A escalada militar entre Estados Unidos e Irã abriu espaço para um avanço da influência internacional chinesa, especialmente em regiões que passaram a enxergar Washington com maior desconfiança após os ataques iniciados em 2026.
A avaliação é da advogada Paula Teixeira Garcia Civolani, sócia do escritório Teixeira Civolani Sociedade de Advocacia e professora de Direito Internacional do Trabalho.
Segundo ela, o conflito alterou não apenas o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio, mas também a percepção global sobre liderança internacional.
A discussão envolve o conceito de “soft power”, expressão usada para definir a capacidade de um país influenciar outras nações por meio de atração cultural, legitimidade diplomática e credibilidade política, sem depender exclusivamente da força militar.
“O termo soft power foi cunhado pelo cientista político norte-americano Joseph Nye, da Universidade de Harvard, nos anos 1990. Em contraste com o hard power — que se baseia em coerção militar e econômica —, o soft power é a capacidade de um Estado de influenciar outros por meio da atração, e não da imposição”, afirma Civolani.
Segundo a especialista, os Estados Unidos construíram durante décadas uma imagem internacional associada à democracia, instituições multilaterais e liderança diplomática.
No entanto, a guerra com o Irã passou a produzir efeitos contrários à própria estratégia histórica americana.
“O soft power norte-americano já vinha sofrendo erosão antes do conflito. Comportamentos que antes eram percebidos como estabilizadores passaram a ser vistos por grande parte do mundo como ações unilaterais e guiadas por interesses próprios, corroendo a autoridade moral americana”, explica.
O debate sobre soft power ganhou força nos últimos anos diante da disputa crescente entre Estados Unidos e China por influência global, investimentos internacionais e capacidade diplomática.
China passou a ocupar espaço deixado pelos EUA
A professora afirma que Pequim conseguiu transformar o desgaste internacional americano em oportunidade diplomática sem precisar se envolver diretamente na guerra.
“Para a China, o conflito é um presente geopolítico com custos embutidos: a agressão dos EUA no Irã reforça a retórica chinesa que enquadra Pequim como ‘um pilar de estabilidade em contraste com uma América imprevisível’”, destaca.
Segundo Civolani, a estratégia chinesa foi baseada em apoio diplomático limitado ao Irã, evitando assumir custos militares ou econômicos mais elevados durante o conflito.
“A China e a Rússia, por sua vez, jogaram de forma estrategicamente calculada. Ambas recusaram-se a dar ao Irã apoio irrestrito ou a arcar com custos reais no conflito, optando por assistência limitada na forma de inteligência em pequena escala e apoio diplomático”, afirma.
A especialista explica que Pequim conseguiu explorar politicamente o desgaste dos Estados Unidos principalmente junto ao chamado Sul Global, grupo que inclui países da América Latina, África e parte da Ásia.
“O Sul Global — bloco que inclui o Brasil — tende a enxergar o conflito com desconfiança profunda. A narrativa dominante nessas regiões não é a da segurança nuclear, mas a da assimetria de poder: um país poderoso atacando outro mais fraco no momento em que negociações diplomáticas estavam em curso”, avalia.
A influência internacional passou a depender cada vez mais da percepção de coerência entre discurso diplomático e prática política adotada pelas grandes potências.
Pesquisas mostram avanço da percepção favorável à China
Dados internacionais citados pela especialista apontam que a mudança na percepção global sobre Estados Unidos e China já aparece em levantamentos de opinião pública realizados após o agravamento do conflito.
“Pesquisa da Ipsos conduzida em abril de 2026 mostrou que apenas 24% dos entrevistados consideram que a decisão de tomar ação militar no Irã valeu a pena, enquanto 51% dizem que não valeu”, afirma Civolani.
Ela destaca que os números revelam uma alteração mais ampla na forma como o poder internacional americano passou a ser percebido.
“Além disso, a proporção de respondentes que acreditam que os EUA terão um impacto positivo no mundo caiu, enquanto uma proporção maior agora acredita que a China (50%) terá um impacto positivo em comparação com os EUA (39%) ao longo da próxima década”, explica.
Segundo a professora, a vantagem chinesa não necessariamente representa admiração pelo modelo político de Pequim, mas sim desgaste crescente da liderança americana.
“Esse dado é devastador: pela primeira vez em pesquisas globais sistemáticas, a China supera os EUA na percepção de impacto positivo futuro”, afirma.
Pesquisas internacionais também mostram aumento da rejeição global aos Estados Unidos e crescimento da percepção favorável à China em dezenas de países, incluindo aliados tradicionais dos americanos.
Guerra acelerou debate sobre legitimidade internacional
A especialista afirma que o conflito também produziu questionamentos sobre a própria legitimidade jurídica da atuação americana no Oriente Médio.
“Há ainda um problema institucional grave: a guerra foi iniciada sem autorização do Congresso, o que corrói a legitimidade interna e internacional da ação”, destaca.
Segundo Civolani, parte relevante do desgaste internacional ocorreu pela percepção de que os Estados Unidos deixaram de atuar como defensores das regras multilaterais que ajudaram a construir após a Segunda Guerra Mundial.
“Quando a potência que mais contribuiu para a construção da ordem internacional baseada em regras passa a tratá-la como obstáculo, ela mina o próprio arcabouço que garantiu décadas de relativa estabilidade global”, afirma.
Ela explica que esse movimento fortalece o discurso diplomático chinês de defesa da estabilidade internacional, mesmo dentro de um modelo político diferente do ocidental.
O avanço econômico da China também contribuiu para ampliar sua presença diplomática e comercial em diferentes regiões do mundo nos últimos anos.
Efeito deve continuar no longo prazo
Na avaliação da professora, os impactos produzidos pela guerra podem continuar influenciando o equilíbrio global mesmo após o fim do conflito militar direto.
“No longo prazo, os danos ao soft power tendem a ser cumulativos e, em parte, irreversíveis”, afirma.
Ela destaca que a perda de influência internacional não acontece apenas por derrotas militares, mas principalmente pela deterioração gradual da credibilidade diplomática.
“Os Estados Unidos já não exercem liderança incontestada; dependem cada vez mais de alavancagem e coerção, tentando influenciar resultados num ambiente em que parceiros se sentem menos obrigados a obedecer”, explica.
Segundo Civolani, a combinação entre desgaste americano e crescimento chinês passou a alterar o equilíbrio global de influência diplomática.
“O ambiente criou uma vantagem para a China em sua diplomacia”, conclui.

