A decisão de André Mendonça que autorizou a prisão de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), nesta quinta-feira (16) mostra que Daniel Vorcaro não pagou toda a propina prometida ao ex-presidente da instituição financeira do Distrito Federal porque foi informado de uma investigação interna do BRB sobre o crime que estava cometendo.
Segundo a Polícia Federal (PF), Vorcaro e Costa combinaram o pagamento de R$ 146,5 milhões em propina. Esse montante seria pago por meio de seis imóveis localizados em São Paulo e no Distrito Federal.
O dinheiro serviria para que Costa garantisse a compra do Master pelo BRB, mesmo com o banco de Vorcaro em sérios problemas financeiros porque sua liquidez era artificial. Porém, a PF rastreou somente o pagamento de pouco mais de R$ 74 milhões.
A diferença entre o valor prometido em propina e o efetivamente pago existe por Vorcaro interrompeu os pagamentos após ser informado de que Costa estava sendo investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) justamente por suspeita de receber propina do Master.
A investigação foi iniciada pelo MPF em 30 de abril de 2025. Dez dias depois, em 10 de maio de 2025, Vorcaro determinou ao advogado Daniel Lopes Monteiro, que também foi preso hoje, a interrupção de novos pagamentos e da formalização registral das transações combinadas com Costa.
As informações, de acordo com a PF, foram obtidas por Felipe Mourão, conhecido como “Sicário” por liderar o grupo de capangas de Vorcaro conhecido como “A Turma”. Mourão enviou cópias da investigação a Vorcaro via mensagens de aplicativo em 24 de junho de 2025.
Para ocultar a titularidade real dos imóveis destinados ao ex-presidente do banco, foram mobilizados fundos de investimento e empresas de fachada. Em mensagens trocadas com Vorcaro, Costa cita visitas da esposa a apartamentos em São Paulo simultaneamente a discussões sobre o lançamento de operações de interesse do Banco Master.
A apuração da PF indica que Costa utilizou a presidência do BRB para viabilizar a aquisição de carteiras de crédito fictícias do Banco Master, mesmo ciente de inconsistências nas operações. Em junho de 2025, constatou-se que o BRB havia adquirido cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras falsas.
Mas o BRB devolveu pouco mais de R$ 4 milhões ligados a essas carteiras após o Caso Master ser divulgado pela imprensa. Mas o rombo pode chegar a R$ 30 bilhões porque outros R$ 21,9 bilhões em ativos comprados pela instituição financeira do DF do banco de Vorcaro não estão sendo adquiridos pelo mercado bancário.
Costa preso

A PF prendeu o ex-presidente do BRB na manhã desta quinta-feira (16), em Brasília (DF), na quarta fase da Operação Compliance Zero. A prisão foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Costa comandou o BRB de 2019 até novembro de 2025, quando foi afastado do cargo por decisão judicial durante uma etapa anterior da mesma operação, deflaragada no mesmo dia em que o Master foi liquidado extrajudicialmente pelo BC.
A defesa de Costa já negou diversas vezes que o ex-presidente do BRB tenha cometido irregularidades no cargo. Os advogados do ex-executivo afirmam que as decisões do banco eram colegiadas e seguiam práticas de mercado.
Outro detido na operação de hoje foi o advogado Daniel Monteiro. Ele é apontado pela PF como o responsável por estruturar o esquema de lavagem de dinheiro e redigir os contratos fraudulentos que serviram para repassar os imóveis dados a Costa como propina.
Caso Master

Investigações da PF e relatórios de órgãos de controle mostraram que o modelo de negócios do Master baseou-se na aquisição de instituições financeiras em crise e ativos estressados para manter uma liquidez artificial. Quando o modelo ficou insustentável, o Master tentou transferir o rombo ao BRB.
Documentos apreendidos, incluindo uma agenda, registram conversas sobre a aquisição desses créditos. Vorcaro confirmou em depoimento contatos com o governador Ibaneis Rocha para tratar de negócios entre as instituições.
A investigação também aponta uma ligação entre a Reag Investimentos, o BRB e o escritório de advocacia do governador. Um relatório de auditoria identificou um aporte de R$ 1 bilhão no BRB realizado por Vorcaro e pelo fundador da Reag.
Vorcaro nega influência política, afirmando que sua situação jurídica e o uso de tornozeleira eletrônica refutam a tese de proximidade com o governo. Diante do avanço das apurações, o ex-presidente do BRB avalia a possibilidade de uma delação premiada sobre as conexões entre o banco, o empresário e a administração do Distrito Federal.

