A guerra no Sudão, iniciada em abril de 2023, já deixou mais de 150 mil mortos e milhões de deslocados, tornando-se um dos conflitos mais graves e menos visíveis do cenário internacional.
Em entrevista, o professor de Ciências Sociais, Luciano Gomes dos Santos, explica como essa crise reflete um mundo marcado por guerras simultâneas e interligadas.
Sudão: disputa militar e colapso interno
O conflito sudanês começou após a ruptura entre lideranças militares que dividiam o poder desde o golpe de 2021.
De um lado estão as Forças Armadas do país e, do outro, as Forças de Apoio Rápido, grupo paramilitar que disputa o controle político.
A guerra tem raízes históricas profundas, envolvendo tensões étnicas entre grupos árabes e não árabes, além da disputa por recursos naturais em um território afetado por desertificação e instabilidade econômica.
Luciano Gomes dos Santos, professor do Centro Universitário Arnaldo, afirma que a crise se prolonga sem a devida atenção internacional.
“A guerra no Sudão, país da África, está aí já completando dois anos e meio. É uma guerra, um conflito que não está sendo noticiado, que é uma situação trágica”, destaca.
Crise humanitária
O impacto da guerra no Sudão vai além dos combates e atinge diretamente a população civil. Milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas, gerando uma das maiores crises humanitárias recentes.
Ataques como o registrado em El-Facher, que matou centenas de civis em um hospital, elevaram o alerta sobre o risco de atrocidades em larga escala e possíveis episódios de limpeza étnica.
O professor Luciano Gomes reforça a gravidade da situação ao detalhar o número de afetados. “A grande questão são as consequências desse conflito interno, dessa guerra, que nós temos mais ou menos entre 12 a 14 milhões de pessoas em deslocamento”, acrescenta.
Impactos globais chegam à economia
Mesmo sendo um conflito localizado, os efeitos da guerra no Sudão ultrapassam fronteiras e afetam o funcionamento da economia global, especialmente em setores estratégicos.
Dados de Monitoramento de Conflitos Globais mostram que regiões em guerra enfrentam interrupções produtivas, crises alimentares e instabilidade que se espalha para outros países por meio do comércio internacional.
Luciano Gomes destaca que esses efeitos já são sentidos em diversas economias. “Primeiramente, nós já temos aí como consequência o aumento do preço do petróleo, dos fertilizantes, e isso também tem gerado inflação”, explica.
Interferência externa amplia o conflito
A guerra no Sudão também é marcada pela participação indireta de outros países, que apoiam diferentes lados em busca de influência e acesso a recursos naturais.
Há envolvimento internacional relevante, incluindo fornecimento de armas e interesses ligados à exploração de ouro, o que contribui para prolongar o conflito e dificultar soluções diplomáticas.
Para Luciano Gomes, essa dinâmica reforça a complexidade das guerras atuais. “Todo conflito e toda guerra, nesse nosso mundo global, é interligado, por essa interdependência que existe entre os países”, afirma.
Guerra entre Rússia e Ucrânia
A invasão russa iniciada em 2022 mantém um dos principais conflitos ativos no cenário global, com combates prolongados e impactos geopolíticos relevantes.
A guerra envolve ofensivas militares de grande escala, com uso de tanques, aviões e disputas territoriais que persistem ao longo dos anos.
O confronto também influencia mercados internacionais, especialmente energia e alimentos, ampliando seus efeitos para além da Europa.
Conflito entre Israel e Hamas
O confronto entre Israel e o grupo Hamas se intensificou após ataques recentes, com milhares de vítimas em curto período e escalada militar na região.
O conflito faz parte de uma disputa histórica que remonta a décadas e continua gerando instabilidade no Oriente Médio.
As operações militares e bombardeios ampliam o número de vítimas civis e mantêm a região em estado de tensão constante.
Guerra civil na Síria
A guerra na Síria começou em 2011 e permanece ativa, mesmo após anos de confrontos entre o governo e diferentes grupos armados.
O conflito já provocou centenas de milhares de mortes e milhões de refugiados, além de envolver potências internacionais. A fragmentação do território e a presença de múltiplos atores dificultam a resolução do conflito.
Conflito no Iêmen
A guerra civil no Iêmen começou em 2015 e segue como uma das crises humanitárias mais graves do mundo.
Dados indicam que o conflito envolve rebeldes Houthis e forças governamentais apoiadas por países da região, com milhares de mortes diretas e indiretas. A escassez de alimentos e o colapso de serviços básicos agravam ainda mais a situação da população.
Crise em Mianmar
O conflito em Mianmar se intensificou após o golpe militar de 2021 e continua afetando a estabilidade política do país.
A guerra civil impede a realização de eleições em todo o território e mantém milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade. A violência inclui bombardeios e confrontos constantes entre o exército e milícias de oposição.
Conflitos menos visíveis na África
Diversas guerras no continente africano seguem ativas, mas com menor cobertura internacional, incluindo conflitos na Somália, Nigéria e Etiópia.
A maioria das guerras atuais está concentrada na África e na Ásia, com crescimento no número total de conflitos nos últimos anos.
Esses confrontos envolvem disputas territoriais, grupos armados e fragilidade estatal, ampliando a instabilidade regional.
Multiplicação de crises simultâneas
O aumento de guerras ao redor do mundo reflete uma mudança na dinâmica internacional, com múltiplos conflitos ocorrendo ao mesmo tempo em diferentes regiões.
As Nações Unidas classificam o cenário atual como uma “nova era de conflito e violência”, com maior número de países afetados.
Luciano Gomes resume esse contexto ao destacar a simultaneidade das crises. “Hoje nós vivemos, nesse mundo atual, nessa região, que nós podemos chamar de policrises, ou seja, nós vivemos diversas crises ao mesmo tempo”, finaliza.

