As investigações sobre o Banco Master têm mostrado uma das maiores fraudes bancárias do Brasil. O escândalo, que culminou na liquidação da instituição pelo Banco Central em novembro de 2025, revela um esquema de lavagem de dinheiro e corrupção que alcançaram o Banco de Brasília (BRB) e fundos de pensão de servidores públicos.
O último desdobramento do caso foi a prisão do advogado Daniel Monteiro em 16 de abril. Ele é classificado pelas autoridades como arquiteto técnico dos contratos ao usar “laranjas” e criar empresas de fachada para vender crédito podres. As investigações apontam que Monteiro lucrou pouco mais de R$ 86 milhões no esquema.
Atualmente, o processo está numa fase que amendronta Brasília, pois Vorcaro negocia uma delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR).
O Papel da Reag

Segundo a Receita Federal e a Polícia Federal (PF), o Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro, movimentaram cerca de R$ 12,2 bilhões em fundos de investimento entre 2017 e 2025 para inflar artificialmente o patrimônio da instituição — que cresceu mais de 2.000% no período.
A participação da Reag Investimentos é central nessa engrenagem. As investigações da Operação Compliance Zero apontam que 44% dos aportes feitos pelo Master (aproximadamente R$ 5,3 bilhões) foram destinados a fundos administrados pela empresa de gestão de ativos.
A suspeita é que esses fundos operavam como uma “estratégia de saída” para lavar dinheiro e gerar resultados fictícios. O fundo FIDC Scarlet, gerido pela Reag, foi o principal destino, recebendo R$ 2,5 bilhões, por exemplo.
A Reag, assim como o Master, também foi liquidada extrajudicialmente pelo BC no início deste ano, devido às suspeitas de fraude das autoridades.
O Grupo Fictor

A participação do Grupo Fictor no caso Master é descrita pelos investigadores como um mecanismo de “circularidade financeira”. A empresa entrou na mira dos investigadores por tentar comprar o banco de Vorcaro após a venda da instituição financeira para o BRB ser frustrada.
Relatórios da Operação Compliance Zero mostram que o Master concedia empréstimos vultosos à Fictor que depois retornavam à instituição financeira por meio da compra de cotas de fundos geridos pela Reag.
Esse giro permitia que o Master registrasse esses empréstimos como “ativos saudáveis”, ocultando o fato de que o dinheiro nunca saía efetivamente do controle de Daniel Vorcaro e seus aliados. Segundo as autoridades, a Fictor usou uma empresas de fachada para simular operações comerciais, justificando a entrada de recursos que, na verdade, tinham origem no próprio banco.
O rombo deixado pelas operações com a Fictor é estimado em mais de R$ 2 bilhões, valor que teria sido “evaporado” em notas fiscais frias de exportação de grãos e contratos de energia inexistentes. O advogado Daniel Monteiro era o responsável por estruturar os contratos de garantia da Fictor que eram apresentados aos investidores.
Rede de Proteção Política

Augusto Lima era o elo político da organização. O ex-CEO do Master, que também foi alvo da Operação Compliance Zero, é apontado pelas autoridades como articulador de uma rede de influência em Brasília e em diversos estados e municípios.
As conexões políticas de Lima são extensas. Na Bahia, essa influência garantiu a criação do CredCesta no estado junto ao ministro e ex-governador baiano, Rui Costa, e o senador Jaques Wagner.
Foi Lima quem intermediou a contratação de consultorias jurídicas de alto nível para o banco, visando blindar Vorcaro de fiscalizações mais rigorosas. Documentos revelam que o ex-CEO do Master movimentou R$ 75 milhões em um único dia em fundos estruturados enquanto o Master expandia sua atuação no crédito consignado.
O BRB

