribunal
Para especialistas em direito constitucional, a perda de confiança está diretamente ligada à percepção de parcialidade e ao protagonismo do Supremo em temas políticos.
“A autoridade dos tribunais está ligada a três elementos fundamentais: independência, imparcialidade e capacidade de decidir com objetividade. Quando você questiona um dos pilares da autoridade do Supremo, que é a sua imparcialidade, ou seja, sua equidistância em relação às partes, evidentemente isso afeta a confiança”, disse o professor Oscar Vilhena, da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Na mesma linha, o professor Wallace Corbo aponta que a associação do tribunal ao ambiente político contribui para o desgaste. “A população espera de um tribunal que ele não seja visto como uma parte integrante da política. Então, as pessoas tendem a dar menos apoio para um tribunal cujos integrantes não veem mais como juízes, mas como políticos”, afirmou.
Código de ética surge como tentativa de resposta
Diante da crise, propostas para recuperar a credibilidade ganham espaço dentro e fora do tribunal. Entre elas, está a criação de um código de ética para os ministros do STF.
A iniciativa tem apoio relevante da população. Mais da metade dos entrevistados considera a medida essencial e prioritária para restaurar a confiança pública. Outros avaliam que a proposta é importante, embora não deva ser a principal ação no momento.

