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Geopolítica

Quem está lucrando com armas de guerra?

Especialista explica a realidade das empresas de defesa e dos principais países que tem gerado receita com conflitos nos últimos anos

Quem está lucrando com armas de guerra?

O conflito no Oriente Médio tem levantando diversos debates, sendo um deles bem pertinente. Quem está lucrando com armas de guerras? O setor de defesa mundial tem passado por transformações estruturais principalmente por estímulos pelo rearmamento de potências regionais e pela intensificação de conflitos de alta intensidade, como a guerra na Ucrânia de 2022.

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Em entrevista exclusiva ao O Brasilianista, Marco Coutinho, Coronel da Reserva do Exército Brasileiro, Mestre em Ciência Política Internacional e Vice-Presidente do Instituto GSEC (Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos) diz que as receitas da indústria de defesa são motivadas principalmente por tecnologias de precisão e sistemas autônomos.

O crescimento da indústria de armamentos depende cada vez mais da continuidade desses conflitos e da demanda emergencial por munições e sistemas sofisticados. O mercado global de armamentos continua concentrado nos Estados Unidos. A empresa, Lockheed Martin lidera com US$ 64,65 bilhões em vendas, correspondendo a 91% de sua receita total.

A RTX Corporation (US$ 43,6 bilhões), Northrop Grumman (US$ 37,85 bilhões), a britânica BAE Systems (US$ 33,79 bilhões) e a General Dynamics (US$ 33,63 bilhões) que completam o top 5.

A empresa russa Rostec, gigante estatal russa de tecnologia e defesa, mantém relevância estratégica na 7ª posição global (US$ 27,12 bilhões). Já a China amplia sua presença no mercado com empresas como AVIC e CETC no Top 10 e a Índia emerge com três firmas no Top 100: HAL (44ª), BEL (58ª) e MDL (91ª).

A Artilharia

Usando Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) e relatórios setoriais de 2024 a 2026 Coutinho destaca também o papel das munições de artilharia, cujo consumo disparou com a guerra na Ucrânia.

  • Mísseis: o mercado global deve atingir US$ 93,56 bilhões até 2030, sendo os sistemas de orientação os mais lucrativos, representando 27,36% do faturamento.
  • Drones: projetados para missões estratégicas, os drones militares, avaliados em US$ 23,15 bilhões até 2032, privilegiam modelos de asa fixa devido à autonomia.
  • Aviação: o setor aéreo domina o mercado com 42,3% de participação.
  • Munições de artilharia: a produção de projéteis de 155 mm atingiu níveis críticos, forçando investimentos industriais não vistos desde a Segunda Guerra Mundial.

Recordes no processo das munições

A Rússia lidera quantitativamente, o país produz cerca de 7 milhões de projéteis em 2025, 50% a mais que em 2024. Entre eles: 3,4 milhões correspondem a munições de obuseiro de calibres 122 mm, 152 mm e 203 mm. Um projétil de 152 mm de modelo antigo custa ao Estado menos de 100.000 rublos (cerca de € 1.050), valor várias vezes inferior aos similares ocidentais.

“A Rússia cresce porque está em guerra, mas também porque não pode parar de estar em guerra sem enfrentar uma recessão profunda. A indústria militar russa sustenta regiões, absorve mão de obra e direciona investimentos; a interrupção do conflito geraria choque econômico interno”, afirma o Coronel.

Apesar do volume, a autossuficiência russa é parcial, pois importou de 5 a 7 milhões de unidades do Irã e da Coreia do Norte entre 2023 e 2025 para sustentar estoques e recompor reservas. Nos Estados Unidos, a produção mensal de projéteis de 155 mm ficou em 40.000 unidades, abaixo da meta de 100.000.

O atraso é causado por barreiras na cadeia de suprimentos de maquinário e a dependência de TNT importado onde a produção doméstica foi encerrada em 1986. A expectativa de alcançar a meta foi adiada para ser ainda em 2026.

A BAE Systems aumentou a produção de munição em 16 vezes em relação aos níveis pré-COVID. A empresa ainda quer atingir 2 milhões de projéteis anuais em 2026, com potencial para alcançar 2,4 milhões, representando crescimento de oito vezes em quatro anos.

