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Geopolítica

Trump prometeu US$ 21 trilhões, mas investimentos estrangeiros ficam abaixo do esperado nos EUA

Dados mostram queda no fluxo líquido de capital estrangeiro em 2025

Trump prometeu US$ 21 trilhões, mas investimentos estrangeiros ficam abaixo do esperado nos EUA

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu transformar a imposição de tarifas sobre produtos estrangeiros em uma ferramenta para atrair fábricas e investimentos ao país, mas os primeiros dados disponíveis apresentam resultados diferentes conforme o indicador utilizado.

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O investimento estrangeiro direto em novos negócios, aquisições e expansões chegou a US$ 232 bilhões em 2025, enquanto uma medição mais ampla, que considera também a retirada de recursos, registrou queda.

O The New York Times mostrou que Trump passou a anunciar valores cada vez maiores de investimentos prometidos aos Estados Unidos.

A cifra mencionada pelo presidente subiu de US$ 17 trilhões, em setembro de 2025, para US$ 18 trilhões em dezembro e, posteriormente, US$ 21 trilhões, montante equivalente a cerca de dois terços do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano.

Os compromissos identificados com parceiros comerciais somam aproximadamente US$ 5 trilhões e podem levar até dez anos para serem executados.

Parte dos acordos foi negociada com União Europeia e países da Ásia e do Golfo Pérsico em meio à pressão exercida pelas tarifas adotadas ou ameaçadas pelo governo norte-americano.

A diferença entre os anúncios e o dinheiro efetivamente aplicado nos Estados Unidos tornou-se um dos principais pontos para medir o cumprimento da política econômica apresentada por Trump.

Trump afirma que as tarifas atraem investimentos para os Estados Unidos, mas a entrada de capital estrangeiro depende de outros fatores, como juros, guerras e oportunidades de negócios.

Promessa de fábricas enfrenta números diferentes

A política comercial adotada por Trump parte da premissa de que tarifas mais elevadas tornam os produtos importados mais caros e levam empresas estrangeiras a transferir parte da produção para os Estados Unidos.

A instalação de fábricas no território norte-americano permitiria acesso ao mercado consumidor sem o pagamento das mesmas cobranças aplicadas às mercadorias produzidas no exterior.

Os primeiros números apresentaram crescimento em uma das medições. O investimento estrangeiro direto destinado a novas empresas, aquisições e expansão de negócios existentes passou de US$ 155 bilhões em 2024 para US$ 232 bilhões no ano seguinte, interrompendo três anos consecutivos de retração.

O resultado muda quando são considerados desinvestimentos, empréstimos entre companhias e outros fluxos financeiros.

Por esse cálculo, o investimento líquido estrangeiro nos Estados Unidos apresentou uma pequena redução em 2025 e permaneceu abaixo da média registrada na década anterior.

Parte do aumento também ocorreu em setores que receberam investimentos em diferentes países. A expansão dos centros de dados destinados à inteligência artificial movimentou quase US$ 500 bilhões em todo o mundo, enquanto a redução dos juros facilitou fusões e aquisições de empresas.

Tarifas viraram instrumento para atrair capital

Trump utilizou a ameaça de elevar impostos sobre importações para negociar compromissos de investimento com diferentes parceiros comerciais.

União Europeia, Japão, Coreia do Sul e Taiwan estiveram entre as economias envolvidas nas tratativas conduzidas pela administração norte-americana.

O maior compromisso foi apresentado pelo Japão, que prometeu US$ 550 bilhões em investimentos.

Os dois governos anunciaram, em fevereiro, um primeiro conjunto de projetos estimado em US$ 36 bilhões, incluindo uma unidade de geração de energia a gás natural em Ohio e uma estrutura de exportação de petróleo no Golfo do México.

Outro grupo de investimentos, envolvendo dezenas de bilhões de dólares e projetos de energia nuclear, foi divulgado em março.

O modelo prevê que o Japão forneça o capital e participe dos resultados financeiros, enquanto o governo dos Estados Unidos permanece como proprietário dos ativos.

A execução integral do compromisso, entretanto, depende da identificação de projetos capazes de receber os recursos. O valor prometido equivale a uma parcela significativa de todo o estoque de investimentos japoneses existente nos Estados Unidos, calculado em US$ 754 bilhões em 2024.

Guerra e incertezas dificultam cumprimento da promessa

As condições econômicas e políticas passaram a interferir nos planos anunciados pela Casa Branca. A guerra envolvendo o Irã elevou os preços da energia, pressionou a inflação e contribuiu para juros maiores, fatores que podem encarecer a realização de novos investimentos.

Países do Golfo Pérsico também passaram a direcionar recursos para a reconstrução de estruturas energéticas e militares atingidas pelo conflito.

Governos que haviam assumido compromissos de aplicar capital no exterior precisam agora conciliar esses projetos com despesas internas.

A revogação de incentivos à energia limpa criados durante o governo de Joe Biden interrompeu parte dos investimentos em fábricas de baterias e projetos de energia renovável. Uma parcela dessas iniciativas era financiada por empresas estrangeiras.

As mudanças frequentes nas políticas comercial e econômica também passaram a pesar nas decisões empresariais. Pesquisa da consultoria Kearney registrou uma piora na avaliação dos Estados Unidos entre investidores estrangeiros em 2025, enquanto Canadá e Japão ganharam espaço.

