O acordo firmado entre o governo de Goiás e os Estados Unidos para exploração de terras raras passou a ser alvo de questionamento dentro do Governo Federal. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que a negociação não tem respaldo jurídico e pode ser considerada inconstitucional, por tratar de um tema que é de competência exclusiva da União.
Segundo o G1, o ministro declarou que o subsolo brasileiro pertence à União e que apenas o governo federal pode regulamentar a exploração de minerais e firmar entendimentos com outros países. Na avaliação dele, o memorando assinado pelo estado não gera obrigações concretas e pode ser contestado judicialmente caso avance.
O entendimento envolve cooperação estratégica e financiamento para exploração de minerais em Goiás, com foco no projeto da mineradora Serra Verde, localizado em Minaçu. O movimento ocorre em um cenário de aumento da demanda global por matérias-primas consideradas essenciais para a indústria tecnológica.
Disputa sobre controle de recursos minerais
A reação do Governo Federal expõe um impasse sobre quem deve conduzir negociações envolvendo recursos estratégicos. Enquanto estados buscam atrair investimentos e acelerar projetos, a Constituição determina que decisões desse tipo devem ser centralizadas na União.
Márcio Elias Rosa afirmou que, apesar de iniciativas regionais voltadas ao desenvolvimento, acordos internacionais precisam seguir regras constitucionais. Ele também apontou que o país ainda carece de uma regulamentação mais clara para a exploração de terras raras e minerais críticos, o que tem gerado dúvidas e interpretações divergentes.
O tema ganha relevância diante da corrida global por esses elementos, considerados fundamentais para setores industriais de alto valor agregado. Países como os Estados Unidos dependem da importação desses recursos, o que aumenta o interesse em parcerias com nações que possuem grandes reservas.
Por que as terras raras são estratégicas?
As terras raras correspondem a um conjunto de 17 elementos químicos utilizados na produção de tecnologias modernas. Esses materiais estão presentes em equipamentos como turbinas eólicas, veículos elétricos, celulares e diversos componentes eletrônicos.
Conforme já explicado pelo O Brasilianista, o Brasil detém cerca de 23% das reservas mundiais desses minerais, o que coloca o país em posição relevante no cenário internacional. Essa condição amplia o interesse externo, especialmente em um momento de transição energética e expansão da indústria digital.
Apesar do nome, esses elementos não são escassos, mas sua extração e separação exigem processos complexos e custosos. Por isso, a exploração envolve desafios técnicos, ambientais e econômicos que precisam ser considerados antes da ampliação da atividade.
Venda da Serra Verde e impactos do acordo
O debate ocorre também após a venda da mineradora Serra Verde para a empresa norte-americana USA Rare Earth, em uma operação avaliada em US$ 2,8 bilhões. A transação prevê pagamento em dinheiro e emissão de ações, com conclusão estimada até 2026.
A aquisição é vista como um passo relevante para ampliar a atuação dos Estados Unidos no setor de terras raras. A expectativa da empresa é elevar significativamente seus resultados financeiros nos próximos anos, com projeções de crescimento até o fim da década.
Especialistas apontam que decisões envolvendo esses minerais têm implicações que vão além da economia. Entre os pontos levantados estão os impactos ambientais da mineração, o risco de exportação de matéria-prima sem agregação de valor e a dependência tecnológica de outros países.
Além disso, há preocupação com áreas sensíveis, como territórios indígenas, que podem ser afetados por projetos de exploração. O avanço dessas atividades exige avaliação cuidadosa e definição de limites claros.
Pressão por regras e próximos passos
O Governo Federal reconhece a necessidade de avançar na regulamentação do setor. A ausência de regras específicas amplia a insegurança jurídica e abre espaço para iniciativas isoladas, como o acordo firmado por Goiás.
Márcio Elias Rosa afirmou que a discussão exige análise técnica e participação de especialistas, considerando não apenas aspectos econômicos, mas também científicos. A definição de normas é vista como etapa necessária para organizar o setor e orientar futuras negociações.
O caso evidencia o papel estratégico do Brasil no mercado global de minerais críticos e a necessidade de decisões coordenadas. Com grandes reservas e crescente interesse internacional, o país enfrenta o desafio de equilibrar desenvolvimento econômico, controle nacional e impactos ambientais.

