A facilidade para criar vídeos, imagens e áudios falsos com inteligência artificial colocou as eleições de 2026 no centro das preocupações de especialistas em direito digital, integrantes da Justiça Eleitoral e campanhas políticas. O receio envolve desde ataques contra candidatos até a disseminação de conteúdos manipulados capazes de alterar percepções do eleitorado antes mesmo de uma checagem oficial.
Nos últimos meses, casos envolvendo imagens adulteradas de figuras públicas passaram a circular com mais frequência nas redes sociais. Um dos episódios citados ocorreu após a divulgação de uma imagem do advogado-geral da União, Jorge Messias, supostamente chorando dentro de um carro depois da rejeição de seu nome em uma sabatina no Senado. A fotografia, no entanto, foi manipulada com inteligência artificial.
Conforme já explicado pelo O Brasilianista, o fotógrafo responsável pelo registro original informou que a imagem havia sido alterada digitalmente. Na foto real, Jorge Messias aparecia com expressão neutra ao lado da esposa, Karina Messias.
O episódio passou a circular rapidamente em perfis nas redes sociais, acompanhado de interpretações políticas sobre a suposta reação do AGU após o resultado da votação. O caso deixou claro que se torna necessário o debate sobre a dificuldade de identificar publicações adulteradas em período eleitoral.
A advogada Daniela Poli Vlavianos, sócia do Poli Advogados e Associados, afirmou que a inteligência artificial já representa um risco concreto para o processo democrático. Para ela, a preocupação não está apenas na circulação de informações falsas, mas na velocidade e no alcance desse material.
“A inteligência artificial generativa representa um risco real porque permite a criação rápida, barata e altamente convincente de imagens, vídeos e áudios falsos”, declarou.
Ela explicou que o impacto vai além da desinformação isolada. Para Daniela, o problema atinge diretamente a confiança pública e a capacidade de o eleitor distinguir o que é verdadeiro durante a campanha eleitoral.
Manipulação digital preocupa Justiça Eleitoral
O Tribunal Superior Eleitoral já aprovou normas voltadas ao uso de inteligência artificial nas eleições de 2026. As regras incluem restrições ao uso de deepfakes e a exigência de identificação de conteúdos produzidos com IA.
Juliana Sene Ikeda, especialista em direito digital e sócia do Campos Thomaz Advogados, disse, em entrevista exclusiva ao O Brasilianista que o avanço dessas ferramentas elevou a desinformação “a um novo patamar”.
Segundo ela, o baixo custo e a facilidade de produção ampliam o potencial de danos durante campanhas eleitorais: “O TSE, por exemplo, editou regras específicas para coibir o uso abusivo dessas tecnologias nas eleições de 2026”.
A advogada também destacou que montagens digitais podem gerar efeitos mesmo após desmentidos oficiais. Isso ocorre porque a viralização costuma ser mais rápida do que os mecanismos de verificação e remoção.
“Em muitas situações, o alcance viral amplia o dano antes de qualquer correção”, afirmou Juliana.
Daniela Poli Vlavianos avaliou que o problema não está apenas na existência do conteúdo falso, mas no ambiente de desconfiança criado a partir dessas manipulações. Para a advogada, até materiais legítimos passam a ser questionados quando o eleitor perde a capacidade de identificar o que é autêntico.
“O eleitor nem sempre recebe a correção com a mesma intensidade com que recebeu a desinformação inicial”, observou.
Aplicativos dificultam remoção
Além das redes sociais abertas, aplicativos de mensagens também aparecem entre os principais desafios apontados pelas especialistas. O compartilhamento em grupos fechados dificulta o monitoramento e reduz a velocidade de resposta das autoridades.
Juliana explicou que a disseminação digital acontece em ritmo muito superior ao tempo necessário para análise jurídica e retirada de conteúdos. Ela acrescentou que a própria proteção à privacidade dos usuários dificulta o rastreamento da origem das publicações.
Na avaliação de Daniela, mesmo após ordens judiciais de remoção, cópias continuam circulando em diferentes plataformas: “A desinformação trabalha com viralização, anonimato e velocidade”.
As duas especialistas também alertaram para impactos diretos em campanhas eleitorais. Vídeos manipulados podem alterar estratégias políticas, provocar ações judiciais e gerar crises institucionais envolvendo autoridades e órgãos públicos.
Daniela Poli Vlavianos afirmou que um publicações adulteradas pode obrigar campanhas a interromper agendas e concentrar esforços em gerenciamento de crise. Já Juliana Sene Ikeda mencionou que há registros de casos em que materiais manipulados influenciaram disputas locais em outros contextos eleitorais.
Educação digital deve ganhar espaço no debate
As especialistas defendem que a discussão sobre inteligência artificial nas eleições não deve se limitar à proibição da tecnologia. O debate também envolve educação digital, transparência e capacidade de resposta rápida diante de materiais fraudulentos.
Juliana afirmou que a imprensa tradicional terá papel importante na checagem de informações durante o processo eleitoral. Segundo ela, a reprodução automática de publicações feitas online amplia os riscos de desinformação.
Daniela Poli Vlavianos acrescentou que campanhas, partidos e autoridades eleitorais precisarão adotar protocolos internos de monitoramento e identificação de peças produzidas com IA.
“O uso legítimo de IA não deve ser proibido, mas precisa ser transparente, rastreável e compatível com a boa-fé eleitoral”, declarou.
Para as entrevistadas, um dos principais desafios das eleições de 2026 será preservar a confiança pública diante do avanço de ferramentas capazes de produzir imagens, vídeos e áudios cada vez mais realistas.

