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Política

Ainda há riscos de viver em Goiânia por conta do caso Césio-137?

Especialista explica efeitos da radiação no corpo e por que algumas consequências permanecem por décadas

Ainda há riscos de viver em Goiânia por conta do caso Césio-137?

Quase quatro décadas após o acidente com Césio-137, em Goiânia, uma dúvida ainda aparece com frequência, ainda há riscos em viver na cidade ou em áreas que já tiveram contaminação radioativa?

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A resposta envolve ciência, história e percepção social. Embora não exista risco atual relevante para a população em geral, os efeitos do episódio continuam presentes em diferentes dimensões.

Relembre o acidente

O acidente com Césio-137 começou em setembro de 1987, quando Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram um aparelho de radioterapia abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia.

O material acabou sendo vendido a Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho, onde a substância radioativa foi manipulada e distribuída sem que houvesse conhecimento dos riscos.

Entre as vítimas mais conhecidas estão Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, Maria Gabriela Ferreira, Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza, que morreram semanas após a exposição.

O caso também envolve nomes como Ivo Alves Ferreira, pai de Leide, que teve contato direto com a situação, além de trabalhadores ligados ao ferro-velho.

Entre eles está o entrevistado desta reportagem, que atuava no local e teve contato direto com o material contaminado durante a rotina de trabalho.

Em entrevista ao O Brasilianista, Donizeth Rodrigues de Oliveira, que trabalhou no local onde o material foi encontrado, relata problemas de saúde ao longo dos anos.

“Hoje eu tô com vários problemas de saúde, já sofri oito infartos, um AVC, tenho problema nos rins e na tireoide”, afirma.

Ele também aponta dificuldades enfrentadas após o episódio. “O governo foi muito negligente com a gente, preciso de ajuda até hoje”, diz.

Exposição e efeitos no organismo

Em exclusiva para O Brasilianista, o médico Estêvão de Carvalho Aguiar, especialista em Medicina de Família e Comunidade e atuante no Hospital Estadual de Urgências de Goiás (HUGOL), explica que o impacto da radiação depende principalmente da dose e do tipo de exposição.

“A radiação ionizante consegue danificar estruturas importantes das células, especialmente o DNA, o que pode levar a alterações no funcionamento celular ou até ao desenvolvimento de doenças ao longo do tempo”, afirma.

Os impactos da radiação variam conforme a intensidade e o tempo de contato. Em situações mais graves, os sintomas podem surgir rapidamente.

“Nos casos de altas doses em curto período, podem aparecer náuseas, vômitos, diarreia e lesões na pele, além de comprometimento da medula óssea, o que reduz a imunidade e aumenta o risco de infecções”, explica Aguiar.

Ele destaca que, em situações extremas, pode haver falência de órgãos. Esses casos foram registrados no acidente de Goiânia, considerado um dos mais graves fora de usinas nucleares.

De acordo com dados do Governo de Goiás, divulgados pelo O Brasilianista, mais de 112 mil pessoas foram monitoradas na época, e centenas apresentaram contaminação.

Consequências que aparecem com o tempo

Mesmo quando os efeitos imediatos não são graves, a exposição pode gerar impactos anos depois. O principal risco está relacionado ao desenvolvimento de doenças crônicas.

“O aumento do risco de câncer é o efeito mais conhecido, porque o dano ao DNA pode gerar mutações ao longo do tempo”, afirma Aguiar.

Ele acrescenta que também podem ocorrer catarata, infertilidade e alterações na pele. Esses efeitos são observados em estudos com populações expostas a acidentes radiológicos.

Segundo o médico, quanto maior a dose, maior a probabilidade de consequências duradouras. Por isso, o acompanhamento das vítimas se estende por décadas.

Cidade hoje não apresenta risco

Apesar do histórico, especialistas afirmam que Goiânia não apresenta risco radiológico atualmente. As áreas contaminadas foram isoladas e tratadas após o acidente.

“Hoje não há evidência de risco significativo para a população geral. Os níveis de radiação estão dentro dos padrões considerados normais”, explica Aguiar.

Ele destaca que o material radioativo foi recolhido e armazenado com segurança. O monitoramento continua sendo realizado por órgãos responsáveis.

Esse cenário diferencia Goiânia de locais como Chernobyl, onde há áreas ainda restritas devido à contaminação persistente.

Diferença entre acidentes

A comparação com outros eventos ajuda a entender por que algumas regiões permanecem inabitáveis e outras não. O tipo de material e a forma de dispersão fazem diferença.

No caso de Chernobyl houve liberação contínua de material radioativo no solo, com grande volume de substâncias de longa duração.

Já em cidades como Hiroshima e Nagasaki, a radiação se dissipou mais rapidamente, permitindo a reconstrução. Essas diferenças mostram que nem toda área afetada por radiação permanece perigosa indefinidamente.

Impacto psicológico e social

Mesmo sem risco atual, os efeitos sociais do acidente persistem. O estigma ainda afeta parte da população atingida.

“Os impactos psicológicos são muito relevantes, com casos de ansiedade, estresse pós-traumático e dificuldades nas relações sociais”, afirma Aguiar.

Ele explica que o medo da radiação, muitas vezes associado à falta de informação, pode durar mais do que os efeitos físicos.

Economia também sente efeitos

Os impactos não se limitam à saúde. Segundo O Brasilianista, acidentes radiológicos provocam consequências econômicas duradouras.

A especialista Beatriz Mateus Rodrigues afirma que esses eventos geram paralisação de atividades, queda no valor de imóveis e retração de setores econômicos.

“Em Goiânia, bairros inteiros sofreram estigmatização, enquanto em Chernobyl houve perda total do uso econômico da área”, explica. Ela destaca que esses efeitos podem durar décadas, mesmo após o controle da contaminação.

O que fica do passado?

O caso de Goiânia mostra que viver em uma área que já teve contaminação não significa, necessariamente, estar em risco hoje. No entanto, os efeitos históricos permanecem.

Donizeth, que teve contato direto com o material enquanto trabalhava no ferro-velho, relata dificuldades contínuas para lidar com as consequências da exposição. “Não aguento mais pedir ajuda é como se não tivesse acontecido nada com a gente, espero que o governo faça alguma coisa”, finaliza.

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