A relação entre Brasil e Estados Unidos em um cenário eleitoral que envolve Flávio Bolsonaro (PL) e um eventual governo alinhado ao presidente norte-americano, Donald Trump, pode provocar mudanças relevantes em setores estratégicos da economia brasileira e redefinir a posição do país em blocos internacionais. Quem explica esse cenário é o sociólogo, mestre em Ciência Política e especialista em Gestão e Avaliação de Políticas Públicas pela Universidad de Deusto na Espanha, Luiz Renato Ribeiro Ferreira.
Antes de detalhar os impactos setoriais, o especialista explica que suas análises se baseiam em contexto político e histórico familiar, além de possíveis alinhamentos ideológicos. Ele ressalta que não há alinhamento institucional, mas sim aproximações com setores específicos da política norte-americana.
“Com poucos elementos concretos, podemos supor que um eventual governo de Bolsonaro terá papel importante para a redução da dependência americana pelos minerais estratégicos. Também é de se supor que o alinhamento trará impactos nas áreas de telecomunicações, do setor de infraestrutura digital (5G/6G) e data centers, pois deverá ocorrer um ajuste do país aos padrões de segurança dos EUA”, diz o especialista.
Ele também indica possíveis reflexos no comércio internacional a partir da necessidade de adequação a padrões de segurança dos Estados Unidos.
Nesse contexto, avalia que o agronegócio pode ser impactado de forma incerta, especialmente pela dependência do Brasil de mercados como o da China, cuja reação a um alinhamento mais próximo aos Estados Unidos não é previsível.
Alinhamento ideológico a Trump
Ao tratar da relação entre a direita brasileira e Donald Trump, o especialista afirma que o alinhamento existente é ideológico e não institucional, associado às alas mais radicais da política norte-americana. Ele descreve essa relação como predominantemente estética e retórica, sem estruturas formais consolidadas entre os governos.
Esse movimento pode ser colocado como uma forma de populismo transnacional, como acontece com outros países da América Latina, como Argentina, Chile e El Salvador. O fenômeno estaria ligado a pautas culturais e comportamentais, ao distanciamento de organismos multilaterais e ao uso intensivo das redes sociais como ferramenta política.
O especialista ressalta que isso não se configura como um alinhamento institucional pleno, embora esse cenário possa ocorrer em caso de eventual governo de Flávio Bolsonaro, com impactos diretos em setores como agronegócio e energia.
Interferência dos EUA no processo eleitoral brasileiro
O especialista afirma que a interferência já está em curso, ainda que de forma sutil, e ocorre em paralelo a outras prioridades da política externa dos Estados Unidos, como conflitos internacionais.
Apesar disso, ele avalia que haverá forte interferência, mas não por meios tradicionais como financiamento ou discursos diretos. Em vez disso, aponta o uso de algoritmos em redes sociais e pressões indiretas sobre autoridades, o que poderia gerar instabilidade política e influenciar a dinâmica eleitoral.
Ele também afirma que Trump não deve atuar diretamente sobre o processo eleitoral, mas pode oferecer apoio político indireto, como endossos públicos e mobilização de redes de comunicação associadas ao seu grupo político.
Os desafios de Flávio Bolsonaro
Ao analisar possíveis desafios de um governo de Flávio Bolsonaro, o especialista destaca que a governabilidade seria o principal ponto de partida. Ele observa que a capacidade de articulação no Congresso será determinante para qualquer agenda de reformas.
Segundo ele, o cenário envolveria uma base parlamentar robusta, mas ainda assim exigiria equilíbrio político. Ele descreve a situação como um trilema, envolvendo a necessidade de conciliar demandas sociais, econômicas e fiscais, administrar uma base ideologicamente radicalizada e lidar com disputas internas dentro da própria direita.
Além disso, seria necessário enfrentar a chamada “guerra cultural” presente nesse campo político, ao mesmo tempo em que se mantém a estabilidade das áreas técnicas do governo.
“Além deste trilema, que exigiria muita habilidade política e menos radicalismo, ele ainda teria que combater a guerra cultural que acontece no meio da extrema direita, sua base mais fiel, de forma a fazer com que as áreas técnicas possam funcionar exatamente para sustentar sua governabilidade ao longo do tempo”, analisa o sociólogo.
Flávio também estaria articulando sobre a possibilidade da classificação de facções criminosas como o PCC e o CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos. O especialista afirma que essa medida tem impacto direto na política brasileira e pode gerar desgaste para adversários políticos ao colocarmos como tema da segurança pública.
No entanto, alerta que, para além do ambiente eleitoral, uma decisão desse tipo pode causar efeitos profundos para qualquer governo a partir de 2027.
Segundo ele, isso envolveria riscos estratégicos, militares e geopolíticos, além de representar uma forma de transferência indireta de soberania, o que poderia gerar resistência até mesmo em setores militares mais conservadores.
BRICS, China e equilíbrio diplomático
Ao analisar a política externa, o especialista afirma que a dependência comercial e estrutural do Brasil em relação aos BRICS impede qualquer ruptura imediata com o bloco. Um eventual governo de Flávio Bolsonaro buscaria equilibrar críticas retóricas à China com ações pragmáticas voltadas à manutenção de relações comerciais.
“A dependência estrutural e comercial do Brasil em relação aos BRICS e seu papel de protagonismo no grupo, depois de China e Índia, devem impedir uma ruptura com o bloco. Talvez Flávio Bolsonaro deverá tentar equilibrar ataques retóricos contra a China, com ações mais pragmáticas. Os ataques retóricos servirão mais para o ‘mercado nacional’, ou seja, para sua base mais radicalizada e pró americana”, aponta o cientista político.
O especialista destaca possível semelhança com Lula, segundo ele, que alterna discursos conforme o público e o contexto político. No caso citado, menciona que isso ocorre quando no café da manhã ataca e critica Trump para manter a sua base feliz, enquanto no almoço fecha algum novo acordo comercial e depois janta com o norte-americano.
“Provavelmente, até mesmo por pressão de setores da economia produtiva do Brasil, Bolsonaro, se tiver inteligência e habilidade para questões de relações internacionais, terá que se comportar da mesma forma”, diz o especialista.
O especialista conclui que esse tipo de dinâmica evidencia a necessidade de pragmatismo na política externa para manter relações simultâneas com diferentes potências globais.

