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Geopolítica

Disputa entre China e Ocidente avança sobre África e América Latina; Brasil tem um lado?

Especialista afirma que a corrida por influência se intensificou principalmente após a crise financeira global de 2008 e pela guerra na Ucrânia

Disputa entre China e Ocidente avança sobre África e América Latina; Brasil tem um lado?

Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), nas últimas duas décadas, há um movimento de remodelação do comércio global, impulsionado pela maior influência de novas potências econômicas no cenário internacional, em que a venda de mercadorias entre os países do BRICS apresentou expansão de mais de 13 vezes desde 2003. Em meio a esse cenário, a China e o Ocidente intensificam a disputa por espaço econômico em regiões da América Latina e da África.

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De acordo com o cientista político e vice-reitor da UniProcessus, Gustavo Castro, a disputa se intensificou principalmente após a crise financeira de 2008 e, mais recentemente, com a reorganização da ordem global após a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia. No entanto, o especialista considera que é importante lembrar que já fazem algumas décadas que a China tem uma política crescente de aproximação em relação a essas duas regiões e, por isso, pode estar mais à frente do Ocidente nessa disputa por poder.

“A China ampliou fortemente sua presença por meio de investimentos em infraestrutura e comércio, enquanto os Estados Unidos e a União Europeia passaram a reagir com iniciativas para recuperar influência. Hoje, o cenário é de competição direta por mercados, recursos naturais e alinhamento político tanto na América Latina quanto na África”, disse Castro.

Diferenças estratégicas

Conforme apontado, a China busca se consolidar como principal potência econômica do mundo a partir de uma estratégia considerada pragmática. Suas ações para encontrar espaço em regiões subdesenvolvidas são centradas em investimento direto, financiamento e obras de grande escala, frequentemente por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota, programa que oferece crédito mais rápido, assim como tem menos exigências políticas explícitas.

O cientista político explica que a iniciativa do Cinturão e Rota (em inglês, Belt and Road Initiative, ou BRI) é um programa global lançado em 2013 por Xi Jinping, no intuito de promover o desenvolvimento internacional. A ação é inspirada nas antigas rotas da seda, que busca fortalecer a conectividade e a cooperação econômica entre a Ásia, Europa, África, América Latina e outras regiões. De acordo com Castro, a estratégia se consolidou como uma das principais plataformas de política externa e investimento internacional do país asiático.

Em uma dinâmica diferente, os Estados Unidos e a União Europeia disputam influência em regiões emergentes através do condicionamento de investimentos a critérios como governança, transparência e direitos humanos. Vale lembrar que o Ocidente historicamente prioriza instituições multilaterais e o setor privado, na contramão, a China prefere operar com empresas estatais, afirma Gustavo Castro.

“Preciso dizer que, atualmente, os Estados Unidos, no segundo mandato do governo de Donald Trump, têm tido uma posição bastante contrária ao multilateralismo. Pode ser que esta posição mude com uma possível mudança ideológica no governo”, considera o especialista.

O lugar do Brasil na disputa

Nesse cenário, o Brasil tem adotado uma posição de equilíbrio pragmático, mantendo a China como principal parceiro comercial, principalmente na exportação de commodities. Conforme apontado pelo O Brasilianista, no primeiro trimestre do ano, o volume das vendas internacionais brasileiras de petróleo bruto para a China alcançou US$ 7,2 bilhões, além do aumento da venda de carne bovina do Brasil e de dois produtos da cadeia de minerais críticos.

O país também mantém com o Ocidente vínculos estratégicos, políticos e institucionais fortes. Projeção da ApexBrasil indica que a aliança de comércio livre entre o Mercosul e a União Europeia, estabelecida após 20 anos de deliberações, poderá aumentar em até US$ 1 bilhão as exportações do Brasil para a Europa no seu primeiro ano de vigência, segundo informações do O Brasilianista. Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve em agenda internacional por todo o continente europeu, reflexo da estratégia de reforçar essas relações políticas.

Na avaliação de Gustavo Castro, esse posicionamento balanceado do Brasil é a estratégia mais racional, já que o país possui características que favorecem essa posição, como economia diversificada, relevância regional, assim como tradição diplomática de autonomia. “No entanto, essa estratégia exige habilidade crescente, porque a rivalidade entre China e Ocidente está se tornando mais polarizada, o que reduz o espaço para neutralidade no longo prazo”, acrescenta.

O risco de escolher um lado depende diretamente de qual bloco o Brasil decidir priorizar, já que um alinhamento mais claro pode gerar custos econômicos e diplomáticos, aponta o especialista. Caso apoie o lado da China, as exportações e os investimentos podem crescer, mas o país pode correr o risco de ter maior dependência econômica e tensões desproporcionais com o Ocidente.

Se o alinhamento for mais ao Ocidente, o país pode ganhar em termos institucionais e tecnológicos, mas pode perder espaço comercial com a China, especialmente no agronegócio. Com isso, a avaliação é de que o caminho mais vantajoso, no cenário atual, é manter autonomia estratégica, o que significaria para o Brasil.

  • Diversificação de parceiros;
  • Evitamento de alinhamentos automáticos;
  • Negociações caso a caso com base no interesse nacional;
  • Fortalecimento de sua capacidade interna (industrial, tecnológica e institucional).

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