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Política

Goiânia ainda tem radiação por conta do césio-137?

Quase 40 anos após o acidente, impactos seguem na saúde, economia e na vida de vítimas diretas

Goiânia ainda tem radiação por conta do césio-137?

Após o acidente com o Césio-137, ocorrido em 1987 em Goiânia, a dúvida sobre possíveis riscos de radiação ainda persiste entre moradores e visitantes.

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Os efeitos mais duradouros aparecem entre pessoas que tiveram contato direto com o material radioativo durante o acidente.

Segundo O Brasilianista, o caso começou quando um aparelho de radioterapia foi retirado de uma clínica abandonada e acabou sendo desmontado em um ferro-velho, espalhando o material sem conhecimento dos riscos.

O trabalhador Donizeth Rodrigues de Oliveira, que atuava no local, relata que as consequências continuam presentes décadas depois.

“Hoje eu tô com vários problemas de saúde, já sofri oito infartos, um AVC, tenho problema nos rins e na tireoide”, afirma.

Ele também destaca dificuldades no acesso a suporte ao longo dos anos. “O governo foi muito negligente com a gente, preciso de ajuda até hoje”, diz, ao relatar a falta de assistência contínua para vítimas do acidente.

Como a radiação afeta o organismo?

Os efeitos da radiação no corpo humano variam conforme a dose e o tempo de exposição. O médico Estêvão de Carvalho Aguiar, especialista em Medicina de Família e Comunidade e atuante no Hospital Estadual de Urgências de Goiás (HUGOL), explica que o impacto começa em nível celular.

Ele detalha que, em casos de alta exposição em curto período, os sintomas podem surgir rapidamente e de forma intensa.

“Nos casos de altas doses em curto período, podem aparecer náuseas, vômitos, diarreia e lesões na pele, além de comprometimento da medula óssea, o que reduz a imunidade e aumenta o risco de infecções”, explica Aguiar.

Doenças podem surgir anos depois?

Mesmo quando não há sintomas imediatos graves, a exposição pode gerar consequências ao longo dos anos.

De acordo com O Brasilianista, o principal risco associado à radiação é o desenvolvimento de doenças crônicas, especialmente câncer.

“A radiação ionizante consegue danificar estruturas importantes das células, especialmente o DNA, o que pode levar a alterações no funcionamento celular ou até ao desenvolvimento de doenças ao longo do tempo”, afirma.

Além disso, o médico destaca outros possíveis efeitos tardios, como infertilidade, catarata e alterações na pele, que podem surgir décadas após a exposição inicial.

Cidade não apresenta risco atualmente

Apesar dos relatos e dos impactos nas vítimas, especialistas afirmam que Goiânia não apresenta risco radiológico atualmente para a população em geral.

As áreas contaminadas foram isoladas e passaram por processos de descontaminação logo após o acidente.

“Hoje não há evidência de risco significativo para a população geral. Os níveis de radiação estão dentro dos padrões considerados normais”, explica Aguiar.

O especialista ressalta que o material radioativo foi recolhido e armazenado de forma segura, e que há monitoramento contínuo realizado por órgãos responsáveis.

Falhas do passado e mudanças no controle

O acidente de 1987 também revelou falhas estruturais na gestão e fiscalização de materiais radioativos. O episódio começou com o abandono de um equipamento contendo Césio-137 em uma área urbana, o que permitiu sua manipulação por pessoas sem conhecimento técnico.

Para Marcelo Santos Teves, presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, a resposta inicial contribuiu para ampliar os danos.

“A grande falha do governo na época foi a de não comunicar de imediato à população para que se houvesse um controle maior da situação”, afirma.

Ele acrescenta que houve atraso na articulação entre instituições, o que dificultou a contenção rápida da contaminação. “Depois disso juntou Judiciário, Secretaria de Saúde e governo para reestabelecer a ordem”, explica.

Segurança avançou, mas risco não é zero

Após o acidente, o país adotou medidas mais rigorosas para controle de materiais radioativos. Houve criação de sistemas de monitoramento e exigência de autorização para uso e importação desses equipamentos.

O diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), Ivan Salati, afirma que o cenário atual é mais seguro. “Acreditamos que não vamos ter outro acidente com fonte que venha a preocupar”, diz.

Ainda assim, ele ressalta a importância da vigilância contínua e da preparação para possíveis incidentes, destacando que há sistemas de resposta rápida em funcionamento no país.

Impactos vão além da saúde

Os efeitos do acidente não se limitam ao campo médico e continuam influenciando a vida social e econômica. Há registros de estigmatização de bairros e dificuldades enfrentadas por vítimas ao longo dos anos.

Além disso, o medo da radiação ainda afeta a percepção da população, mesmo sem risco atual comprovado.

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