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Política

Reeleição de Lula pode manter tensão diplomática com os EUA

Especialista avalia que a comunicação deve permanecer restrita a aspectos técnicos e com aumento de tensões comerciais

Reeleição de Lula pode manter tensão diplomática com os EUA

A possível quarta reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026 pode consolidar um cenário de distanciamento nas relações entre Brasil e Estados Unidos, principalmente sob a liderança de Donald Trump. A relação já é marcada por pragmatismo técnico e baixo alinhamento político e o momento atual é de cautela diplomática e sem a proximidade ideológica observada em outros períodos recentes.

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Ao O Brasilianista, o advogado e professor de direito internacional, Dr. Luiz Philipe Ferreira de Oliveira, aponta que os Estados Unidos enxergam o Brasil como um parceiro relevante, porém secundário, enquanto o Brasil busca manter equilíbrio estratégico em sua política externa.

Caso Lula seja reeleito, a tendência é de manutenção de uma relação limitada a aspectos técnicos e comerciais, sem grandes avanços em cooperação estratégica.

“Se Lula for reeleito em 2026, a tendência é a cristalização do isolamento político bilateral. A relação continuará focada em níveis técnicos e comerciais, mas sem grandes acordos de cooperação em defesa ou tecnologia de ponta, já que Trump tende a priorizar aliados que se alinhem totalmente à sua agenda anti-China”, diz o advogado.

Barreiras comerciais

No campo econômico, o risco de tensões comerciais deve crescer, com possibilidade de medidas restritivas por parte dos Estados Unidos, conforme aponta o especialista. O especialista avisa que sim, esse risco é alto.

Oliveira explica que sob a gestão de Trump, os Estados Unidos têm utilizado a Seção 301 da Lei de Comércio para investigar o Brasil. De acordo com ele, as barreiras indiretas não se limitam a questões ambientais, como ocorria no governo Biden, mas passam a ter caráter regulatório.

O país norte-americano ainda questiona o Pix, e considera desvantajoso para empresas de cartões americanas, além das tarifas aplicadas sobre o etanol e o que classificam como “protecionismo digital.

Ainda segundo a análise, sanções ou tarifas retaliatórias estão no radar para julho de 2026. Apesar das tensões, os investimentos americanos devem continuar, ainda que com mudanças no perfil e maior cautela em setores sensíveis, segundo a análise.

Tensão sobre investimentos

Apesar das tensões políticas e comerciais, o investimento dos Estados Unidos no Brasil não deve ser interrompido, uma vez que o país norte-americano segue como o maior investidor estrangeiro na economia brasileira. Mas, deve ocorrer uma mudança significativa no perfil desses aportes.

Investidores ligados aos setores de infraestrutura e energia tendem a adotar uma postura mais cautelosa, diante da percepção de instabilidade fiscal no Brasil. Por outro lado, há expectativa de crescimento em áreas consideradas estratégicas, como minerais críticos, incluindo lítio, terras raras e o agronegócio.

O professor de direito internacional enfatiza que a estratégia da gestão de Donald Trump envolve a busca por cadeias de suprimento fora do controle chinês, o que pode abrir espaço para o Brasil atrair capital nesses setores, desde que consiga se posicionar dentro da lógica de “de-risking” em relação à China.

Setores mais impactados

Alguns segmentos devem ser diretamente afetados por políticas protecionistas e pressões regulatórias, especialmente em contextos eleitorais nos Estados Unidos. Um dos pontos mais sensíveis envolve a possível classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas, o que pode ampliar a tensão entre os países.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos já avançou na preparação de documentos para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs).

Caso essa medida seja adotada, pode ter impacto direto na atuação do governo brasileiro, que perderia margem de negociação, já que a classificação prevê congelamento de bens e amplia a possibilidade de ações mais duras dos Estados Unidos em inteligência e sanções financeiras.

O governo brasileiro, segundo especialista, mantém resistência à proposta por considerar que se trata de organizações criminosas comuns, embora a pressão de Washington, junto com setores da oposição liderados por Flávio Bolsonaro, torne o tema cada vez mais central no debate político.

Outro setores são o de etanol e siderurgia que seguem sendo apontados como alvos tradicionais.

“Etanol e Siderurgia são alvos tradicionais de tarifas americanas em anos eleitorais ou de protecionismo ‘America First’. Já Tecnologia e Finanças, mais no setor bancário e de pagamentos, podem sofrer pressão por causa das críticas americanas ao modelo regulatório brasileiro”, comenta o advogado.

Comunicação entre líderes

A comunicação entre os governos tende a permanecer extremamente difícil, com estilos distintos que geram atritos frequentes, de acordo com o especialista. Trump usa as redes sociais e o “voluntarismo” para ditar a pauta, muitas vezes ignorando canais diplomáticos. Lula, por sua vez, usa o palanque internacional para criticar o “hegemonismo”. São dois estilos que colidem: um focado em soberania nacionalista e o outro em multilateralismo social.

Além disso, o Brasil pode presenciar uma possível interferência de Trump nas eleições brasileiras de 2026 e o papel de Flávio Bolsonaro, mais alinhado aos EUA, surgem como fatores adicionais de tensão no cenário político.

A interferência já é visível, mas pode ser um “tiro pela culatra” para ambos os lados, segundo Oliveira.

  • Flávio: Deve buscar ativamente a bênção de Trump para se consolidar como o herdeiro legítimo do bolsonarismo. Trump pode usar seu peso para dar legitimidade internacional à candidatura de Flávio, criticando o Judiciário brasileiro.
  • Lula: Estrategicamente, o governo Lula pode “torcer” por uma interferência exagerada de Trump para reativar o discurso de defesa da soberania nacional, além de unir a base contra o “imperialismo” e pintar a oposição como “submissa” aos interesses estrangeiros.

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