O conflito no Irã, causado por Estados Unidos e Israel, gerou fortes impactos nos fluxos globais de energia e expôs certas vulnerabilidades na segurança do fornecimento de combustível de aviação, conforme aponta o International Air Transport Association (IATA). O Estreito de Ormuz, que leva cerca de 20% do petróleo mundial, se tornou praticamente intransitável.
O tráfego de navios-tanque recuou entre 70% e 80% causando efeitos imediatos sobre produtos refinados como o querosene de aviação, prinicpalmente em regiões que necessitam do abastecimento do Golfo Pérsico. A Europa está entre as regiões mais afetadas.
O IATA detalga ainda que entre 25% e 30% da demanda europeia por querosene de avião vem do Golfo Pérsico. A redução na capacidade do transporte marítimo e do grande aumento nos prêmios de seguro têm restringido a disponibilidade do combustível, encarecendo os preços do querosene e as margens de refino em meio a temores de escassez física.
No Brasil…
A Petrobras comunicou nesta quarta-feira (01) que vai fornecer ao mercado um termo de adesão para diminuir os efeitos do recente reajuste no preço do querosene de aviação (QAV), conforme informa nota da própria companhia. Essa transição deve ocorrer, segundo a Estatal, até a próxima segunda-feira (06).
A medida vai ajudar as distribuidoras que suprem a aviação comercial a quitar, neste mês cerca de 18% no QAV, bem abaixo do reajuste de 54,8%, em contrato. A diferença pode ser parcelada em até seis vezes com vencimento da primeira em julho de 2026.
A ideia da Estatal é proteger a demanda pelo combustível e tentar reduzir o impacto do reajuste sobre o setor aéreo brasileiro.
A Petrobras ainda enfatiza que a decisão deve favorecer a saúde financeira dos seus clientes ao mesmo tempo em que preserva neutralidade financeira da companhia, estimando um cenário de forte alta nos preços internacionais de derivados de petróleo.
O mecanismo de parcelamento consegue também ser estendido para os meses de maio e junho com ajustes ainda em definição, notifica a estatal. Segundo a Petrobras, a companhia tem tentando evitar repassar a volatilidade de curto prazo aos preços nacionais.
Encarecimento de voos
O IATA informou que em 2025, cerca de 10% de todos os passageiros-quilômetro pagos (RPK) internacionais circularam por aeroportos da região. Em números, mais de 67 milhões de passageiros realizaram conexões pelo Oriente Médio no ano passado.
A entidade explica que a região é uma ponte crítica para a conectividade com a Ásia-Pacífico. Entre os seis principais pares de rotas que utilizam o Oriente Médio como hub de conexão, quatro estão no Ásia-Pacífico.
O tráfego entre a Ásia-Pacífico e a África, por exemplo, tem a maior parcela de conexões roteadas pela região, seguido das rotas Ásia-Pacífico–Europa e Ásia-Pacífico–América Latina e Caribe. O conflito fez com que companhias aéreas suspendessem voos para a região quase sem aviso ou que prejudicou a conectividade.

Dez dias após os ataques, 73% dos assentos-quilômetro disponíveis (ASK) para o Oriente Médio foram suprimidos. As rotas entre o Oriente Médio e a Ásia-Pacífico foram as mais afetadas. Quase 80% dos voos ligando a região à Europa foram interrompidos.
Os corredores com a América do Norte , América Latina e Caribe sofreram reduções de capacidade de 75% e 74%, respectivamente. A entidade ainda disse que níveis semelhantes de interrupção só foram registrados durante a pandemia de Covid-19, quando 95% da oferta de voos para a região parou em curto prazo.
Caso essas interrupções se estendam os impactos serão ainda maiores, incluindo pressões sobre preços e disponibilidade de passagens aéreas devido à alta nos custos de combustível.
Dependência europeia
O IATA ainda faz um alerta: o abastecimento europeu está fortemente ligado a estoques comerciais e normalmente abrangem pouco mais de um mês de demanda. Além disso, alternativas potenciais, como Índia e China, enfrentam restrições próprias já que 84% do petróleo bruto que atravessa o Estreito de Taiwan estão destinados a mercados asiáticos.
Além disso, diminuem a disponibilidade global do petróleo necessário para a produção de combustível de aviação. O aumento dos prêmios de risco de guerra e o desvio de rotas pelo Cabo da Boa Esperança, no extremo sudoeste da África, na África do Sul, também colaboram para elevar os custos e dilatar os prazos de entrega.
A situação é de urgência, segundo relatório, e pede reforço de resiliência do setor, por meio de reservas estratégicas específicas, diversificação de fornecedores e maior coordenação entre governos, companhias aéreas e refinarias.
Por não existir substituto em larga escala para o querosene de aviação, a indústria permanece na linha de frente da crise, tornando necessária a intervenção política.
Ao longo prazo, a associação enfatiza que estimular o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis e ampliar a redundância na cadeia de abastecimento é fundamental para diminuir a vulnerabilidade a choques causados por guerras.