O Ocidente tenta igualar a produção russa apenas neste ano, mas a Rússia já opera com 3,4 milhões de projéteis de artilharia pesada por ano, uma vantagem imediata.

Contratos de longo prazo

O Coronel ainda diz que o crescimento das empresas de defesa é sustentado principalmente por contratos a longo prazo e pela gestão de pedidos acumulados, conhecidos como backlogs. Estes são indicadores críticos de saúde financeira, monitorados por Lockheed, Northrop e RTX (gigantes da defesa dos EUA) como garantia de receita futura.

Nos EUA, as vendas comerciais diretas (DCS) cresceram 12,9% em 2025 e superou programas de governo para governo. Na Europa, iniciativas como o ASAP utilizam contratos de compra de longo prazo para estimular co-investimento industrial, Coutinho explica, entretanto, que a indústria enfrenta hoje um choque estrutural.

“Programas emergenciais como PURL (Pentagon’s Ukraine Replacement Law, dos EUA) e ASAP (Act to Support Allied Production, Europeu) já haviam criado distorções significativas ao redirecionar capacidade industrial para reposição urgente de estoques e apoio imediato a aliados”, analisa o Coronel.

O consumo intenso de munições antiaéreas, isso inclui mísseis e drones, cresceu a pressão sobre a indústria e gerou cinco impactos principais:

  • Filas de espera prolongadas: sistemas antiaéreos dependem de mísseis e projéteis guiados cuja produção é lenta e complexa, com semicondutores, sensores e propelentes especiais em maior parte produzidos na China.
  • Descumprimento de prazos: linhas de produção calibradas para volumes estáveis não conseguem expandir instantaneamente. Expansão exige novos equipamentos, fornecedores, certificações e mão de obra especializada. Em alguns casos, sistemas completos são entregues sem munição suficiente.
  • Aumento de custos: a demanda emergencial eleva preços de insumos críticos, tornando contratos de longo prazo economicamente inviáveis, com necessidade de renegociação e risco de litígios.
  • Conflito de prioridades: programas como PURL e ASAP direcionam produção para urgências domésticas, empurrando contratos internacionais para segundo plano.
  • Incerteza estratégica: a indústria precisa decidir se expande capacidade para atender o pico atual ou mantém ritmo tradicional para evitar excesso de produção quando a demanda cair. Isso afeta investimentos, contratações e decisões de longo prazo.

O resultado é um ambiente em que contratos de longo prazo perdem previsibilidade: filas, atrasos, renegociações e pressão política tornam-se rotina.

“Quando países queimam em semanas o que antes consumiam em um ano, toda a capacidade industrial é absorvida pela reposição emergencial”, ressalta Coutinho.

Maiores compradores de armamentos

De acordo com o ranking do SIPRI em 2024, baseado em TIV (Trend Indicator Values), os principais importadores foram:

  1. Ucrânia: US$ 5,23 bilhões
  2. Polônia: US$ 1,44 bilhão
  3. Estados Unidos: US$ 1,20 bilhão
  4. Índia: US$ 1,16 bilhão
  5. Catar: US$ 467 milhões

“A demanda atual não é apenas conjuntural. Ela se tornou estrutural”, alerta Coutinho. Mesmo países sem conflito direto, como Japão, Coreia do Sul, Polônia e Arábia Saudita, tem armas e as atualizam de forma recorrente. A produção de drones, munições vagantes e ataques saturados exige estoques maiores de interceptores, mísseis guiados e projéteis inteligentes.

Dependência da guerra

O Ocidente enfrenta dilema distinto: Europa e EUA não estão em mobilização total, mas precisam produzir em ritmo equivalente ao consumo de guerra. A continuidade da demanda é incerta, enquanto programas emergenciais absorvem toda capacidade disponível, criando filas de espera, atrasos e renegociações de contratos estratégicos.

“A Europa, em particular, precisa produzir como se estivesse em guerra, mas sem estar formalmente mobilizada”, explica Coutinho.

O Vice-Presidente do GSEC ainda ressalta a dependência crescente da guerra para sustentar o crescimento da indústria de defesa. A Rússia, segundo ele, depende diretamente do conflito para sua economia militarizada. Já o Ocidente, bem menos, mas também depende do de grande consumo gerado pelos conflitos para justificar investimentos e expansão industrial.

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