Quando se fala em defesa nacional, a imagem mais comum costuma ser a de tropas atravessando fronteiras, tanques avançando por rodovias e aviões de combate sobrevoando cidades.
Episódios como a Guerra das Malvinas, travada entre Argentina e Reino Unido em 1982, ainda servem de referência para imaginar um eventual conflito envolvendo um país sul-americano.
Hoje, porém, especialistas avaliam que esse cenário deixou de representar o principal desafio para o Brasil. A disputa por influência política, o avanço do crime organizado transnacional e o crescimento dos ataques cibernéticos passaram a ocupar espaço central nas discussões sobre segurança nacional.
Esse diagnóstico ganhou força após uma apresentação do comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE), general Carlos Eduardo Barbosa da Costa.
Durante o encontro com integrantes do Alto Comando do Exército, o oficial detalhou os principais riscos monitorados pela inteligência militar, reunindo desde organizações criminosas e grupos armados até operações cibernéticas conduzidas por atores estatais e não estatais.
Entre os dados apresentados, um chamou atenção: o registro de 754 bilhões de tentativas de intrusão em sistemas brasileiros ao longo de 2025, evidenciando a dimensão dos desafios enfrentados pelo País no ambiente digital.
A defesa nacional enfrenta novos tipos de ameaça
As preocupações das Forças Armadas deixaram de se concentrar exclusivamente em confrontos militares tradicionais. Além da atuação de facções criminosas nas fronteiras, a inteligência brasileira acompanha ataques cibernéticos, campanhas de desinformação, espionagem e outras ações capazes de comprometer estruturas estratégicas do Estado.
Para Ricardo Bruno Boff, mestre em Relações Internacionais, doutor em Integração da América Latina e professor dos cursos de Direito e Relações Internacionais da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), limitar o debate à possibilidade de uma guerra convencional significa ignorar os riscos que hoje exercem maior pressão sobre o País.
“Uma invasão militar convencional é muito pouco provável, basta a gente pensar que faz muito tempo que isso não acontece aqui. Entretanto, observando o que aconteceu na Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos de Donald Trump, esta também não é uma coisa que pode-se a ser descartada.”
O docente observa que os conflitos contemporâneos deixaram de depender exclusivamente da ocupação de territórios. Em muitos casos, o objetivo passou a ser desestabilizar governos, influenciar decisões políticas ou comprometer serviços essenciais por meio de ferramentas tecnológicas, sem a necessidade de um confronto militar declarado.
Ataques cibernéticos desafiam a capacidade de resposta do País
Dentro desse contexto, Boff considera que a proteção das redes, dos sistemas estratégicos e das informações sensíveis tornou-se um componente essencial da segurança nacional.
“Portanto, uma certa soberania tecnológica e digital, com investimentos em algum tipo de controle soberano das redes, em detectar centros de manipulação de informação, de criação de perfis falsos, de proliferação de notícias que interessam a potências externas, é algo fundamental para o qual o Brasil não está preparado.”
O professor explica que, ataques digitais podem atingir áreas como saúde, energia, transporte, comunicações e serviços públicos, causando prejuízos relevantes mesmo sem o emprego de forças militares.
Ao mesmo tempo, campanhas coordenadas de desinformação têm potencial para influenciar o debate público, aprofundar divisões sociais e enfraquecer a confiança da população nas instituições.
Guerra híbrida amplia o campo dos conflitos
Esse novo cenário também consolidou o conceito de guerra híbrida, utilizado para descrever estratégias que combinam ataques cibernéticos, operações de influência, desinformação e pressões políticas ou econômicas para enfraquecer um adversário.
Boff ressalta que esse modelo já faz parte da realidade internacional e independe da existência de uma guerra formal entre Estados. Como exemplo, ele cita episódios como o Brexit, as eleições norte-americanas e a atuação de empresas de análise de dados, que impulsionaram o debate sobre o uso de redes sociais e algoritmos para influenciar a opinião pública.
Na visão do pesquisador, essas experiências demonstram que a capacidade de produzir tecnologia, desenvolver inteligência própria e monitorar ameaças digitais tornou-se tão estratégica quanto os investimentos tradicionais em defesa.
Cooperação regional fortalece o combate ao crime
Outro ponto considerado essencial pelo especialista é o fortalecimento da cooperação entre os países sul-americanos.
“A gente precisa olhar os países vizinhos como parceiros, a gente precisa mais infraestrutura física, de estradas, rodovias, ferrovias, de comunicação, de reuniões, de intercâmbio acadêmico com Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Chile, Colômbia etc.”
O professor acrescenta que ampliar a integração regional reduz vulnerabilidades exploradas por interesses externos e fortalece a capacidade conjunta de enfrentar organizações criminosas que atuam além das fronteiras nacionais.
Tecnologia e indústria ganham papel estratégico
Na avaliação do internacionalista, ampliar a capacidade de defesa também depende de investimentos em reindustrialização, inovação e desenvolvimento tecnológico.
Segundo ele, fortalecer a produção nacional em setores estratégicos reduz a dependência externa e amplia a capacidade de resposta diante de desafios cada vez mais complexos.
Além do avanço tecnológico, Boff defende políticas públicas voltadas ao fortalecimento da inteligência, da educação e da pesquisa como parte de uma estratégia de longo prazo para preparar o Brasil diante das transformações no cenário internacional.
“A gente tem que fazer tudo isso para que a gente possa aumentar a nossa soberania.”

