As relações entre Estados Unidos e Cuba atravessam um dos momentos mais delicados dos últimos anos. A troca de acusações, o endurecimento das sanções econômicas e declarações recentes do presidente Donald Trump ampliaram a pressão sobre o governo cubano, enquanto Havana afirma estar preparada para enfrentar qualquer cenário.
O episódio mais recente aconteceu após procuradores norte-americanos denunciarem formalmente o ex-presidente cubano Raúl Castro por assassinato e conspiração relacionados à derrubada de dois aviões de um grupo humanitário em 1996. A decisão elevou a tensão diplomática e levantou especulações sobre uma possível ofensiva mais agressiva dos Estados Unidos contra a ilha.
Apesar disso, Trump afirmou que não vê necessidade de ampliar a escalada contra Cuba neste momento. “Não, não haverá escalada”, declarou o republicano a jornalistas. “Eu não acho que seja necessário. Veja, o lugar está desmoronando. É uma bagunça e eles perderam o controle. Eles realmente perderam o controle de Cuba”.
Reportagem da Bloomberg mostrou que o governo norte-americano também aumentou a pressão econômica sobre Havana ao restringir ainda mais o acesso da ilha a combustíveis. O bloqueio agravou os apagões e afetou serviços essenciais no país, que enfrenta falta de diesel e óleo combustível para abastecer usinas de energia.
Crise energética ampliou tensão entre os países
A atual crise em Cuba ganhou força após Washington intensificar medidas contra países e empresas que mantêm relações comerciais com Havana, principalmente no setor de petróleo. O governo Trump autorizou sanções contra nações que forneçam combustível à ilha, o que afetou diretamente antigos parceiros cubanos.
A Venezuela, tradicional aliada de Cuba, deixou de enviar petróleo após mudanças políticas provocadas pela ação dos Estados Unidos no país. O México também reduziu o comércio da commodity com Havana diante das ameaças de sanções americanas.
Sem combustível suficiente, Cuba passou a enfrentar uma das piores crises energéticas de sua história recente. A escassez afeta o transporte, o funcionamento de hospitais e o abastecimento de alimentos e medicamentos.
Conforme já explicado pelo O Brasilianista, Cuba vive sob embargo econômico dos Estados Unidos desde a Revolução Cubana de 1959, quando Fidel Castro assumiu o poder e implantou o regime socialista na ilha. Desde então, a relação entre os dois países passou por períodos de tensão e breves aproximações diplomáticas, como ocorreu durante o governo Barack Obama.
Nos últimos meses, Trump retomou um discurso mais duro contra Havana. Em declarações recentes, o presidente americano afirmou que teria “a honra de tomar Cuba”, fala que gerou reação imediata das autoridades cubanas.
O presidente Miguel Díaz-Canel declarou que o país está preparado para responder a qualquer tentativa de agressão militar. “O momento é extremamente desafiador e nos convoca a estarmos preparados para enfrentar sérias ameaças, entre elas a agressão militar”, afirmou o líder cubano.
Em outro momento, Díaz-Canel também criticou a narrativa construída pelos Estados Unidos sobre a situação da ilha. “Foi construída uma narrativa mentirosa e muito cínica: a de Cuba como Estado falido (…) Cuba não é um Estado falido, é um Estado cercado. Continuamos sendo uma revolução socialista bem debaixo do nariz do império”.
Tentativas de negociação esbarraram em novos conflitos
Mesmo diante da escalada de tensão, integrantes do governo cubano tentaram abrir canais de negociação com a Casa Branca. Uma dessas iniciativas, porém, terminou de forma frustrada.
Ainda de acordo com O Brasilianista, um emissário ligado a Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro, foi detido e deportado ao tentar entregar uma carta diretamente a Donald Trump nos Estados Unidos. O objetivo era apresentar propostas econômicas, discutir investimentos e pedir alívio das sanções impostas contra Cuba. A mensagem também alertava sobre preocupações do governo cubano em relação a uma possível operação militar americana.
A tentativa de contato teria acontecido fora dos canais diplomáticos tradicionais e seria uma forma de contornar a influência do secretário de Estado Marco Rubio, conhecido por defender uma linha mais rígida contra Havana. Enquanto isso, empresas estrangeiras que operam em Cuba também passaram a enfrentar dificuldades diante das novas medidas anunciadas pela Casa Branca.
A mineradora canadense Sherritt, uma das maiores investidoras estrangeiras da ilha desde os anos 1990, chegou a cogitar abandonar suas operações cubanas após o aumento da pressão americana. Depois, a companhia voltou atrás e iniciou negociações para transferir o controle da empresa a um grupo ligado ao empresário Ray Washburne, ex-conselheiro de Trump.
A Bloomberg também apresentou a mudança ocorreu após Trump assinar uma ordem executiva autorizando novas sanções contra empresas e pessoas ligadas ao aparato de segurança cubano.
Brasil acompanha cenário e critica possibilidade de invasão
O Brasilianista noticiou o aumento da tensão entre Washington e Havana também provocou reações internacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ser contrário a qualquer intervenção militar dos Estados Unidos em Cuba.
“Eu serei contra a invasão de Cuba como fui contra a da Venezuela, a da Ucrânia, a de Gaza, a do Irã. Sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política de como a sociedade de um país deve se organizar ou não. Cadê a autodeterminação dos povos?”, declarou durante agenda na Alemanha.
Lula também criticou o embargo econômico mantido há décadas contra a ilha caribenha: “Cuba é vítima de um bloqueio de 70 anos, é uma vergonha mundial. O país não teve a chance, depois da revolução, de conseguir decidir seu destino com uma potência fazendo um bloqueio ideológico contra Cuba. Sou contra qualquer bloqueio e qualquer intervenção de qualquer país”.
Nos bastidores, autoridades mexicanas também indicaram disposição para ajudar em possíveis negociações entre os dois países.

