A escalada militar no Oriente Médio passou a ameaçar diretamente a base da produção de energia mundial e já provoca alerta entre economistas e governos. Após ataques envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, o foco deixou de ser apenas o bloqueio de rotas estratégicas e passou a incluir danos a instalações essenciais de gás natural, com potencial de impacto prolongado na economia global.
Segundo o The New York Times, a mudança de cenário elevou o nível de preocupação internacional. Antes, o principal temor era o fechamento do Estreito de Ormuz, rota crucial para o transporte de petróleo. Agora, o risco mais grave envolve a destruição de infraestrutura energética, o que pode comprometer o abastecimento por anos.
A nova fase do conflito começou com um ataque iraniano ao complexo de Ras Laffan, no Catar, responsável por cerca de um quinto da produção mundial de gás natural liquefeito. Esse tipo de combustível é amplamente utilizado para aquecimento, geração de energia e atividades industriais em diversos países da Ásia e da Europa.
A situação ganhou ainda mais gravidade com novos ataques a refinarias e instalações energéticas em países como Kuwait, Catar e Arábia Saudita. Essas ações ocorreram após uma ofensiva israelense contra o campo de gás South Pars, no território iraniano.
Infraestrutura energética entra no centro do conflito
A mudança no foco das ações militares indica um impacto mais profundo e duradouro. “Passamos de interromper o trânsito, que é uma medida temporária, para atacar infraestrutura, que tem efeitos de longo prazo,” afirmou David Goldwyn, ex-diplomata dos Estados Unidos.
Autoridades ainda avaliam a extensão dos danos, mas já há projeções preocupantes. O ministro de Energia do Catar informou que a recuperação pode levar até cinco anos, com redução de cerca de 17% na capacidade de exportação do país.
Apesar disso, parte da produção ainda pode ser retomada relativamente rápido, dependendo da evolução do conflito. “Ainda estamos em um ponto em que, se o estreito fosse reaberto amanhã, a maior parte da produção de energia da região poderia voltar a operar em um prazo relativamente curto,” disse Jason Bordoff, da Universidade de Columbia.
Mesmo assim, especialistas alertam que novos ataques podem alterar rapidamente esse cenário e aprofundar os impactos.
Alta da energia ameaça inflação e crescimento global
O efeito da crise já começa a aparecer nos preços internacionais. Analistas indicam que o petróleo pode atingir até 200 dólares por barril em 2026, um salto expressivo em relação aos níveis anteriores ao conflito.
Esse movimento tende a pressionar a inflação e desacelerar a economia global. “Esta é, de longe, a maior interrupção no fornecimento de petróleo bruto e derivados que já vimos na história,” afirmou Jason Miller, professor da Michigan State University. Ele acrescentou que “o petróleo está presente em tudo,” o que amplia o impacto sobre diferentes setores.
O aumento nos custos de combustíveis como diesel e querosene de aviação também afeta diretamente o transporte de mercadorias. Isso encarece cadeias logísticas e pode elevar o preço de produtos em todo o mundo.
Empresas de navegação enfrentam ainda rotas interrompidas, congestionamentos e aumento nos custos de seguro. Há registros de embarcações retidas na região e possibilidade de redirecionamento de cargas, o que gera despesas adicionais para clientes.
Além do petróleo, o gás natural liquefeito se tornou um ponto crítico. A redução da oferta impacta não só a geração de energia, mas também a produção de fertilizantes e insumos industriais, incluindo materiais usados na fabricação de semicondutores.
Especialistas avaliam que o risco associado à região continuará influenciando os preços mesmo após o fim dos confrontos. “Os compradores vão precificar esse risco por mais tempo do que a própria interrupção inicial,” afirmou o analista Jan-Eric Fahnrich.
Governos tentam conter os efeitos com medidas emergenciais, como redução de impostos e controle de preços. No entanto, há limitações devido ao desgaste fiscal após crises recentes, o que dificulta uma resposta mais ampla.

