Os conflitos recentes entre Estados Unidos e Irã ampliaram o debate internacional sobre o enfraquecimento do chamado “soft power” americano, conceito ligado à capacidade de influência global por meio de cultura, diplomacia e legitimidade política.
A discussão ganhou força após a escalada militar iniciada em fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã na operação chamada “Epic Fury”.
Desde então, especialistas em relações internacionais passaram a apontar impactos não apenas militares e econômicos, mas também diplomáticos e institucionais para a imagem global americana.
Segundo a advogada e professora de Direito Internacional Paula Teixeira Garcia Civolani, sócia do escritório Teixeira Civolani Sociedade de Advocacia, o conceito de soft power ajuda a entender por que a influência internacional de um país não depende apenas de capacidade militar.
“O termo soft power foi cunhado pelo cientista político norte-americano Joseph Nye, da Universidade de Harvard, nos anos 1990. Em contraste com o hard power, que se baseia em coerção militar e econômica, o soft power é a capacidade de um Estado de influenciar outros por meio da atração, e não da imposição”, afirma.
A especialista explica que essa influência costuma ser construída a partir de três pilares principais: cultura, valores políticos e política externa percebida como legítima no cenário internacional.
Segundo Civolani, os Estados Unidos consolidaram esse modelo ao longo do século XX por meio de iniciativas diplomáticas, econômicas e culturais que ajudaram a projetar o país globalmente após a Segunda Guerra Mundial.
Conflito ampliou desgaste da imagem americana
A professora avalia que a guerra envolvendo o Irã acelerou um processo de desgaste que já vinha sendo percebido internacionalmente antes da escalada militar de 2026.
“O soft power norte-americano já vinha sofrendo erosão antes do conflito. Comportamentos que antes eram percebidos como estabilizadores passaram a ser vistos por grande parte do mundo como ações unilaterais e guiadas por interesses próprios, corroendo a autoridade moral americana”, explica.
Segundo Civolani, a mudança mais significativa ocorreu na substituição da lógica de persuasão por uma política baseada em intimidação e demonstração de força.
“A administração Trump parece positivamente entusiasmada sempre que consegue violar alguma norma estabelecida e infligir dor. Quando o presidente ameaça ‘erradicar a civilização iraniana’ e o secretário de Defesa descarta o direito internacional e se vangloria de que as tropas americanas não darão ‘quartel’ ao inimigo, o que constituiria um crime de guerra, fica claro que o objetivo é intimidar, não persuadir; compelir, não atrair”, destaca.
Como divulgado pelo O Brasilianista, a percepção internacional sobre os Estados Unidos sofreu queda consistente nos últimos anos, enquanto a China passou a ampliar sua aprovação global em pesquisas internacionais.
Os EUA registraram 31% de aprovação global, enquanto a China atingiu 36%, a maior diferença entre os países em quase duas décadas.
Perda diplomática vai além da guerra
A especialista afirma que os impactos do conflito não se limitam ao campo militar e afetam diretamente a legitimidade diplomática americana.
“Algumas das maiores vitórias na história da política externa americana vieram de trabalhar construtivamente e generosamente com outros países, incluindo ex-adversários, e de trabalhar para corrigir aspectos problemáticos da própria sociedade americana a fim de reforçar sua imagem global”, enfatiza.
Ela cita como exemplos históricos o Plano Marshall, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o Movimento dos Direitos Civis e negociações multilaterais durante a Guerra Fria.
Por outro lado, Civolani afirma que conflitos prolongados baseados em superioridade militar produziram parte dos maiores desgastes internacionais dos Estados Unidos nas últimas décadas.
“Por contraste, alguns dos maiores fracassos da política externa americana, Vietnã, guerras sem fim no Iraque e Afeganistão, a derrubada de Kadafi na Líbia, e o atual desastre no Irã, vieram justamente da crença de que hard power suficiente garantiria o sucesso”, avalia.
Segundo a professora, existe ainda uma discussão jurídica relevante sobre a legalidade da operação militar no Irã, especialmente pela ausência de autorização formal do Congresso americano.
“Numerosos especialistas jurídicos e militares afirmaram que as ações dos EUA no Irã são do tipo que exigem autorização do Congresso, e identificaram os ataques como um possível crime de agressão no direito penal internacional”, comenta.
China amplia espaço no cenário internacional
Na avaliação da especialista, a guerra também abriu espaço para avanço diplomático da China em diversas regiões do mundo.
“A agressão dos EUA no Irã reforça a retórica chinesa que enquadra Pequim como ‘um pilar de estabilidade em contraste com uma América imprevisível’”, explica.
Segundo Civolani, Pequim conseguiu explorar diplomaticamente a deterioração da imagem americana sem assumir diretamente os custos do conflito.
Ela afirma que China e Rússia evitaram envolvimento militar direto mais profundo, mas aproveitaram o desgaste político internacional enfrentado pelos Estados Unidos.
“O que importava é que o Irã simplesmente precisava sobreviver para servir aos interesses dos principais rivais geopolíticos de Washington”, destaca.
Efeitos podem durar décadas
Para a professora, os impactos mais relevantes ainda devem ocorrer no longo prazo, especialmente na estrutura de legitimidade internacional construída pelos próprios Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.
“No longo prazo, os danos ao soft power tendem a ser cumulativos e, em parte, irreversíveis”, afirma.
Ela aponta que o enfraquecimento da autoridade moral americana pode produzir efeitos em organismos multilaterais, sistemas internacionais de comércio e estruturas ligadas ao Direito Internacional.
“Quando a potência que mais contribuiu para a construção da ordem internacional baseada em regras passa a tratá-la como obstáculo, ela mina o próprio arcabouço que garantiu décadas de relativa estabilidade global”, explica.
Segundo Civolani, o principal risco envolve a deterioração gradual da confiança internacional nas regras multilaterais construídas após a Segunda Guerra Mundial.
“O Direito Internacional do Trabalho, o Direito Humanitário Internacional, os sistemas multilaterais de comércio e de direitos humanos, todos dependem de que os atores mais poderosos do sistema respeitem as regras que ajudaram a criar”, destaca.

