O número de imigrantes que abriram mão de pedidos de proteção humanitária e decidiram deixar os Estados Unidos por conta própria aumentou fortemente desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
Segundo dados obtidos pelo The Washington Post, mais de 80 mil ordens de “saída voluntária” foram concedidas entre janeiro de 2025 e março deste ano. Esse tipo de decisão permite que o estrangeiro deixe o país sem receber uma deportação formal, mas exige a desistência do processo em andamento.
Na prática, a medida tem sido buscada por pessoas que já não veem chance concreta de permanecer legalmente em território americano.
Números cresceram após retorno de Trump
O total registrado no atual período representa salto expressivo em relação aos últimos 15 meses do governo Joe Biden, quando cerca de 11,4 mil pessoas optaram pelo mesmo caminho.
Outro dado relevante mostra que mais de 70% dos imigrantes que pediram saída voluntária durante o novo mandato de Trump estavam detidos quando tomaram a decisão.
Especialistas apontam que a permanência em centros de custódia por tempo indefinido se tornou fator decisivo. Em muitos casos, os imigrantes aguardam audiências sem previsão clara de liberação.
Durante a segunda metade do governo Biden, juízes emitiam média de 750 autorizações por mês. Depois da mudança de governo, os números começaram a subir de forma contínua.
Em julho, logo após operações migratórias em Los Angeles, 6.370 pessoas receberam esse tipo de ordem. Em março deste ano, o total mensal superou 9 mil.
Detenção e medo pesam nas decisões
Advogados de imigração afirmam que muitos estrangeiros preferem sair a seguir presos por meses ou até mais tempo. Shayna Kessler, diretora de um programa do Vera Institute, disse que vários detidos não enxergam alternativas viáveis para regularizar a situação.
Ariel Ruiz Soto, analista do Migration Policy Institute, também avaliou que a dificuldade para obter liberdade provisória impulsiona a alta dos pedidos.
Relatos individuais mostram o impacto humano da política atual. Um homem de 33 anos, natural do Oriente Médio, foi preso após comparecer a uma checagem marcada com autoridades migratórias. Segundo familiares, ele sofreu crises de pânico e dores no peito durante a custódia.
Depois disso, decidiu aceitar a saída voluntária. O irmão relatou: “Ele me disse: ‘Olha, estou morrendo aqui de qualquer forma. Prefiro morrer no meu país do que ir para um lugar onde vou morrer’”.
Mudanças no Judiciário migratório
O sistema de julgamentos também passou por alterações. Após assumir o cargo, integrantes do governo Trump demitiram mais de 100 juízes de imigração sem explicação pública, segundo o levantamento citado.
Pesquisadores afirmam ainda que novos magistrados, com menos experiência na área, passaram a receber parte importante dos casos envolvendo pessoas detidas.
Entre setembro e fevereiro, Texas liderou o número de acordos de saída voluntária, com 12,4 mil registros. Louisiana apareceu em seguida, com 5,4 mil. Flórida, Geórgia e Califórnia também somaram milhares de casos.
Para advogados que acompanham esses processos, muitas decisões ocorrem sob forte pressão. Jennifer Peyton, defensora de um dos imigrantes citados no relatório, resumiu esse entendimento ao declarar: “Esse tipo de saída voluntária não é voluntária. É coagida”.