Brasil voltou ao centro da política tarifária

A estratégia utilizada para pressionar empresas e governos estrangeiros também atingiu o Brasil.

O governo Trump iniciou a cobrança de uma tarifa adicional de 10% em 2025 e, posteriormente, elevou a pressão comercial sobre produtos brasileiros.

O Brasilianista mostrou, que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) avaliou os efeitos do primeiro tarifaço como pontuais sobre a economia brasileira.

As exportações cresceram 6,2% em 2025 e alcançaram US$ 348,7 bilhões, enquanto exportadores buscaram ampliar vendas para outros mercados.

A política norte-americana tinha entre seus objetivos declarados estimular a produção doméstica e reduzir a dependência de fornecedores externos.

Durante o período, 22% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos chegaram a ficar submetidas a sobretaxas de 40% ou 50% antes da revogação das medidas.

O desempenho brasileiro ocorreu paralelamente ao crescimento de 2,3% do PIB em 2025. A agropecuária avançou 11,7%, os serviços cresceram 1,8% e a indústria apresentou expansão de 1,4%.

Novas cobranças podem atingir 4.187 produtos

A pressão comercial voltou a aumentar em 2026. Duas propostas discutidas pelo governo norte-americano podem acrescentar tarifas de 25% e 12,5% sobre parte das mercadorias brasileiras, que já enfrentam uma cobrança temporária de 10%.

O Brasilianista destacou que uma projeção da Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula que 4.187 produtos, responsáveis por US$ 14,9 bilhões em exportações, podem ficar sujeitos a uma tarifa acumulada de 37,5%.

Entre os itens alcançados estão ferro-gusa, açúcar de cana bruto, sebo não comestível, álcool etílico não desnaturado, molduras de madeira, tabaco processado, compensado de pinus, granito e hidróxido de alumínio.

Em 11 categorias analisadas, o Brasil é o principal fornecedor do mercado norte-americano. O país responde por 99,6% das importações de compensado de pinus, 73,3% das compras de ferro-gusa não ligado e 72,3% do álcool etílico não desnaturado adquirido pelos Estados Unidos.

Empresas norte-americanas contestam novas barreiras

A ampliação das tarifas passou a enfrentar resistência dentro dos próprios Estados Unidos. Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay pediram ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) a retirada de diferentes mercadorias brasileiras das propostas em discussão.

As empresas argumentam que determinados produtos não possuem substitutos suficientes no mercado doméstico. A cobrança poderia aumentar os custos de produção, afetar cadeias de fornecimento e elevar preços para consumidores norte-americanos.

A estrutura de exceções já preserva café, algumas carnes, frutas, cereais, fertilizantes, medicamentos, minerais estratégicos e parte dos produtos relacionados à indústria aeroespacial.

O Brasilianista informou que a lista foi elaborada para retirar das cobranças mercadorias consideradas importantes para o abastecimento e para setores produtivos dos próprios Estados Unidos. Máquinas, equipamentos industriais, produtos elétricos e parte das mercadorias de madeira permanecem entre os segmentos expostos.

Flávio Bolsonaro tentou negociar suspensão da medida

A disputa tarifária também passou a integrar as relações políticas entre Brasil e Estados Unidos. O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou ao USTR um documento solicitando a suspensão da proposta de tarifa adicional de 25%.

O Brasilianista mostrou que o parlamentar apresentou um documento de 86 páginas com argumentos para a revisão das cobranças e a abertura de negociações diretas entre os dois países.

Antes disso, Flávio havia procurado o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. O pedido para suspender as medidas não foi aceito, e o governo norte-americano apontou as audiências públicas como o canal para a discussão das propostas.

As investigações comerciais envolvem temas como o Pix, acesso ao mercado brasileiro de etanol, propriedade intelectual, combate à corrupção e políticas ambientais. A decisão sobre a proposta específica de tarifa de 25% contra produtos brasileiros é esperada até 15 de julho.

Resultado da estratégia ainda depende da execução dos acordos

O balanço entre as promessas feitas por Trump e as medidas executadas apresenta resultados diferentes conforme a área analisada.

A Casa Branca ampliou o uso de tarifas, conseguiu compromissos bilionários de parceiros comerciais e registrou crescimento dos investimentos destinados a aquisições e expansão de empresas em 2025.

O fluxo líquido de capital estrangeiro, entretanto, recuou no mesmo período, enquanto parte dos acordos anunciados depende de projetos que ainda precisam ser definidos e financiados.

Os compromissos identificados chegam a aproximadamente US$ 5 trilhões, abaixo dos US$ 21 trilhões mencionados publicamente pelo presidente.

Ao mesmo tempo, as barreiras utilizadas para pressionar governos e empresas a investir nos Estados Unidos passaram a elevar custos de insumos importados e provocar resistência de companhias norte-americanas dependentes de fornecedores estrangeiros.

As audiências sobre as novas medidas contra o Brasil ocorrem em Washington. A tarifa temporária de 10% aplicada atualmente aos produtos alcançados pela projeção da CNI permanece válida até 24 de julho, enquanto a decisão sobre a investigação comercial específica contra o país é esperada para 15 de julho.

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