Um dos capítulos mais graves do Caso Master envolve o Banco de Brasília (BRB). Diálogos obtidos na investigação mostraram que o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa favoreceu interesses de Vorcaro.
O esquema envolveu um aumento de capital realizado em 2024, onde fundos ligados ao Master e à Reag aportaram R$ 290 milhões para viabilizar a transação. A Operação Compliance Zero revelou que o BRB foi usado como um “depósito de ativos podres” do Banco Master.
Para ocultar a origem do dinheiro, o BRB aportava em fundos da REAG Investimentos, que por sua vez repassava os valores para o Grupo Fictor e para o próprio Master, fechando o ciclo da circularidade financeira.
O rombo do BRB, que pode chegar a R$ 30 bilhões, paralisou a capacidade de investimento do Governo Distrito Federal (DF). A crise também fez com que agências de risco rebaixassem a nota de crédito do Distrito Federal, o que dificulta a obtenção de empréstimos internacionais para obras de infraestrutura.
O BRB, que gerencia a folha de pagamento dos servidores, precisou elevar taxas de juros em consignados para compensar as perdas. A queda de Costa também afetou Ibaneis Rocha, ex-governador do DF que pretende disputar uma vaga ao Senado nas eleições deste ano.
Vorcaro afirmou que conversou com Ibaneis sobre a situação do Master. Costa disse que o governador sabia das trativas. Esse cenário coloca em dúvida se o ex-governador do DF conseguirá chegar competitivo à campanha eleitoral.
E a situação pode piorar, pois Costa trocou de advogado. Saiu Cléber Lopes, criminalista que também representa Ibaneis Rocha, e entrou Eugênio Aragão, conhecido por sua proximidade com o PT e por sua sociedade com Willer Tomaz, que tem ótimo trânsito em Brasília.
Fundos públicos de pensão

O colapso do Master afetou também fundos previdenciários de estados e municípios. Em muitos desses casos, as aplicações foram feitas em Letras Financeiras com vencimento para 2033 e 2034, o que significa que o prejuízo real será sentido por gerações futuras de servidores públicos.
O Rioprevidência, por exemplo, aportou cerca de R$ 970 milhões no Master pouco antes da liquidação da instituição. Semanas antes da aquisição vultosa de Letras Financeiras, o fundo passou por uma mudança súbita em sua diretoria.
Como o Ministério da Previdência Social já determinou que os entes federados são responsáveis pelos rombos, o governo do Rio de Janeiro terá que aportar recursos próprios para garantir o pagamento de aposentados e pensionistas em 2026.
A lista de institutos de previdência municipal afetados envolve prefeituras de pequeno e médio porte, onde a fiscalização técnica costuma ser menos rigorosa. O levantamento destaca perdas em:
Impacto no STF

As investigações envolvendo o Master e Daniel Vorcaro tornaram-se um dos maiores testes de estresse institucional para o Supremo Tribunal Federal (STF) ao provocar rachas internos, crises de imagem e uma ofensiva por novos códigos de ética na Corte.
Dias Toffoli, inicialmente relator de processos ligados ao caso Master, deixou a relatoria e se declarou suspeito após a divulgação de que uma empresa da qual é sócio recebeu repasses de um fundo ligado ao banco de Vorcaro.
Alexandre de Moraes também fi impactado pelo Master após o vazamento de mensagens entre ele e Vorcaro, além de informações sobre contratos de sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes,com a instituição financeira.
Os ministros negam qualquer relação com o Banco Master e com Daniel Bueno Vorcaro. Como resposta ao desgaste, o presidente do STF, Edson Fachin, anunciou a intenção de criar um novo código de ética para tribunais, inspirado em modelos internacionais, como o alemão.
O objetivo é estabelecer regras mais rígidas para evitar conflitos de interesse e monitorar a relação de magistrados com o setor privado, tentando blindar o tribunal de crises semelhantes no futuro. A medida, se aprovada, busca reverter a imagem do STF frente à opinião pública.
Pesquisas recentes, como as da AtlasIntel e do Datafolha, mostram que cerca de 55% dos brasileiros acreditam no envolvimento de ministros do STF com o escândalo do Master.
O caso Master também acirrou a tensão entre o STF, o Congresso e a PF. Há uma disputa narrativa e jurídica sobre a origem dos vazamentos de dados (se partiram de Comissões Parlamentares ou de inquéritos policiais), o que tem paralisado pautas importantes e alimentado pedidos de impeachment contra ministros por parte da oposição no Legislativo.

