Donald Trump e Xi Jinping concordaram, nesta quinta-feira (14), em desenvolver uma “relação China-EUA construtiva de estabilidade estratégica”, proposta apresentada por Pequim como nova diretriz para os próximos anos da relação bilateral.
O comunicado divulgado pelo governo chinês afirmou que os dois países buscarão aprofundar mecanismos de diálogo diplomático e militar para evitar escaladas de conflito.
A proposta também prevê cooperação econômica e uma “competição moderada” entre Washington e Pequim.
Xi Jinping declarou durante a reunião que “a porta da China para a abertura só se abrirá ainda mais”, em um gesto direcionado ao mercado internacional e a investidores estrangeiros interessados no mercado chinês.
Outro ponto apresentado após a cúpula foi a manutenção dos canais de negociação comercial e estratégica entre os dois governos.
O encontro marcou a primeira visita de Trump à China desde 2017 e ocorreu em um momento de instabilidade envolvendo Oriente Médio, Ucrânia e disputas comerciais globais.
Especialistas ouvidos pelo O Brasilianista apontavam que Trump chegava pressionado por empresários americanos afetados pelas restrições comerciais impostas à China e pela desaceleração econômica internacional.
O governo americano buscava ampliar compras chinesas de produtos agrícolas, energia e aeronaves produzidas nos Estados Unidos.
Já Pequim pretendia evitar uma escalada ainda maior das tensões econômicas com Washington e ampliar garantias sobre temas considerados estratégicos pelo governo chinês, principalmente Taiwan e as restrições comerciais impostas pelos americanos.
China amplia espaço diplomático após encontro
Xi Jinping saiu da reunião com ganhos diplomáticos relevantes ao conseguir transformar a presença de Trump em Pequim em um símbolo de estabilidade internacional em meio ao aumento das tensões globais.
O presidente chinês também conseguiu reforçar a narrativa de que a China busca coexistência estratégica com os Estados Unidos.
O governo chinês ainda ampliou o espaço de sua própria mensagem internacional ao colocar Taiwan no centro da discussão bilateral.
Xi classificou a ilha como “a questão mais importante” das relações entre os dois países e afirmou que erros sobre o tema podem levar a “colisão ou conflito”.
A estratégia chinesa também conseguiu dominar parte da narrativa pública da reunião. As declarações mais repercutidas após o encontro vieram justamente das falas de Xi sobre Taiwan, enquanto a Casa Branca evitou aprofundar publicamente o tema durante os comunicados oficiais.
Outro ganho indireto para Pequim envolveu o posicionamento internacional da China diante da guerra no Irã.
Trump chegou à reunião buscando apoio chinês para pressionar Teerã por um acordo de paz, mas saiu apenas com manifestações genéricas já defendidas anteriormente por Pequim, como a defesa da estabilidade no Estreito de Ormuz e a oposição ao uso de armas nucleares pelo Irã.
Trump consegue manter diálogo econômico aberto
Para Donald Trump, o principal resultado da reunião foi a preservação dos canais de negociação econômica com a China após anos de deterioração comercial entre os dois países.
A participação de empresários americanos ligados aos setores de tecnologia, aviação e indústria foi tratada pela Casa Branca como tentativa de reabrir oportunidades comerciais no mercado chinês.
Empresas americanas também saíram da reunião com resultados distintos. A Visa apareceu entre os grupos favorecidos após Trump pressionar Xi Jinping a permitir maior entrada da companhia no mercado chinês de pagamentos, um dos maiores do mundo em movimentação financeira.
Outro empresário que ampliou espaço político durante a visita foi Jensen Huang, presidente da Nvidia. O executivo participou da delegação americana mesmo após inicialmente não aparecer na lista oficial da Casa Branca.
A aproximação com Trump durante a viagem fortaleceu o movimento da empresa para ampliar negócios envolvendo semicondutores e inteligência artificial na China.
Trump tentou apresentar como vitória a promessa chinesa de compra de 200 aeronaves da Boeing. O número, porém, ficou abaixo das expectativas criadas antes da reunião, quando havia especulações sobre um pedido de até 500 aviões.
Taiwan e republicanos aparecem entre os pressionados
Entre os setores considerados mais pressionados após a reunião aparece Taiwan. Trump evitou aprofundar publicamente o tema durante a viagem, enquanto Xi Jinping utilizou linguagem mais dura ao tratar da ilha e reforçou a posição chinesa sobre soberania territorial.
A ausência de referências mais contundentes da Casa Branca sobre Taiwan gerou repercussão política nos Estados Unidos.
Após a reunião, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que a posição americana sobre a ilha permanecia inalterada.
Questões envolvendo Taiwan, inteligência artificial, tecnologia e segurança estratégica são tratadas tanto por Washington quanto por Pequim como temas centrais de soberania nacional.
O cientista político Alex Terras afirmou ao O Brasilianista que a atual disputa entre Estados Unidos e China ocorre em cenário diferente da Guerra Fria do século XX devido à forte integração econômica entre os dois países.
Ele destacou que cadeias produtivas globais e relações comerciais profundas dificultam uma ruptura completa entre as duas potências.
Terras também afirmou que o fortalecimento militar de americanos e chineses funciona atualmente como mecanismo de dissuasão estratégica e não necessariamente como preparação imediata para um conflito direto.
Guerra comercial continua sem solução definitiva
Apesar dos anúncios diplomáticos, os dois governos mantiveram divergências importantes em áreas consideradas centrais para a disputa internacional entre Estados Unidos e China.
O comunicado final da reunião não apresentou avanços concretos sobre tarifas comerciais, tecnologia militar ou restrições industriais.
Republicanos ligados ao setor agrícola americano também deixaram a reunião sem os acordos imediatos esperados pela Casa Branca.
O governo americano indicou que possíveis reduções tarifárias sobre produtos chineses ainda dependerão de meses de negociações administrativas.
O governo Trump também afirmou que Pequim demonstrou interesse em ampliar compras de energia e produtos agrícolas americanos. No entanto, os detalhes dos acordos comerciais não foram oficialmente concluídos durante a visita.
A reunião ainda abordou temas ligados à guerra no Oriente Médio, à Ucrânia e à Península Coreana, mas os dois governos não divulgaram acordos específicos relacionados a esses conflitos internacionais.

